É isso uma universidade?

13jun08

Saí do prédio 74 passado meio-dia, em busca de um lugar para comer algo. Novato nessa lida de comer nas redondezas, segui uma sugestão do Ricardo, mais destro nessas habilidades de sobrevivência campestre. Enterrei o chapéu na cabeça, que o sol não perdoava, e me fui, sem lambreta, sem nada. Desci costeando o planetário, proseando com a dona Margarete, que ia para os lados do RU, lamentando a hora, o bom mesmo é ir na volta das onze e trinta, diz ela, o movimento ainda é pouco nessa hora; agora a fila é grande, paciência. Nos despedimos na altura da Agronomia e desci costeando o prédio, até chegar na tal da lancheria. A gurizada devia estar lamentando a falta das bergamotas, porque iam saindo do almoço e lagarteando no sol, bem sentados nas cadeiras de plástico que iam levando para os gramados, coisa de campo grande e educado, pensei, esse lagarteamento todo.

A bóia era mais ou menos; bastava fazer um ato de fé na cenoura, não desconfiar muito do tomate e acreditar nas alfaces, porque depois disso o arroz é coisa desprovida de segredo; já o feijão sempre requer um exame mais atento, a textura do caldo normalmente revela o anteontem do mesmo;  mas vá lá, é sempre seguro para um calor e estofo; já a carne é sempre um dilema, é preciso ouvir o aviso sutil do maxilar; vamos de peixe a milanesa, uma escolha covarde mas aparentemente segura. Errei feio, pensei na primeira garfada, o peixe está gelado. Menos mal que o arroz e o feijão cumprem a promessa do calorzinho confortável. E foi assim, meio assuntando o lagarteamento no lado de fora, meio pensando no serviço da tarde que se passou o almoço, barato barbaridade, por sinal. Dizem que quando o RU fecha, a fila por ali rodeia o prédio.

Fui saindo, já de chapéu de novo, rumo ao 74, desta feita costeando prédio 44, para matar a saudade. Ali funcionou, nos anos setenta, a Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da UFSM, ainda no tempo da Irmã Consuelo; ali trabalhou, lembrei com saudade,  a professora Artheniza Weimann Rocha, que era para nós uma referência de integridade humana. Fui caminhando ao lado do prédio quando dei de vista com uns cocurutos no chão, coisa muito estranha e nunca vista, uns montinhos feitos de cimento, com uma barra de ferro no meio; três montinhos estranhos, em linha reta, como que para impedir que alguém ali entre com um chevete. Entre um  e um queserá encontrei um colega de ufesm que trabalha nas redondezas, que vinha chegando para trabalhar. A conversa veio e a conversa foi por alguns minutos, e tendo ele visto que eu havia visto os cocurutos e me admirado deles, e eu tendo visto que ele havia visto que eu havia visto, me aproveitei e perguntei se ele sabia para que serviam tão notáveis obras de engenharia, a que serviam tão curiosas estruturas. 

Ele sorriu, mais para o amarelo do que para o colinos, e disse que as pequenas pirâmides haviam sido feitas por um professor que trabalhava no prédio. Mas para qual causo, vivente? Porque ele tem uma dessas pitisubicho ou coisa que tal e a potranca é de tal envergadura que só ela entra na vaga. Ele chega e sempre tem essa vaguinha aqui perto da porta para ele. 

Eu, novato nessas lidas de caminhar pelas redondezas, achei que o colega estava fazendo pouco da minha menor ainda inteligência. Imagina que a prefeitura da cidade universitária ia permitir um faraozismo desses, o índio cravar umas coisas pontudas no chão, privatizando um pedaço do campus para seu caminhãozinho ficar perto da porta? Pois é, se o homem tem licença não sei, mas que fez, fez, me diz o colega, se despedindo. 

Fiquei ali mais um minuto. Tirei o chapéu, mirei de novo os cocurutos e decidi imitar a Rainha Louca do Lewis Carroll: se a gente não acredita em coisas impossíveis talvez seja por falta de treinamento; estava ali uma oportunidade. Enquanto pensava isso, fiz a foto das preciosidades. A seguir, enterrei bem fundo o chapéu na cabeça, suspirei pela memória da Professora Artheniza e enquanto voltava ao prédio 74 para cumprir minha sina ficava pensando na barbaridade do cocuruto do vivente: é isso uma universidade? 

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One Response to “É isso uma universidade?”

  1. 1 Saucedo

    Oi Ronai!
    Esse negócio seria uma piada se não fosse grave. O pior é que as pessoas pensam que não é nada de mais, pois é só uma coisinha de nada. Mas é isso que está na base, por exemplo, das “Afundações”. Uma confusão entre privado e público.
    Abraço,

    Saucedo


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