Sábado, na Cesma

28jul08

Sábado passado, por volta das onze, no café da Cesma, no meio de uma conversa sobre a campanha para prefeito na Boca do Monte, um conhecido militante de um dos partidos concorrentes contou que havia permitido que no dia anterior alguém colocasse em seu carro o adesivo do militado concorrente. E naquela manhã, antes de sair de casa, ele havia pensado melhor e decidiu retirar a propaganda. E todo nós, que partilhávamos, ao que parecia, uma vaga simpatia pelo candidato em pauta, apenas com gestos e muxoxos, sem palavras, sem conceitos, fizemos menção de entender o que havia se passado com o nosso amigo militante, que em outras campanhas nunca hesitara em adesivar a lapela e o automóvel.

As horas foram se passando e eu fiquei pensando, em borbotões de idéias confusas e sentimentos ainda mais vagos, o quanto anda sofrendo a classe mediana da Boca do Monte para tomar a decisão do voto. Eu digo a classe mediana, para incluir desde o remediados até os hoteshotes, que todos, na minha idéia, andam sofridos com a decisão para o outubro. Afinal, somos gaúchos, gente que imagina que o mundo se divide em maragatos e chimangos, em gremistas e colorados, em gaúchos e brasileiros, e por aí vai. E agora, mais do que em outras oportunidades, parece que tudo se entreverou, ao menos nos grupos maiores, no emedebê e no petê com os outros que vieram dos peéles e quetais. E assim, no entrevero atual, parece que é sinal de um mundo que se termina ou seria apenas a eterna barganha do poder? 

No meio desse entrevero municipal me recordo de uma conversa que tive uma vez com Marcos Rolim, quando tentei explicar para ele minha maneira de ver esse vocabulário de “esquerda”, “direita”, “socialismo”; em especial o tal do “socialismo”, pois havia uma época na qual o petê fazia questão absoluta de sustentar o rótulo, apesar da chuvas e trovoadas no leste das Europas.

Apresentei ao Marcos uma analogia mais ou menos assim: quando a gente, em conversas de filosofia, discute como compreender alguns conceitos como “verdade”, pode cair na tentação de pensar que esse conceito descreve um certo estado de coisas, descreve alguma coisa, a tal da “verdade”. E como a “verdade” não é algo que se possa ver, em nenhum sentido, o próprio conceito fica difícil de compreender; tem gente, inclusive, que se aproveita dessa confusão para dizer bobagens como “a verdade não existe”; sugeri ao Marcos, então, que certos conceitos, como “verdade”, não descrevem nada, apenas indicam ou marcam um certo tipo de relação, um  certo tipo de acerto. No caso, o conceito “verdade” indica as situações nas quais um enunciado se aplica corretamente ao mundo. O mesmo se passaria, argumentei, com o conceito de “socialismo”; essa expressão não descreve absolutamente nada no mundo, apenas indica ou marca um certo tipo de caraterística de certas ações ou práticas sociais; essa estratégia, pensava eu, seria boa para a gente diminuir o fetichismo da expressão. Em vocabulário filosófico, “socialismo” seria um conceito semântico, e não descritivo.

Me lembrei dessa conversa com Marcos, entre outras razões, porque muito antes dela eu flertei com teoria dos sistemas aplicado em ciência política. E quem fez isso pode ver os acontecimentos políticos por um outro ângulo, precisamente um ângulo menos politizado, que ajuda a compreender o crescimento das tendências “socialistas” no mundo; elas correspondem a um processo de expansão dos direitos humanos, civis, políticos, sociais, etc. Me lembrei dessa conversa com o Rolim porque eu acho que para compreender melhor as eleições na Boca do Monte a gente deveria ter uma perspectiva que combinasse  conceitos que vem lá da teoria dos sistemas aplicada à política com conceitos que situassem melhor o que significa ser “de esquerda”; isso, “de esquerda”, não quer dizer grande coisa, mas quer dizer alguma coisa, cada vez mais difícil de perceber. 

Antes que esse poste se transforme em um pastel de batata, resumo e termino: a perspectiva mediana da classe média não consegue nem colocar adesivo no carro e nem compreender adequadamente o que está acontecendo. Eu, ao menos, não consigo. O que sei é que existe um outro Brasil – como disse o Mestre Guina, dias atrás,  – um Brasil completamente desprovido de diploma de curso superior (somos menos de quatro por cento de eleitores com diploma de curso superior, lembra Guina), com demandas de educação e qualidade de vida que a classe média não compreende bem. Os cientistas políticos devem estar tentando decifrar isso.

Os candidatos, que são os que são por razões que devemos tentar compreender, fazem o que podem. 

Se eu morasse em São Paulo, por razões de puro coração, eu saberia em quem votar. Na Soninha. 

Aqui, ando que nem o meu amigo de sábado de manhã na Cesma, tentando, como um tonto, compreender melhor o que está se passando.

Quem sabe o Claudemir me ajuda, uma hora dessas.

Anúncios


4 Responses to “Sábado, na Cesma”

  1. Pois é meu caro Ronai.

    Os tempos são reflexivos. E de eleição em eleição a gente vai aprendendo, ou desaprendendo.
    Mas quem é de esquerda, aquela esquerda que amava os Beatles e o Cenair Maicá, votará como?
    Eu defendo a idéia que tudo mudou muito rápido e nos pegou dando milhos aos pombos. Acho que nós estamos do lado puro da ideologia, e esse, hoje em dia, parece o lado errado. Que talvez não importe muito.
    Mas o fato é que temos até o dia cinco de outubro para definir o voto. E continuarmos dando milhos aos pombos e trocando idéias no Cesma Café.

    Abraços

    Athos

  2. Quem sou eu pra ajudar, amigo Ronai.. quem sou eu.. mas, quem sabe, se dermos uma olhadinha na “gênese”, que é como eu divido a política desde que me conheço – o que significa, politicamente, anos 70 -, facilita uma decisão… Ou dificulte, não sei bem… Mas, quem sabe conversamos qualquer hora (antes de outubro, por certo) dessas sobre a “gênese”… aí fica mais fácil… Ou difícil… Ah, eu já me decidi… mas não posso dizer em voz alta. Publicar, então, talvez signifique o suicídio. Profissional, ao menos.

  3. Ronái.
    Te repasso os números do Perfil do Eleitorado Brasileiro divulgado pelo TSE (a meu juízo a mais importante notícia dos últimos dias, saiu dia 16/7).

    eleitores em 2008: 130.500.000 (um pouco mais de 2/3 da população)

    atenção, esta é a auto declaração do grau de instrução fornecida pelos próprios eleitores:

    analfabeto: 6%
    sabe ler e escrever: 16%
    ensino fundamental incompleto: 34%
    ensino médio incompleto: 18%
    ensino médio completo: 12%
    superior incompleto: 2.5%
    superior completo: 3.5%
    não declararam nada: 8%

    É preciso comentar?

    Um abraço

    Guina
    Em tempo: em SP eu votaria em qualquer um (até no Maluf) que ganhe da Martha, mas a Soninha tem lá minha simpatia.

  4. olá ronái,
    só para constar.
    os patetas do pt de são paulo estão processando a soninha.
    é incrível o que este povo é capaz de fazer com quem pensa diferente deles.
    ela vai ter de andar muito rápido na motoca para escapar da nkvd petista.
    inté
    guina


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: