Darwin e o dançarino

26jan09

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Meu pai a chamava de avestruz, mas depois me disseram que se tratava sempre de ema, ema, a maior ave das Américas. Avestruz seria um primo. Lá em casa onde fui criança havia espanador feito com pena de emavestruz. E por vezes meu pai voltava do campo com um ovo delas. Dava omelete para meia dúzia, lembro do amarelo forte, da casca grossa. E escarafunchando na memória lembro dos pés enormes, grandes unhas. Os pés estavam separados do corpo. Era isso, meu pai colhia no campo uma que outra, no raramente, balinha de 22 na testa. Normal, nos tempos. Daí viravam espanador, macio do travesseiro e sei mais o quê no carnaval.

Dias atrás estava indo para as Lavras do Sul e vi um pedaço da cena que se conta nos galpões da metade sul. Pois qualquer índio de galpão conta que na época do casamento delas, a fêmea se faz de boba e desdenha o assédio. O emovestruz se aproxima e dança como uma guariba. Essa dança, eu a vi uma vez, é coisa das mais engraçadas. Me fez lembrar um trecho do Martins Fontes, na Rapsódia Negra: “Picando o passo, o dançador desarticula-se, saracoteia e cabriola, regamboleia, corcoveia e perereca, e colubreja, e se distorce e desengonça, e desconjunta-se em tremuras epilépticas, em contraturas espasmódicas, tetânicas, como os doentes, quando dá o tângoro-míngoro, e ficam zangaralhões, bambalhamassas, trangalbadanças.” Pois é meio assim como conta o Martins Fontes a dança do avestruz, digo, da emacho. Depois da trangalbadança, que ele faz para uma meia dúzia de emas, vem a fecundação de todas elas, o que faz com que se diga que o dançarino na verdade conquista um harém, para o qual construirá um ninho tosco, um buraco no chão onde todas as parceiras vão depositar os ovos. Ali podem estar mais de dúzia. E dom Emo fica por ali de tocaia, cuidando dos ovos e, na hora certa ele se põe a chocar a ninhada. E uma vez nascidas elas ficam aos cuidados dele. As mamães, por sua vez, já estão no campo, procurando outros dançarinos.

A cena era essa que minha codaque bateu: Dom Ema levando os filhotes do harém para um lanchinho no campo.

Assim, nessa época dos janeiros, se você encontrar uma avestruz passeando com os filhotes no meio do campo, saiba que na verdade se trata de Dom Emo, cuidando da ninhada. Isso o seu Darwin não viu, eu acho. Terminei de ler o Coetzee, A Vida dos Animais e agora dá tempo de encontrar uma boa edição comemorativa do livro do seu Darwin e ver se ele conta alguma história de ema. O mais perto que ele andou do pampa, se me lembro bem, foi uns quatro mil quilometros, quando estacionou o barco ali perto de Chiloé e fez umas trilhas.

Vou consultar minha caderneta.

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4 Responses to “Darwin e o dançarino”

  1. Realmente surpreendente.
    Ao pensarmos que é da natureza as fêmeas cuidarem das crias, do lar, do macho; surgem as exceções que nos fazem pensar o que há de real nisso tudo.
    Quando tudo parece estar no seu lugar (sempre num mundo machista, claro) a natureza surge, vez ou outra, para nos mostrar que nem tudo é o que parece.
    Mais uma vez aí está a pequenez do ser humano!

  2. Amei o post!!
    E a descrição da dança, nas palavras de Martins Fontes, é hilária!!

  3. 3 Osvaldo Moraes

    Ronai, teu blog é sempre ótimo. Mas o tio Darwin andou, dos Pampas, a uma distância menor do que 4000km. Ele passou pelo RJ, na segunda viagem do Beagle sob o comando do Fitz Roy. E também por Montevideo e Buenos Aires.

    É isso.

    abs

    Osvaldo


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