O fim do vestibular

05abr09

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A Ufesm faz um dos melhores vestibulares do Brasil. Vestibular é um procedimento de seleção dos melhores alunos e as universidades tem o direito de fazer isso; se elas conseguem fazer isso sem entortar as escolas, melhor; se conseguem fazer isso melhorando as escolas, melhor ainda. Por vezes a Ufesm consegue fazer isso.

Nem sempre é assim pelo Brasil afora. Para selecionar os melhores alunos, em especial para aqueles cursos mais disputados, as universidades preparam vestibulares preciosistas, detalhistas, conteudistas, e com isso entortam, deformam, influenciam negativamente o ensino médio. Vestibular é um procedimento de seleção e isso quase sempre é feito ao custo de uma boa relação entre a Universidade e o ensino médio. 

Agora o MEC quer começar a mudar esse estado de coisas. Para essa mudança ocorrer as universidades federais devem abrir mão de seus vestibulares e adotar, em comum acordo, uma prova nacional de ensino médio, que, além de impedir que um mesmo aluno participe de diversos vestibulares, cria uma espécie de ranking nacional cuja nota será usada pelo aluno para pleitear sua vaga onde quiser. Isso não impedirá que, após essa etapa, cada universidade tenha uma nova etapa de seleção.

A vantagem parece óbvia. Essa metodologia permite ao ensino médio ficar livre da pressão conteudista dos vestibulares regionais, pois a prova nacional será orientada por um currículo menos detalhista, voltado para habilidades e competências mais amplas. 

É a primeira vez, em mais de quarenta anos de vestibulares, que surge uma proposta capaz de terminar com o vestibular como o conhecemos, sem prejudicar o processo de seleção e sem perverter o ensino médio.

Agora a bola está com as universidades. A ver o que dizem os nossos dirigentes.  No que dependesse de mim, seria para ontem.

Na foto acima, a fila não é para o vestibular, e sim para um almoço no Restaurante Universitário da Ufesm, na retomada das aulas de 2009.

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7 Responses to “O fim do vestibular”

  1. 1 Frank Thomas Sautter

    Ronai,

    parabéns a você pelo livro e a Gisele pela resenha!

    Quanto à questão dos processos de seleção, permita-me discordar de seu ponto de vista.

    Meu argumento é o seguinte: sou, como você, professor de uma Licenciatura; se não for capaz de elaborar uma questão adequada, na minha área de atuação, para um aluno do Ensino Médio, o problema certamente é comigo e não com a instituição responsável pelo exame ou com as instituições que preparam para o exame. Se não for capaz de fazer isso bem feito, estou no lugar errado. O governo deveria, nesse caso, me demitir e não encobrir minha deficiência entregando a elaboração do exame a “especialistas” (Eu deveria ser o especialista. Fui contratado, entre outras funções, para ensinar a avaliar).

    Um segundo argumento, um argumento pelo exemplo, é o seguinte: examine as provas de Filosofia do ENEM e do ENADE; há, nelas, muitas imperfeições e mesmo erros que NÃO levaram à anulação dessas questões (Lembra-se da questão da tabela de valores de verdade? Ela não apenas está errada, mas a própria concepção da questão é errada, porque exige uma mera memorização. Esse exemplo não é um exemplo isolado, há muitos deles nas poucas provas que foram realizadas); por outro lado, examine as provas de Filosofia nos processos de seleção da UFSM: elas são, salvo melhor juízo(!) e correndo o risco de morder a língua no futuro, melhores do que as provas do ENEM e do ENADE, tanto na concepção como na execução.

    Se o governo pensa em estimular as Licenciaturas, penso que adota um caminho errado ao centralizar os processos de seleção. Se as universidades aceitarem passivamente a oferta, isso não apenas é um retrocesso na questão da autonomia universitária, mas também um atestado de incompetência.

    A centralização dos processos de seleção não é nem necessária, pois deveríamos ter competência para fazê-los, nem suficiente, pois nada nos garante que as instituições que preparam SOMENTE para a aprovação em processos de seleção não se adaptem rapidamente à nova sistemática, desvirtuando a proposta original.

    Se a postagem foi excessivamente longa, me desculpe. O assunto não é simples, muita coisa está em jogo (refiro-me ao futuro do Brasil) e não pode ser tratada sem argumentos ou com argumentos levianos. Espero, de minha parte, ter contribuido para alimentar o debate.

  2. 2 ronairocha

    Frank, obrigado pela contribuição. Certamente é o caso de se ver alguns lados negativos da proposta, como mostras. Eu estou enfatizando o que penso ser positivo. Penso que nas cidades de porte grande, com universidades federais e particulares, o enviesamento do médio é muito forte. Muitas universidades grandes, exercendo simultaneamente suas autonomias, sem conversar entre si, como soe acontecer, geram essas perversões. O argumento da autonomia, como eu o vejo, tende a ser uma grandiloqüência pouco sensível ao elitismo do atual sistema; a autonomia pode ser preservada com o adicional de seleção específico dentro de um mesmo curso; a competência tem sido muito bem exercida pela nossa Universidade, isso eu vejo claramente; mas como país eu não a vejo assim. A ver, com o passar das horas. Eu ainda não tenho o texto oficial da proposta, vamos seguir assuntando.

