Coisas do campo

11jun08

Depois de passar hora e tanto visitando os túneis das Minas de Camaquâ, na companhia do seu Rui, conhecedor de todas as histórias daquele lugar, pedalei a lambreta e segui viagem. Voltei pela estrada principal por poucos quilômetros e logo pendi para a esquerda, rumo ao antigo passo do Cação. Por ali restam dois ou três ranchos de barro, habitados por legítimos negros velhos, daqueles que “quando pinta, três  vezes trinta”, e de prosa melhor ainda do que a do Seu Rui, depois que a gente quebra a desconfiança natural com o estrangeiro que chega na lambreta. Minha visita ao seu João foi curta, somente para saber como passava e logo retomei a estradinha, corcoveando na lambreta nos rumos das Lavras do Sul. Como se costuma dizer para fora, tem algumas perdidas na estradinha, mas na essência é só ir costeando de longe o Camaquã, pela esquerda, e na direita, ao longe no rumo, ficam as Guaritas. Pois eu ia por ali na estradinha, corcoveando na lambreta, quando num lançante avistei uns cerros muito bonitos, um paredão de pedra muito alto, no lado direito da estrada. Coisa de se ver de perto, pensei. Apeei, abri a porteira e fui me chegando. Saudei o morador, numa casa simples de madeira, logo na entrada, na esquerda e pedi licença para ver aquelas formosuras de pedra. Pois não, se achegue, fique à vontade, foi dizendo o vivente. E me fui para o meio dos matos e pedras e por ali andei por mais de hora, que aquilo não era guarita para turista de portoalegre, era coisa do campo de pouca gente ver. Enchi os olhos daquele pedrario verde e me despedi, não sem antes perguntar se o gauchinho que me recebeu era o dono, não, disse ele, é do Doutor Vargas. Tá bem, pensei, não sei quem pode ser esse doutor Vargas, mas é um homem feliz, podendo vir aqui devezenquando olhar as vaquinhas do alto desses paredões de pedra. 

Esse passeio de lambreta faz coisa de uns três anos atrás.

Agora a dona Rosane do blogue da Zeagá e a Carta Capital divulgaram uma ata de uma reunião de José Pensador Fernandes com Eduardo Vargas, na qual se fala de “termo aditivo de arrendamento do campo, que deixará de ser do pai”, e “ir a Caçapava do Sul e retirar talão de produtor com urgência”, “o gado deverá ser vendido” e de outras coisas do campo.

Me caíram os butiás do bolso. Será que a tal formosura de pedra do “Doutor Vargas”, citado na minha visita de lambreta seria esse campo de Caçapava? Sei lá, a vida tem tanta coincidência, não?

Faz poucos meses fiz o mesmo trajeto, em sentido inverso. Saí das Lavras do Sul e me toquei para as Minas do Camaquâ pelas mesmas estradinhas secundárias. Quando passei pela frente do campo do “Doutor Vargas” notei que a lambreta parou de corcovear. Pudera, a estradinha tinha sido reformada até as minas do Camaquâ, exatamente a partir da porteira do campo do Doutor. Sorte minha, pensei, esse doutor ser gente graúda. Afinal, quem senão gente graúda conseguiria uma patrola para consertar uma estrada que liga o Passo do Cação com o Passo do Enforcado, lugares aprazíveis, por certo, mas meio abandonados. Passei na frente da fazendinha do doutor,  logo adiante fiz umas codaques de um rodeio de vaca rebocada e  depois fui para as Minas, onde não achei o seu Rui para uma prosa, que pena, quem sabe ele soubesse mais sobre o tal doutor Vargas. 

Uma hora dessas acho um tempo para voltar lá. Se o curioso leitor quiser experimentar uma lambreta por lá, basta ir no rumo das Minas, um pouco antes de nelas chegar basta tomar a direita para o Passo do Cação e quebrar mais duas vezes na direita, na estradinha que leva de volta ao asfalto, que vai sair quase na Ponte do Camaquâ. Ou vai até a Ponte do Camaquã e antes dela, uns quatrocentos metros, pega a estradinha de chão para as Minas. Aí não tem erro, é só perguntar pelo Doutor, quem quer que seja o tal homem.

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