A tragédia do baralho

29nov08

Acho que as bartas estão mal encaralhadas.

A última vez que fui para um jornal denunciar arbitrariedades faz uns vinte anos, um diretor de centro tentou uma manobrinha para me tirar da coordenação do curso de filosofia da ufesm e eu e os alunos do curso reagimos à altura. Foi um auê. Mais tarde, anos depois, fiquei trancado muitas vezes na reitoria da ufesm pelo pimenta e pela turminha de comunistas do peérrecê, metatarso na cabeça de todos, e agüentei no osso, junto com Benetti e os demais. A cesma era uma porta e um armário, naquela época, meia dúzia de livros na estante e uma utopia na caderneta de anotações de pedidos. E o Centro de Artes da Ufesm era uma potência, estudantes eram ocasionalmente raptados na frente do nosso prédio e desapareciam por um dia ou dois, depois voltavam e não falavam nada, mergulhavam no mutismo em que se encontram até hoje.  Isso era nos antigamentes. Tenho dificuldade de me impressionar nos agoras.

Lembrei desses ontens porque tentei assuntar os acontecidos hoje e não me impressionei muito. Continuo com a hipótese de ter havido um contrapé, como disse antes. Eu não tenho porque duvidar de haver uma criançada a freqüentar o espaço do café ou contíguo; e fica compreensível – eu disse compreensível – o receio com os trabalhos potencialmente provocadores de controvérsia para aquele público. Ler isso como uma tomada de posição da Cesma em favor do obscurantismo cultural seria um oportunismo. Se a Cesma deixou de oferecer alguma explicação pública para a desmontagem da exposição, ok, falhou a Cesma. Mas isso não me faria pensar que as pessoas ali  tem problemas com arte que expõe a genitália. 

O episódio desnuda a miséria do abrigamento da arte na cidade cultura. Eu compreendo que um artista não se contente com a improvisão de um lugar chamado Monet, um shopping center, ou um lugar chamado Café Cesma, o café de uma cooperativa de estudantes. Esses lugares são dublés de espaços de arte e como tais devem ser compreendidos, em ultima instância.

As regras do Café Cesma foram puxadas para um lado por um lado e puxadas para o outro pelo outro lado, é difícil de ver isso? E desde o início houve certa indeterminação e confianças vagas.

E a pixação? Qual a informação que isso acrescentou? Se a intenção foi fazer um protesto contra uma possível censura, eu fico pensando na gurizada que tinha que comparecer diante do Departamento de Ordem Política e Social (leia-se Polícia Federal) para dar explicações sobre o jornalzinho que a gente fazia (o Artefato); fico pensando em como as coisas mudaram; alguns equívocos de parte a parte dão pretexto para uns libertarismos de espantar vivente.  

Eu acho que um pênis ereto é um puta símbolo. Mas não seria melhor plantá-lo em algo mais consistente do que em dois ou três equívocos? Quem sabe a gente junta forças para haver em Santa Maria um espaço de artes, que, faz muito tempo, tanto a Prefeitura quanto à Ufesm devem à todo nós? 

A Cesma vem fazendo o que pode pela vida cultural da cidade faz um tempão e, mesmo assim acho que nunca aspirou ser unanimidade. Nem Buda conseguiu isso.  Acho questionável que a mostra tenha sido retirada sem uma conversa com a curadora e o artista. Falhou a Cesma por não esclarecer sempre e sempre que aquele espaço é um dublê de espaço por razões óbvias. Mas precisa dizer isso? A tragédia do caralho era uma morte anunciada, precisava ser muito esperto para ver isso? O artista, certamente, está na dele. Desenha e quer mostrar o que faz. 

Se a cidade não está preparada para isso, não acho justo botar a culpa na Cesma. Se ela foi, consciente ou inconscientemente, protagonista de uma tragédia ou de uma farsa, não é o tempo que vai dizer. Somos nós mesmos.

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7 Responses to “A tragédia do baralho”

  1. 1 Gisele

    Ronai querido,
    obrigada pelo post sóbrio. Às vezes falta um tanto de sobriedade nas nossas conversas.
    Eu tenho tentado dizer que não se deve demonizar A CESMA pelo que aconteceu (aretirada das obras), aliás, demonizar ninguém. Isso não é questão de ter dois lados (O certo e O errado) e ponto final. Eu acredito que é possível defender A CESMA, por tudo o que é e foi E, at the same time, reconhecer que alguém da direção errou. Não?
    Apesar das boas intenções, Café não é espaço pra expor arte, ou arte não é decoração de Café.
    Tem saído um monte de porcaria nos debates, é verdade, mas está dando pra pensar uma série de coisas que, meibi, não teriam sido pensadas sem a tragédia ou farsa (disjunção inclusiva, claro) que ocorreu. O melhor de tudo deveria ser um impulso adicional na luta pelo espaço para artes visuais devido a nós, como tu dizes, pela Prefeitura e pela UFSM.
    Um abração!

  2. Ronai. Nada sei desse negócio de exposição que deixou de ser exposição. Ou coisa parecida. Reconheço: li “meio por cima” o que o DSM publicou. Chamem-me de alienado (nou próblem) ou de reacionário (isso ainda existe?), não estou nem aí. Nem vi as “obras de arte” (as aspas não são desdouro, mas desconhecimento mesmo do conteúdo). Portanto, disso não falo. Mas de algo eu sei, tanto quanto você. De anos 70 e 80. Ah, disso sei. Dos tempos em que subir num banquinho e discursar só era possível comum companheiro na esquina, pra ver se não vinha PM. Disso entendo. Essa meninada não sabe o que é falta de democracia. Ah, não sabe. Nem de ouvir falar, muito menos de ler – que disso a geração inteira não sabe. Ah, e da Cesma não precisamos falar. A defendemos. E ponto. O resto… desculpem os meninos e meninas… é bobagem. De quem só ouviu falar de censura. Por que ler, desculpa, não leu. E tenho dito.

  3. 3 Gisele

    Bobagem.Então o melhor é, já que a “gurizada” não tem propriedade pra falar de censura, não sabe aproveitar a democracia (sim, então colocamos pichadores e defensores da Cesma E da arte no mesmo balaio de gato), não falar nada e dizer amém pra tudo o que é feito na Cesma.
    Acho que defender a Cesma pode ser também, pensar no modo como a Cesma é feita, não? OU já está tudo pronto e bonito? Não vi ninguém que está questionando as atitudes da cooperativa dizer que acha certo as pichações, ou não considerar todas as coisas boas que a cooperativa faz e é. Mas também não penso que estejamos envolvidos numa bobagem de criança. Mas vai ver que e minha opinião é de criança, que não conta muito, não faz sentido, é bobagem.

  4. E aí, professor.
    Falei meus disparates sobre os disparates. Usei o termo “tédio”, de forma não muito clara. Mas me parece que essa é a questão central: a tragédia do caralho não me parece mais do que uma tentativa de fugir do tédio do quintal da cena artístico-cultural santamariense, armado justamente por esses (nós) que não viveram os tempos em que discursar pra companheirada era uma aventura de filme policial. Mas, assim como não quis falar dos “saudosos tempos de outrora” nem no dia do Seminário de Estágio, nem com meus pais, não vou fazê-lo agora. A mim parece que o buraco (negro) em que se quer enfiar o pinto do lobo é mais embaixo. E que se faltam espaços para a arte, falta ainda mais o que preencher esses espaços que ainda não existem.

    PS: Dizer “a mim parece” é vacinar-se contra o erro, não?
    PS2: Lembrei agora daquele artigo sobre “pedantismo” que está encravado nos nossos murais, no terceiro andar da República.

  5. Caro Ronai.

    As bartas estão mal encaralhadas, é uma constatação. Que nos instiga e nos remete a profundas reflexões.
    Mas há um complexo a ser resolvido… ou mal-resolvido. Sei lá.
    Afinal, quem encaralhou as bartas? Antes de transferirmos aos outros a atitude de encaralhamento das bartas, devemos reconhecer, até por omissão, que fazemos parte desse encaralhamento. Todos nós temos uma bartinha encaralhada lá na Cesma. Todos nós, associados, encaralhamos um pouquinho as bartas durante longos anos… eu escrevi anos. Entendido?
    Talvez quando admitirmos que somos parte desse encaralhamento, venhamos a ter um múltiplo orgasmo com as futuras produções culturais na Cesma. E por que não dizer nos demais espaços culturais da cidade. A Cesma, nos seus trinta anos, é a idealização de um sonho e, definitivamente, não é um castelo de bartas.
    O nosso grande desafio é tirarmos boas lições desse episódio. E buscarmos sempre a nossa tão almejada radicalidade democrática e cultural nesse nosso estado de direito.

    Athos

    A propósito.
    Embora a genialidade do trocadilho, acho que o “trocadalho do carilho” do Barão do Itararé ainda está insuperável.

  6. 6 ronairocha

    Meu caro Athos, por certo não me ocorreria a idéia de superar o dito aludido (que desconhecia ser do Barão)! Mas tem outro dele que gosto muito, “nunca desista do seu sonho. Se acabou numa padaria, procure em outra!”
    Pelo que andei lendo por aí, uma certa parte das queixas contra a Cesma diz respeito ao, digamos, “modus operandi” com que foi administrado a “sala justa”; a mostra teria sido retirada “administrativamente”, sem conversas com a curadora e o artista. Cá entre nós, sendo assim, não seria possível algum tipo de mal-entendido ou uma compreensão muito alternativa àquela da diretoria? Esse espaço que transita entre o equívoco e os sentimentos de censura ficou à deriva, para ser colonizado ao gosto dos sonhos de cada um que teve contato com o episódio. Eu acho que tens razão, não devemos ficar xingando o sonho chamuscado, vamos conversar mais sobre o funcionamento das padarias. E se a Cesmaria estivesse sendo vítima de seu próprio sucesso, achando que poderia ser grande em tamanho com o mesmo espírito de informalidade dos tempos do forninho amarelo? Tanto quanto assuntei, alguns padeiros tem baita autonomia, muito nas confianças, pouco nas formalidades. Desse jeito, o contrapé fica logo ali, esperando. Teve um tempo que havia um cartazinho na porta da Cesma que dizia: “A Cesma não é uma livraria e não vende livros”. Tá na hora de fazer uma nova versão, a ver qual seja, de tal cartaz, não te parece? Estou contigo, se cada um que participa dessa conversa somente entra no pato tirando seu ru da ceta, fica meio sem graça, não? A dona Prefa e a Ufesma, que faz décadas saíram no ar no ramo, dão risada.

  7. 7 claudio antunes boucinha

    Prezado Professor: Acho que você exagera. Sempre foi muito reconhecido por várias pessoas. O debate teórico, mesmo que pobre, era necessário. E ainda é. O mundo não acabou e nem você. Ainda bem. Milhares de Professores, como o você, certamente que ajudariam mais gente a pensar. Um grande abraço. Claudio.


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