Os conselheiros

26abr09

Os nove leitores desse blogue sabem que aqui eu falo de um país fictício, chamado Zilbra, e de uma universidade pioneira na institucionalização do ensino superior em Zilbra, a Ufesm. Mesmo se tratando de ficção, alguns desses leitores acham que estou exagerando na dose de acidez ao comentar certos acontecimentos da Ufesm. Vou tentar mostrar que não.
Na ultima sexta-feira, o Conselho Universitário da Ufesm reuniu-se. A primeira coisa a ser notada foi a notável quantidade de conselheiros – eu escrevi conselheiros – que usavam botão de candidato, aquela coisa de lapela na qual o sujeito faz propaganda de seu candidato a rei-tor. Uns muitos de um lado, uns muitos de outro, todos pregando na roupinha, em algum lugar bem visível, o nome do seu magnífico de preferência. Só isso deveria cobrir de vergonha a nós todos que estávamos trabalhando até as seis horas da tarde na ultima sexta-feira. A decadência moral da Ufesm é desse gigantismo: os conselheiros, que devem acolher o resultado da tal consulta e que devem gerir, em ultima instância, a própria Ufesm, abrem o voto em plenário. Não só isso. Qualquer um que esteve na reunião de sexta que me prove o contrário: qualquer coisa que se discuta ali, daqui por diante, é avaliada na conta dos ganhos e das perdas dessa e daquela outra candidatura.
O Conselho Universitário está enterrando a Ufesm, vamos ser claros. Partidarizada e devidamente esculhambada a escolha da lista – pela esdruxularidade dos critérios (lembrando: ativos e pijamas juntos, ex-alunos de fora, alunos regulares de curso à distância devem vir até a sede…) – faltava desmoralizar a figura do conselheiro.
Devia ser simplesmente proibido o uso de bottons de candidatos em reuniões do Conselho Universitário. Mas uma coisa chamada recato, ou decoro ou respeito ou comedimento, ou apenas a idéia do conselheiro tentar vestir a camiseta da Ufesm, essa idéia, ao ir pelas cucuias, levará consigo o que resta de uma certa noblesse que algumas vezes caracterizou a instituição.
O reitor da Ufesm não lê essas mal traçadas. Se ele lesse eu teria a esperança que ele recomendaria, enfaticamente, a retirada dos bottons no plenário do CU. Ele usaria como argumento o fato que ele, como reitor, está impedido de fazer isso, muito embora tenha seu candidato.
Todos os demais, por serem conselheiros, também estão.
Vou mais longe. Os candidatos, se tivessem a tal da noblesse, sairiam do conselho até o dia posterior à consulta.
Mas isso sou eu, minhas maluquices, e mais meus nove leitores, com sorte, pois, dizendo essas coisas me arrisco a perder mais alguns.

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9 Responses to “Os conselheiros”

  1. 1 Anônimo

    O MAGNÍFICO, além de não saber usar um PC, também não sabe acessar a internet.

  2. ronái meu velho, como vais?
    quando a ignorância e a má se aliam não há quem possa vencê-las. pois eu te mando um pouco de Proust, para alentar um tanto estas tuas feridas, que também são minhas….

    “Deixando os XXX, você vai visitar os YYY, e a estupidez, a maldade e a situação miserável dos XXX é desvendada. Cheio de admiração pela clarividência dos YYY, você enrubesce por ter tido anteriormente alguma consideração pelos XXX. Mas, quando volta à casa deles, eles arrasam os YYY e quase com os mesmos argumentos. Ir à casa de ambos é visitar os dois campos inimigos. Apenas, como um nunca ouve a fuzilaria do outro, cada um acha que é o único que está armado. Ao se perceber que o armamento é o mesmo e que as forças, ou antes, a fraqueza, são iguais, deixa-se então de admirar aquele que atira e de deprezar o que é alvejado. É o começo da sabedoria. A sabedoria seria mesmo romper com ambos.”
    “Os prazeres e os dias”, de Marcel Proust

  3. 3 ronairocha

    Caro Guina, obrigado pelo excelente Proust a nos fazer pensar nesse começo de curta semana. Fiz um ajuste no título do post, para não envenenar mais ainda o leitor com meu mau humor.

  4. Olá, Ronai… Não sei se você tem razão em algumas coisas. Não sei meeeeesmo. Mas de uma coisa eu sei: conselheiro pode e deve ter candidato (assim como repórter, redator e editor), mas nunca, no exercício da função, inclusive para não constranger os demais, pode fazer propaganda ostensiva de uma parte (e o tal botton cumpre essa função). Aliás, como repórter, redator e editor. É uma questão de, digamos, pudor. Ou, como diria meu amigo Eroni Paniz (que não tenho problema em separar carinhos de ideologias), alhures se diria… pundonor. Ah, e acho que tem mais que nove leitores… hehehe…. De todo modo, com a tua licença (nunca pedida, mas também nunca negada), reproduzirei o texto acima no meu sítio – que, ufa, imagino tenha mais alguns leitores, o que amplificaria tua opinião.

  5. Olá, Ronai e demais leitores (que são bem mais de nove) deste blogue. Além do meu próprio sítio (www.claudemirpereira.com.br), recomendo a leitura daquele que é, na minha opinião, o melhor endereço na internet a fazer crítica da mídia em Santa Maria, e que também está tratando da “consulta à comunidade universitária”. Trata-se do “De mau humor” (que, aliás, nem é tããão assim. risos), da colega e mestranda em comunicação Silvana Dalmaso. O endereço é http://silvanadalmaso.blogspot.com/.

  6. 6 Osvaldo Moraes

    Ronai, seguramente que não devo estar incluido nos 9, pois acesso teu blog apenas esporadicamente. Assim, considere como 9,5 o número de leitores. Entretanto, após esta tua última nota farei esforços para que este número passe a ser 10.

  7. ronái meu velho, como vais?
    quem tem maíra não vai morrer pagão!
    que bela foto da tua guria você postou no flickr!
    abraços guinescos
    guina

  8. 8 marcelo

    O barco que navega hoje comandando a regata em águas calmas terá que enfrentar um tsunami logo logo! Acredito que irá virar!

    Parabens pelo blog!

  9. 9 Delmar Bressan

    Meu caro Ronai,
    louvo a crítica contundente do amigo ao processo eleitoral da UFSM. Fico a me perguntar, no entanto, se o modelo de eleições que temos praticado até aqui é adequado para uma instituição (supostamente) acadêmica. Penso que nos aproximamos (perigosamente) de uma eleição para síndico de um prédio um pouco mais populoso que o habitual…
    Um fraterno abraço


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