A estrada do batalhão

09maio08

Foi numa tarde de sábado, em maio de 1984, que eu fui, por primeira vez, ao Pau Fincado. Fui de lambreta, sacolejando sem parar no leito da já então prometida  BR158. Um pouco antes de chegar ao Pau Fincado, que resultava ser apenas isso mesmo, um pau fincado em uma coxilha, com um bolicho de campanha nas proximidades, zelado pelo Seu Rubilar, parei em uma ponte de concreto, que contrastava, em sua grandeza, com a miserabilidade da estradinha. Parado na ponte e olhando para os lados, em especial para o lado leste, o que eu vi era um leito preparado e abandonado para uma estrada que deveria passar por baixo da ponte. Na volta, resolvi despencar a lambreta na estrada abandonada e segui rumo ao leste. Não demorei muito para ver que a empreitada era superior às minhas habilidades; a estrada, apesar de ter sido muito bem feita, estava se deteriorando e, uma vez abandonado às intempéries pelas autoridades de plantão, estava sendo retomado pelos fazendeiros locais, que atravessavam cercas que trancavam a dita estrada. Isso tornava extremamente difícil o avanço e recolhi minha lambreta às suas rodinhas. Fiquei curioso, no entanto, para saber até onde iria tal estrada abandonada aos fantasmas e vacas; quem a teria feito? Quando? E, em especial, queria saber o que teria levado tal obra de arte a esse azar do ventos. Lambreta vai, lambreta vem, esqueci o assunto.

Dias atrás o tio Google colocou Santa Maria e arredores em alta definição no Google Earth. Fui espiar a tal da estrada e lá estava ela, uma tripa ainda hoje fotografável, que começa em Dilermando de Aguiar e vai até a Coxilha do Pau Fincado.

Numa tarde de sábado de abril passado, liguei a lambreta e fui até Dilermando de Aguiar. Foi fácil achar o início da estrada, bem como mostra o tio Google

Terra. Não deu nem para o começo do andar, no entanto, pois as cercas estava ali, firmes, trancando o leito que um dia foi pensado para ser um bem de andar público. Havia um tipo me olhando, com cara de surprêso, e fui conversar com ele. Se eu queria andar na “Estrada do Batalhão”, podia esquecer, disse ele. A estrada estava toda trancada por cercas. “Batalhão?”, pergunto. Sim, responde o sujeito, foi por volta de 1978 que ela foi construída, por um batalhão do exército. “Gastavam 18.000 litros de combustível por dia nas máquinas”, diz ele, que garantia lembrar bem porque seu tio estava envolvido com as tarefas de abastecimento. Eram centenas de soldados e máquinas, durante meses e meses, um movimento só por aqui. “Depois, tudo foi abandonado”. Ali deveria haver uma estrada de ferro. 

Liguei a lambreta e voltei para Santa Maria. Fiquei pensando em quanta história ainda há para ser contada. Ou quem sabe eu me distraí e não vi quantas reportagens e artigos e monografias foram escritas sobre esse  capítulo da história desse município que faz 150 anos.

Cheguei em casa e fui conversar com Tio Google. Ele me contou que a tal estrada era para ser a ligação ferroviária entre Santa Maria e São Gabriel. Ela teria 74 km e fazia parte do Plano Nacional de Viação, de 1973, do tempo do Emílio Médici, Buzaid, Delfim Neto, João Velloso e outros. 

Ficou por isso mesmo. Alguns milhões de cruzeiros jogados ao tempo e ao vento.

E tudo isso se esgarçando na memória.

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