Pomadismo

16jul08

Ao menos um leitor do blogue queixou-se da metáfora, achando-a pouca para caracterizar os falecimentos nos recantos de Polêsine que envolvem, em algum sentido, os pomadistas ontopsicologistas, de um lado, e o MEC, de outro. Em homenagem a esse leitor, ninguém menos que Mestre Guina, explico melhor o pomadismo, e aqui acho que ambos, bicicletista e Mestre, nos rendemos ao Machado.

No conto de Machado de Assis, O Segredo do Bonzo, o narrador fala do que viu na cidade de Funchéu, onde andava com um amigo, Diogo Meireles. Em um ajuntamento de pessoas, alguém que se dizia matemático, físico e filósofo, afirmava ter descoberto a origem dos grilos: eles surgem da agitação do ar e das folhas de coqueiros. Em outra multidão um gauchinho dizia ter descoberto o princípio da vida futura, que estava em “uma certa gota de vaca”. O narrador então fica sabendo que nos dois casos estava sendo aplicada uma doutrina criada por um homem de muito saber, um bonzo de nome Pomada.

Os dois personagens fazem então uma visita ao sábio Pomada, que assim resume sua doutrina: “A virtude e o saber tem duas existências paralelas: uma, no sujeito que as possui, outra no espírito dos que o ouvem ou contemplam.” Assim, continua o sábio Pomada, uma coisa pode existir na opinião sem existir na realidade. Por outro lado, uma coisa pode existir na realidade sem existir na opinião. Disso o sábio conclui que “das duas realidades paralelas, a única necessária é a da opinião”. Eis aí a essência do pomadismo.

O bonzo pomadista, como se vê, criou sua doutrina a partir de uma afirmação trivialmente verdadeira: uma coisa pode existir na opinião sem existir na realidade, e existir na realidade sem existir na opinião. A seguir, o bonzo Pomada conclui: a única existência necessária é a da opinião. Isso, diz ele, é um “achado especulativo”. O jogo do bonzo, diz o narrador, consiste em “meter idéias e convicções nos outros”. Um de seus seguidores, Titané, o alparqueiro, usa um jornal para propagandear suas alparcas comuns, fazendo crer que elas são maravilhosas. O narrador do conto, por sua vez, ao praticar a doutrina, faz de conta que toca a charamela (é um instrumento musical um antepassado da clarineta) para uma audiência que se maravilha ouvindo … nada! Diogo Meireles, o narrador, por sua vez, encontra pessoas portadoras de uma doença que torna os narizes horrendos, e convence-as a deixarem que ele arranque os narizes. Eles serão substituídos por um “nariz são, mas de pura natureza metafísica, isto é, inacessível aos sentidos humanos”. Os viventes, desnarigados, ficam muito felizes com o novo nariz inexistente…

O Filósofo (Aristóteles) abordou esse tema que serve de ponto de partida ao sábio Pomada. Aristóteles afirmava que o conhecimento humano implica uma relação, na verdade, em uma correlação, entre o conhecimento que temos e aquilo de que temos conhecimento. No caso do conhecimento humano, ele dizia, temos uma situação de não-simultaneidade correlativa.

Antes que o Claudemir reclame que o assunto está muito técnico, explico melhor. Vamos pensar na situação em que temos correlativos simultâneos, como “duplo e a metade”. Um a só pode ser o duplo de b quando e somente quando b for a metade de a. De acordo com o mesmo princípio, se o objeto do conhecimento deixa de existir, isso cancela o conhecimento do qual ele era correlativo. Mas nesse caso o contrário não é verdadeiro: se não temos o conhecimento da existência de uma pessoa, isso significa que essa pessoa não existe? Se o gauchinho responder que sim, que “a pessoa não existe para mim”, veja que se trata de um uso muito peculiar do verbo “existir”. Para entender essa peculiaridade, pense no que acontece quando brigamos com alguém e lhe dizemos: “a partir de hoje você não existe mais para mim”: de forma parecida com o fato de que nosso inimigo não vai deixar de existir, no primeiro caso o nosso desconhecimento de algo não implica na inexistência daquela coisa.

Se o objeto do conhecimento não existe, não pode haver conhecimento, pois não haveria nada do que ter conhecimento, é o que diz Aristóteles. Da mesma forma, é igualmente verdadeiro que se o conhecimento de um certo objeto não existe, o objeto pode, apesar disso, existir. Aristóteles escreve sobre esse tema nas Categorias, 7b, 25-30 e na Metafísica, Livro Quinto, 15.

Voltando ao pomadismo: o pomadista tem como ponto de partida uma verdade trivial (uma coisa pode existir na opinião sem existir na realidade, e pode existir na realidade sem existir na opinião); isso mostra a existência de um intervalo, de um espaço entre nossas opiniões e a realidade. A seguir, o pomadista usa esse espaço e essa distinção (entre ter uma crença e ter um conhecimento), para explorar a credulidade humana e fazer valer a sua opinião pela realidade.

De fato, pensando bem, o Mestre Guina tem uma certa razão. Os onto parecem ser mais do que pomadistas, mas na base dos cujos estão essas coisas que o Machado mostrou faz muito tempo. O conto do Assis está publicado em qualquer boa antologia e sua leitura torna mais fácil a compreensão de tanta coisa!


