Sesquicentenário

17maio08

Subi na pedreira da Viação Férrea por volta das nove e meia da manhã para ver se achava um ângulo diferente para fotografar a cidade. Eu queria um enquadramento que colocasse em primeiro plano o monumento aos ferroviários com a cidade ao fundo, coisa que não se consegue no Morro do Cechela. Na pedreira encontrei o seu Alberi, que mora em uma casinha com uma vista espetacular da Barragem. O barraco é minúsculo. Seu Alberi é carpinteiro, natural de São Sepé, veio para Santa Maria faz vinte anos, casou, vieram cinco filhos e a separação. Deixou o que tinha para a mulher e os filhos e foi morar num canto da pedreira. Nunca ninguém lhe incomodou. Ele cozinhava uma abóbora para o almoço sesquicentenário, e, bom de prosa, foi apontando para a cidade, lá embaixo, mostrando os prédios que ajudou a construir. Bueno, era hora de fotografar e ele me acompanhou por alguns momentos para mostrar a entrada da trilha. Bem que tentei, mas o ângulo não era o que havia imaginado. Fui explorar outros caminhos e fiquei surpreso com a qualidade de trilhas que ficam a poucos minutos do centro da cidade e que são muito pouco exploradas. Achei uma belíssima orelha de pau que fotografei com calma. Depois, voltei para prosear com seu Alberi. Ele contou que nas manhãzinhas é acordado por um casal de tucanos. Os bichos vem até uma aroeira vizinha para comer as frutas que ainda restam. Gritam que é uma beleza de ver. E de quem é esse terreno, seu  Alberi? Não sei, diz ele. Deve ser do governo. E se é do governo não é de ninguém, ele completa. Faz três anos que mora ali. Tem uma das vistas mais bonitas da cidade. A essa hora deve estar vendo a lua lambarizando na barragem e branqueando a cidade. Ele mesmo não tem luz e não tem água, mas parece conviver bem com isso. Fiquei pensando no que ele disse, se é do governo não é de ninguém. No mais das vezes eu me incomodaria com a frase, mas hoje, no dia do sesquicentenário de Santa Maria me pareceu que seria uma boa metáfora para entender uma pequena cidade brasileira que não é de ninguém, mas que é amada por muitos, e com isso constrói, aos poucos um pequeno cosmopolitismo. Não é pouca coisa.

Desci para o centro e em dez minutos estava na banca da galeria para pegar um jornal. Quando voltei para o carro o prefeito Valdeci ia descendo a Floriano, bem barbeado e engravatado. Eu, suado, com as calças cheias de pega-pega, de chapéu, achei que era um bom dia e  uma boa hora para cumprimentar o prefeito de minha cidade e fui apertar a mão do homem, afinal, o dia exige. E junto com o homem via outro, muito grande, e muitos outros, todos de terno preto e gravata. O tipo grande era o ministro Nelson Jobim. Bueno, a honra cívica do dia seria dupla e cumprimentei o ministro também. Estavam descendo a Floriano para comer um galeto ali no Augusto, no mesmo Augusto onde um dia o Alan Robbe-Grillet comeu uma picanha mal-passada.

Eu gosto de Santa Maria.

Anúncios


2 Responses to “Sesquicentenário”

  1. Amigo Ronai. Teu texto é, loooooooongeeeee, o melhor que li sobre Santa Maria e o sesquicentenário. Me deu uma (SAUDÁVEL) inveja danada, pois não consegui chegar nem perto disso. Hehehehe…. Ah, também gosto de Santa Maria. E vi prefeito e ministros (o Eros, que não se perca pelo nome, também estava) no desfile do Sesqui, na Medianeira. Isso foi antes do Augusto. Abraço

  2. obigada e muito bonito esse lugar


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: