Luto e Melancolia

20jun08

A esposa do seu B. ficou surprêsa quando eu lhe contei que haviam dois ouriços no cerrinho de pedra que fica a menos de quinhentos metros da casa. “Tem que matar”, diz ela, “atacam os cachorros”. Eu protesto educadamente, afinal, a casa e o morro são delas, “são uma coisa muito bonita de ver”, “é uma beleza de ver esses bichos” e coisa e tal e ela parece arrefecer no ânimo, seu B. se achega e concorda, coisa boa essa bicharadinha vivendo no morro ali perto. Aproveito e conto que chegamos, Pedro e eu, pertinho dos bichos, tão perto, nas grimpas das pedras e da árvore onde estavam, que eles não tiveram como não perceber nossa presença e ficaram quietos, fingindo-se de mortos. O sol ia entrando, a luz acabando, e eles ali, paralíticos, sem mexer um espinho, com os olhinhos bem abertos, se fazendo de mortos.

Fiquei pensando no ditado, falar é prata, ficar quieto é ouro. Tem gente que tenta fugir do perigo silvando feito gralha; um dos envolvidos no caso Rodão ofereceu a um pasquim local uma versão da história do sujeito que foi apanhado levando um porco puxado por uma cordinha, e ao ser indagado sobre o que estava fazendo disse estar levando uma corda para casa; ao ser lembrado que na ponta da corda havia um porco manifestou espanto e pediu que tirassem aquele bicho dali, pois o cujo devia ter se enroscado na corda no meio do caminho. “Fomos extorquidos”, ele disse, como se a extorsão fosse um raio ou centelha que cai do céu pelo capricho da natureza.

Os ouriços de Santo Antão não são providos de entendimento discursivo; mas, por essas liberdades de nosso entendimento, a eles são atribuídos certos estados intencionais como esse, de se fingirem de mortos. Vida somente há uma, dizia o Antonio Gedeão, mas mortes há muitas. Sem polemizar com o Antonio, se há muitas mortes, há muitos tipos de luto. O Sigmundo Freud disse, em Luto e Melancolia, que “o luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante”.  

Há muito luto na Boca do Monte, por causa do Rodão. A palavra mais importante no tema do luto é perda. Freud nos autoriza a pensar o luto por perda de esperanças, por perda de utopias, por perda de um jogo de futebol, por perda de uma hipótese, por perda de uma amizade, e assim por diante.  Imagine o luto do filho pequeno de um envolvido ao ver o nome do pai ou da mãe nos jornais; crianças não são ouriços, que somente tem uma arma, os espinhos; por serem desprovidos de entendimento discursivo, não podem antecipar a perda da vida, ameaçada, quem sabe, pela esposa do Sr. B., mas parecem pressentir o perigo, ao ficarem quietos,  fingindo-se de mortos; as crianças, providas que são de entendimento discursivo, precisam elaborar seu luto. Não é pouca coisa. 

Fico aqui nesse canto lembrando que a dona Simone está trabalhando em quarenta horas e dedicação exclusiva para julgar o causo do Rodão. Enquanto isso, para ajudar seus advogados, alguns dos réus assobiam e chupam cana. Outros desfilam em cerimônias oficiais puxando cordinhas. Fico aqui pensando nas formas da Ufesm elaborar esse luto e torcendo para que a mulher do Sr. B. deixe os ouriços em paz.

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3 Responses to “Luto e Melancolia”

  1. Ronái meu velho, como vais?
    Você escreve estas cousas todas, eu leio e fico com vergonha de não me assombrar, afinal o que esperar destes sujeitos? Alguém compraria um carro usado destes carinhas em sã consciência? Mas você cita o Freud e eu penso que talvez minha contribuição seja dizer que hoje fui a CESMA e don Gilmar me entregou meu exemplar do “Moby Dick”. Soberbo. Começa com um simples “Trate-me por Ishmael”. Quando eram 9 da noite já tinha 60 laudas nos costados, pedindo mais, cousa boa de se ler. Voltarei a este tema (tenho de voltar também ao tema do rodão, mas me dá um preguiça que só o macunaíma é capaz de entender).
    Putabraço.
    Guina

  2. Olá, Ronai… um dia alguém contará como acontecem certas reportagens… talvez seja eu.. mas ainda não… com certeza, ainda não.. Inclusive porque aposentadoria (perdão pela aparente covardia) é algo longínquo… Mas faço o que posso, diante das circunstâncias… Uma delas é desconfiar SEEEEMPRE… Outra é ler quem tem talento para dizer o que eu gostaria…

  3. 3 ronairocha

    Caro Claudemir, meio comentário basta…
    Caro Mestre Guina, o segundo exemplar da belíssima edição do Mobi veio cair nas minhas ventas, e estou na página 170, nessa calada. Eia sus, ó sus!


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