Em outro campo

08maio08

Um caso de suicídio de um estudante no campus da UFSC, no ano passado, levou uma professora, Cláudia Drucker, a pensar sobre a relação pedagógica de cada dia, seja nas escolas fundamentais, seja nos campi. Ela escreveu um texto que deve fazer pensar cada um de nós que escolheu a mesma carreira. O texto foi publicado no Diário de Santa Catarina,  em meados de outubro do ano passado, e por isso tomo a liberdade de transcrevê-lo aqui:

Educadores desorientados

Claudia Drucker, Departamento de Filosofia, UFSC

 

Todo bebê é um recém-chegado a um mundo que lhe pré-existia. A educação consiste precisamente em apresentar o mundo comum e partilhado aos recém-chegados.  O mundo comum e partilhado pode ser chamado “civilização”, um nome que não implica necessariamente um valor positivo.  O recém-nascido, por sua vez,  é sempre um bárbaro –isso tampouco é um juízo de valor.  Sua tendência primeira e espontânea, que talvez nunca desapareça completamente no adulto, é precisamente ignorar todas as realizações da lei, da arte, da ciência, etc.  A criança encontra um mundo de instituições culturais e conquistas várias, ao qual deve ser paulatinamente apresentada para que as aceite.  A tese de Hannah Arendt sobre a educação é que ela tem um papel conservador, no sentido em que oferece um contraponto às tendências naturalmente desorganizadoras de todo recém-chegado.  A criança traz consigo a possibilidade da inovação, mas também o que quisemos precisamente deixar para trás, no sentido em que é cruel e injusto todo grupo de crianças abandonado a si mesmo.  Nem toda herança cultural é preferível a herança nenhuma, mas em geral é. 

Os educadores têm, diante dos pequenos bárbaros, precisamente a responsabilidade de não desistir do mundo.  O professor que não quiser desempenhar este papel será um irresponsável e deveria ser nada menos que proibido de ensinar.  Isso não significa que a escola seja uma forma da vida pública.  Para Arendt, a socialização é tarefa da família, em primeiro lugar.  A cidadania plena começa quando a escolarização termina. A escola se encontra em uma zona intermediária entre a família e o mundo, e entre a infância e a maturidade. A educação é tanto mais útil à democracia quanto menos é diretamente politizada.  A educação voltada para a difusão do conhecimento é mais eficaz na hora de formar cidadãos interessados e conscientes do que a educação que mimetiza os processos decisórios públicos.  Não existe nenhum lado positivo no abandono dos conteúdos básicos da escola, que só ela propaga como ninguém. Desistir de ensinar português, matemática ou história em troca de alguma outra atividade só prejudica as crianças, na vida pública e privada.

A motivação de Hannah Arendt sempre foi o cuidado com o mundo, ou seja, com o público.  Não há lado público do mundo sem um mínimo de estabilidade dos pontos de referência coletivos.  A educação não visa destruir as divergências, mas canalizá-las de modo que incidam sobre o mesmo mundo, e não sobre as visões privadas, fragmentárias e instáveis de cada indivíduo isolado. É preciso acrescentar algumas considerações de outra ordem às considerações arendtianas, tão voltadas para o lado público da educação.  Há também um lado privado, cujo fracasso afeta o lado público.  A socialização –a insistência para que normas básicas de convivência sejam absorvidas pela criança– também exige a escolarização.  Família e escola esperam que a outra faça a sua parte, e dependem uma da outra.  Não está dando certo.  Há uma grande confusão mental e afetiva no ar, que afeta a socialização e a educação de crianças e jovens adultos.

Conta Nelson Rodrigues que certa vez um carro particular, com uma grã-fina ao volante, deu uma fechada em um ônibus.  Furioso, o motorista do coletivo mandou que ela lavasse um tanque –não só as roupas dentro do tanque, mas o próprio.  A grã-fina obedeceu à recomendação e se tornou uma mulher feliz.  O escritor conta, sob uma forma cômica, uma parábola cujo sentido é: quem veio ao mundo apenas para ser feliz não merece a felicidade.  Quem não quer cumprir nenhuma obrigação além das inevitáveis desperdiça sua vida.  As relações entre adultos e jovens –pais e filhos, mas também professores e alunos– seguem o caminho inverso. Muitos pais exaustos pelo trabalho e competição diários não têm mais disposição para ser pais.  Querem se divertir e aproveitar a vida, como acham que os filhos fazem.  A infância e a adolescência despertam neles a nostalgia e até a inveja de uma época sem compromissos.  Outros se comportam como camaradas generosos, mas por isso mesmo ausentes, porque arredios aos conflitos necessários ao amadurecimento dos filhos. Seus filhos ficam com o encargo nada invejável de se educar por si mesmos, isto é, pela convivência com os da mesma idade.  Os da mesma idade, por definição, não podem educar uns aos outros –nem para a vida pública, nem para a vida privada.  Eis uma das grandes tragédias do nosso tempo: muitos adultos não querem fazer o papel de adultos, enquanto os jovens não querem nem poderiam fazer este papel, porque ele tem de ser ensinado.    

Pede-se da educação básica que remedie esta situação. Impossível. A escola está despreparada para lidar com as crianças que está recebendo.  A universidade, tecnicamente, lida com adultos razoáveis e sociáveis. Mas recebe seus estudantes da mesma escola que não poderia assumir tarefas que são de todos os adultos.  Em um mundo marcado pela evasão diante da responsabilidade, por que a universidade deveria ser a exceção?  A universidade pública não trata a educação como mercadoria –mas já não sabe como poderia ser diferente.  Ela não pode mais contar com um consenso mínimo sobre o duplo papel, público e privado, nem sabe como lidar com os estudantes mal socializados que recebe hoje.   Em particular, no Centro de Filosofia e Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina, quem grita mais alto se impõe. Qualquer reivindicação estudantil reivindica o mérito absoluto.  Quando não estão em jogo bens concretos, porém, ninguém sabe o que querem os estudantes.  Têm pouco ou nada a dizer, até porque os melhores raramente se encontram entre eles.  As orientações e metas do movimento estudantil são uma incógnita, considerando o pouco apreço deste movimento pela palavra e pela argumentação.  As festas nas dependências do Centro se estendem por horas a fio. 

O exemplo vem de cima, como sempre.  Considero coletivamente responsáveis os professores, a direção do centro e a administração superior da universidade por deixarem as coisas chegarem a este ponto, embora a parcela das duas últimas seja maior.  O Centro de Filosofia e Humanas não é o único da universidade a abrigar comportamentos irresponsáveis, e haverá outros equivalentes ou piores dentro da UFSC.  O ensino particular tampouco é um modelo.  Tratar a educação como mercadoria também é uma forma de desistir dela e do mundo.  Mas é claro como a luz do dia que nesse ambiente de total falta de supervisão alguém iria se ferir ou ferir outrem. O suicídio é a decisão mais pessoal e intransferível de todas quantas haja.  Todo suicídio é um mistério.  Contudo, podemos nos perguntar se há ambientes ou circunstâncias que o favoreçam e, principalmente, se nós mesmos estamos implicados no surgimento destas condições.  O discurso anti-repressivo difundido pela área de Humanidades é o sintoma de um grande desinteresse pelo mundo e pela tarefa outrora própria do educador, ao mesmo tempo em que lhe serve como (má) justificativa.  A ideologia ajuda a produzir desorientação, e também resulta dela.

Anúncios


No Responses Yet to “Em outro campo”

  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: