Maio 30, 2008...11:58 pm

O estado das coisas

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A. é psicóloga e trabalha na Fundae. Ela estava preparando exames de direção para portadores de necessidades especiais quando a gurizada foi entrando. Logo percebeu que era algo diferente, eram muitos, ruidosos e foram entrando sem pedir licença. Começava a ocupação da Fundae. A. foi minha aluna, faz uns quatro anos e veio conversar comigo quando estacionei a lambreta na frente da Fundae e fui assuntar, despacito, como convém numa tarde de sexta-feira, no final do expediente. Um garoto enterrado embaixo de um gorro vermelho me entregou um folheto, já devidamente xerocado dentro da Fundae, onde explicava que o Deceé da Ufurgs, o Coletivo “atéquandoesperar”, o Dafil da Ufesm, e mais o  Dacs, DAfedcd, Dafe, Cecs, etc, queriam protestar contra a “mercantilização do ensino  hoje representada nas universidades pelas fundações ditas de apoio”.

Bueno, pensei, e depois ufa, se eu morrer de enfarte amanhã – que bem me deu uma dormência no braço esquerdo ontem – o  mundo segue desse bom jeito, a gurizada botando a boca nele. A Brigada por ali, bem educada, não parecia querer cututar ninguém com as borrachas. Me lembrei de muita coisa. A principal dela foi das várias vezes que ficamos presos na Reitoria, dentro ou fora dela, pelos estudantes, junto com o Benetti, o Pistóia, o Ronaldo, Antoninho, Aldema, Daudt, Adalberto e tantos outros; em tantos protestos, que foram rareando com o tempo. Os últimos reitores, incluindo o ex, somente sabem disso por ouvir dizer, nunca passaram por um corredor polonês. A gente tirou pós-graduação nisso. 

A minha maneira de ver essas coisas, pensei em dizer isso para a A. e para o fotógrafo que estava por ali documentando, é que se trata de uma certa forma de saúde social; sair dos interesses privados e gastar energia em coisas que possam dizer respeito ao público custa um monte de energia individual; e por menos que eu seja freudiano e hidráulico na forma de pensar a sociedade,  acho interessante a idéia que cada um de nós já foi um dia mais interessado em coisas políticas e sociais, e em outro nos sentimos bem mais distantes e alienados dessas coisas públicas. [Sobre isso, o grande livro continua sendo a pequena brochura de Hirschmann, De consumidor a cidadão. Em algum bom sebo se encontra esse livro.] Pois bem, essa gurizada mostra que a capacidade e a demonstração de voz (o protesto) mostra que estão dispostos a manter a lealdade (aceitar as leis, por exemplo, pois aceitam o julgamento dos acusados na Justiça), e com isso não estão apontando para a saída (lubrificar os bodoques, por exemplo).

Se a burguesia lesse, ao menos, não ficaria escandalizada com a invasão da Fundae. Poderia até ficar contente. Isso, se lessem bons livros. Mas isso seria pedir demais. 

Minha ex-aluna, A. estava preocupada, será que a gurizada iria estragar as coisas lá dentro? Não sei, espero que não, eles pediram, no panfleto, que o Prefeito Valdeci estivesse presente na saída da ocupação para garantir a segurança, e que a imprensa registrasse o estado das coisas antes da saída deles. Não sei se Valdeci apareceu por lá. E sei lá o que a imprensa vai dizer amanhã. Espero que sejam bom leitores, em todo caso.

Quanto a minha querida ex-aluna A., espero que ela tenha tido um fim de tarde compatível com o inusitado da mesma.  Quanto ao protesto em si me ficou um pernilongo zoando, pois em nenhum momento do panfleto os ocupantes falam em justiça. Seria um flerte com a lubrificação dos estilingues? Bueno, gurizada, acho que faltou algo por ali.

2 Comentários

  • Olá… seguindo a indicação da professora Sandra de Deus vim até aqui.

    Senti uma nostalgia neste texto. Será que vou pensar nos meus/minhas camaradas daqui há alguns anos vendo outros estudantes em passeatas, greves, ocupações?

    O que será do nosso futuro como integrantes do movimento estudantil que não se renderam à academia e aos belos gabinetes governamentais?

    Não sei nenhum dessas e de tantas outras respostas, mas fico feliz que tenhamos te levado até a Fundae naquela tarde de sexta, fria para o pessoal da capital, nem tanto para os de Santa Maria.

    Fiquei feliz também de ler um texto muito bem escrito sobre nossa ação e que algumas pessoas, várias, leram.

    Até a próxima.

  • Rodolfo, manda um grande abraço para a Sandra de Deus, uma das grandes culpadas por coisas como minhas participações no rádio, que hoje levo adiante na forma desse blogue. Obrigado por essa amável visita.


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