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4 Responses to “Pomadismo”

  1. 1 Mr. 3,1416

    Quanto à invasão picaretóide na área acadêmica da paróquia de Saint-Marie de la Bouche du Mont, limitada ao norte, por Itaara City; ao sul, pelo Green River; a leste, por Camen Boy e a oeste, por St. Peter City, tenho uma proposta a fazer ao nobre filósofo, titular deste blog.
    Quando a estação rodoviária de Saint-Marie se situava onde onde é a Padaria Big Pão, existia um senhor que vendia poemas de sua própria lavra, em forma de décimas – comuns à época – porquanto era dividido em “cantos” que possuíam dez versos.
    A cidade ficou tão pobre de lá para cá, que não podemos ficar exigindo tal esforço intelectual dos poetas atuais do cone sul. Ao invés de décimas, podemos fazer um poema épico construído a várias mãos, narrando as vicissitudes atuais na área educacional…Começando assim, por exemplo, com estes versos de autoria do finado Trançudo :

    “Onde estás, ó minha terra ?
    Onde estão os teus caudilhos ?
    No Calçadão só tem viados
    De calcinhas sem fundilhos…

    “Já não és Santa Maria,
    És uma terra qualquer…
    Onde está faltando tudo,
    Desde Homem até Mulher !

    “Onde está a Montanha Russa
    E as festas de Santo Antão ?
    Agora temos o Alcides Zappe
    E o intelectual Schmitão !

    “E os tangos e milongas
    E as serestas ao luar ?
    E o poeta Prado Veppo
    Que sabia poetar ?

    “Agora tudo mudou !
    A coisa é bem diferente…
    Tem ontopsicologista
    Na própria terra da gente !

    “Resta prá consolação
    A FATEC em Camobi
    E a turma do Zé Fernandes
    Sem deixar nada prá ti !

    “Onde estás, ó minha terra ?
    Onde estás, Dr. Bozano ?
    Onde estão os grandes homens ?
    Onde estás, Chico Mariano ?

    “Que fim levou nossa gente ?
    Onde estão nossos heróis ?
    Hoje são donos de ti
    Carrefour,PT, Saccóis ?

    “Puxa vida, que tristeza !
    Que dura realidade!
    Os candidatos fantoches
    Prá governar a cidade !

    “Onde estás, Santa Maria ?
    Viraste praia de mar ?
    Onde todos os detritos
    Já conseguiram lugar ?

    “Só nos resta uma esperança…
    É um nome que bem podia
    Ser assim, uma bandeira :
    Luiz Gonzaga Isaía !

    “Este sim é da Fundae,
    Não tem vaidade pessoal,
    É um gênio singular,
    É um exemplo de moral !

    “Comprova minha assertiva
    De real sinceridade,
    Ter sido ele um financista
    Dentro da universidade.

    “Mariano nele sempre confiou
    Sem maiores restrições,
    E o Machadinho avalizava
    Estas afirmações…

    “Aliás, lhes vou dizer
    Sem querer exagerar
    Com elementos deste tipo
    Todos vão prosperar…

    “Pois todos se completam
    Dentro da “especialidade”
    Da FATEC/FUNDAE/DETRAN,
    Nesta multiversidade !

    “Gente assim não dá em touceira !
    É difícil de encontrar !
    Eles sofrem de alergia
    Se alguém pretende furtar !

    “Não concebem que outros tenham
    Semelhança na conduta !
    ficam bravos, batém pé !
    Chamam de filhos-da-puta
    Os demais que “honestos” são,
    Ou que assim desejam ser !
    Semelhante privilégio
    Só eles que podem ter ! ”

    Daqui prá diante continuem vocês, porque preciso ir ligeirito ao banheiro !

    Abraço novo de amizade velha !

  2. Ulala!
    Don Ronái. Como sou o menor dos anões desta freguesia, ganhei o dia de hoje aprendendo a essência do “pomadismo”. Grato. Agora vou reler teu outro post e tentar entender um pouco mais (e também procurar o mestre Machado, bela dica, como não?).
    Mas um dedo de prosa. O Woody Allen em um dos filmes dele conta uma história que eu gosto: Um personagem pega um taco de beisebol e convida os amigos para irem para o Central Park, pois lá estava acontecendo uma manifestação nazista. “Com nazistas o único argumento forte é um taco de beisebol”, diz o personagem. O MEC, que é quem tem o taco de beisebol neste caso, não o usa (ou o usa pomadisticamente) e eu, se usar um, sou bem capaz de ser preso. Que encrenca. Melhor eu voltar para a Inês Pedrosa e seu livrinho que dá instruções aos amantes, refrigério meu.
    Abraços meu caro.

  3. Don Ronái,
    Acabei de voltar da cidade Fuchéu e aprendi completamente com o bruxo do cosme velho o que é o pomadismo.
    Belo conto.
    Mas volto agora a cidade do vento norte e fico a matutar sobre os dois usos possíveis da doutrina: no caso da invenção da origem dos grilos o pomadista ilude a malta e obtem vantagem indevida; no caso dos narizes metafísicos o pomadista também ilude a malta mas faz um bem a ela, sem obter uma vantagem indevida. O diabo está neste detalhe eu acho. Preciso pensar ainda um tanto (mas vou manter meu taco de beisebol ao lado da cama, preparado para as necessidades desta vida). Bom final de semana meu caro.

  4. 4 Aldema

    Assim que eu voltar, vou a Santa Maria. Por favor, reserva uma hora na tua agenda para conversarmos sobre o tema “Leste Europeu” . Sim! precisamos ter hora e tema agendados – livres, vamos ficar rindo do mundo e de nós mesmos. Beijos


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