Puxadinhos

30mar09

O puxado é uma instituição da arquitetura caseira. Quem não teve um em sua casa? Um quartinho a mais nos fundos unido por um teto ao corpo da casa e depois mais um galpãozinho e o teto vai ondulando para o fundo do terreno, por vezes em linha reta, por vezes no ziguezague. Na casa do meu tio, no Formigueiro, a tripa do teto, no decorrer dos anos, foi aumentada para cobrir o quarto de um tio agregado, o galpão fechado para os instrumentos, o galpão aberto para os animais e o galpão mais aberto ainda para as carroças, numa linha que encompridava o corpo original da velha casa de pedra. 

O puxadinho representa a improvisão a serviço do acolhimento. Acolhimento é coisa feminina, como se sabe, e sobra ao homem esse símbolo sisudo para seu amor pelas descendências: um amor paternal gravado no zinco. 

Já na Ufesm o puxadinho é o sinônimo de uma instituição pública à deriva das pequenas vontades, dos acordos de grupinhos que trocam favores. Eles proliferam em duas formas: nos edifícios que se agregam, deformando, os prédios existentes, como no caso da antiga Interamericana, e nas casinhas que proliferam no meio dos matinhos do campo. Por exemplo, nas casinhas que se agregam junto aos institutos, na beira das ruas. Uma verba de um projeto aqui, outra verbinha acolá e surgem essas casinhas ao léu de qualquer Plano Diretor.

A Ufesm tem Plano Diretor?

Um dia teve. Ele previa, entre outros detalhes, até mesmo uma Igreja no Campus. Ela estava prevista para um ponto próximo ao local do ex-projeto “Trabalhando pela Vida”, mais exatamente onde fica uma dessas casinhas de projetos, meio escondida pela vegetação. 

Agora falam de novo em fazer uma Igreja. Corrijo. Um local para cultos, de estilo ecumênico. 

No antigo Plano Diretor da Ufesm – de 1960 – está escrito: “Igreja: A Assistência religiosa não poderia faltar na Cidade Universitária. A Igreja a ser construída permitirá uma constante assistência religiosa à população da Cidade Universitária“. 

A  notícia sobre o Centro Ecumênico saiu no portal da Ufesm no dia 27 de fevereiro. Ali diz que o projeto não será uma edificação isolada, “mas sim parte do conjunto de prédios do campus.” Ufa! E que “o espaço busca atender a diferentes eventos e crenças religiosas, assim como as missas de formatura.” Bueno, faz muito tempo que esse tal conjunto de prédios anda mal dos tijolos, na base dos puxadinhos, que a gente veja. E quanto ao ecumenismo, daqui uns dias o bispo do passaporte diplomático, o tal do Edir, vai andar pelo campo da Ufesm? Não seria melhor deixar esses assuntos de “diferentes crenças” antes do pórtico? O que será que esses candidatos ao cargo de Reitor  pensam disso?

A viúva não gostou muito da idéia de ver seus trocados a serviço de “assistência religiosa federal”, como lhe ocorreu pensar na hora. Eu, idem.

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