  3. 3 Frank Thomas Sautter

    Ronai,

    o que me preocupa e, talvez, seja o foco de nossa diferença é o que diz respeito ao seguinte trecho transcrito pela Gisele no blog dela, e pertencente a uma reportagem da revista Época: “Mas as universidades estão preocupadas em selecionar alunos, não em orientar o currículo do ensino médio.” É uma questão de fato ou de direito?

    É uma constatação? Nesse caso seria lamentável, pois qual é o papel das licenciaturas senão, entre outras atividades, orientar os currículos? Se há uma cissão entre ensino médio e ensino superior, devemos estimulá-la? Aliás, da elaboração pelo menos do programa dos exames deveriam participar todos os professores, não apenas os das licenciaturas, pois sabemos o quanto todos nós nos queixamos do despreparo com que os alunos, em geral, ingressam na universidade.

    É uma diretiva? Nesse caso seria pior ainda, pois, novamente, qual é o sentido das licenciaturas, se elas não podem sequer orientar os currículos? Elas são tão somente um palco para políticas educacionais? Seu livro diz o oposto: nós, educadores, temos o dever de participar ativamente de discussões curriculares.

    Admito ser um erro apelar para a autonomia universitária. Afinal, a palavra “autonomia”, a exemplo da palavra “democracia”, é utilizada para sustentar as mais variadas teses, muitas das quais rivais entre si, o que a faz uma palavra praticamente sem significado algum.

    Outros pontos para discussão:
    a) Muitas exames têm uma etapa dissertativa, o que sempre é desejável. Isso seria possível num exame nacional? Improvável.
    b) Um mesmo exame poderia satisfazer igualmente, por exemplo, as necessidades das instituições paulistas e de instituições em regiões menos favorecidas do país? Improvável. Você poderia contra-argumentar que um exame adicional poderia ser realizado. Mas se a necessidade de um exame já é odiosa, por causa do desgaste emocional dos candidatos, do foco errado, etc., o que dizer de dois ou mais exames?

  4. 4 Fernando

    Caro Ronai,

    perdão, é o único meio que tenho de me comunicar contigo … Seguinte: preciso da edição d’A Razão de 07 ou 08/03/1998. No post ’10. Filosofia e “filosofia de vida” ‘, de 2006, te referes à manchete daquele dia: “A Razão adquire dois parceiros”. É o que me interessa …

    Se puderes me dizer qual biblioteca de Santa Maria tem a coleção completa d’A Razão, irei buscar e, desde já, agradeço.

    Cordial abraço,

    Fernando Alves – Uruguaiana.

  5. 5 ressentimento

    Gosto da idéia dessa prova unificada e acho que não tem problema se os cursinhos decidirem vender o ensino de habilidades e competências (aliás, me divirto com a idéia do professor de cursinho, em toda sua dinâmica própria, realizando esse ensino diferenciado) que é, por si mesmo, mais razoável que o de conteúdos. A Universidade segue pautando os currículos, os cursinhos e segue com a responsabilidade de vigiar a qualidade do que, afinal, está produzindo dentro de seus muros – só que estará fazendo isso de um jeitinho diferente desse a que estamos acostumados.

    Vislumbrar essa possibilidade quase me faz perder o meu precioso preconceito para com as questões de filosofia “solúveis em outras disciplinas”. Uma vez que a avaliação visaria “habilidades” e “competências”, quase me permito acreditar que muitos profissionais de muitas áreas, a despeito de seus caprichos, seriam obrigados a sentar bem perto uns dos outros para compor o tal exame. E minha querida filosofia não precisaria ser o mártir da transversalidade. Mas esse é um outro tópico. Por hora parabenizo o prof. Ronai pela foto da fila do RU: tem sido bastante chato ter de almoçar no Ru às 11h (quando ainda não tem muita fila) ou às 13:30h (quando já não tem mais muita fila). Sou dos que acham que aquela fila fica melhor ali em cima da ponte, no meio da avenida.

  6. Ronái meu velho
    Repasse para o Fernando os caminhos da razão…
    a edição dos dias 07e08/03/2009 pode ser acessada na remissão
    http://www.scribd.com/doc/13069132/070309
    Guina
    em tempo: posso te emprestar a Nothomb. Já li vários livrinhos dela. Acho que você vai se divertir com a moçinha.

  7. 7 rafaelle

    eu queria saber os pontos negativos, vou fazer um debate sobre isso amanhã!
    durante minhas pesquisa consegui entender que com a unificação das provas privilegiará alunos que já vem tendo uma educação de qualidade, e além do mais, não terá questões regionais, ou seja não estará favorecendo as matérias de história, geografia, enfim…cite mais algunas


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