Adeus

04jun09

Barak Obama fez hoje um discurso na Universidade do Cairo que a imprensa considerou “histórico”.
A Universidade do Cairo tem cem anos e é considerada uma honrada herdeira da sabedoria islâmica que, como se sabe, é uma porção indiscernível da sabedoria da humanidade.
A Universidade do Cairo não faz eleições para reitor.
As eleições para reitor em universidades públicas tem um imenso valor … geológico. Elas são uma lembrança viva de um procedimento realizado pela primeira vez faz quase trinta anos – foi no início dos anos oitenta, não? – para sinalizar a indignação dos universitários – estudantes, professores e servidores – em relação às arbitrariedades do regime militar.
As eleições diretas e paritárias para reitor somente sobrevivem em alguns ambientes refrigerados nas proximidades tropicais da linha do equador.
Elas representam um anacronismo que beiraria ao ridículo, se não fossem apenas o que são, a pequena tragédia de uma ainda menor quasi-burguesia urbana e orfã. A orfandade das utopias gerou essa pequena tragédia, entre outras coisas. Ou foi apenas falta de leitura, como diria o Mestre Guina?
Mas eu vou votar. Eu sou muitos, eu contenho multidões, eu me contradigo e repito as palavras de meu poeta favorito.
Pela ultima vez. Depois vou tomar um café no Bloomsday e me aposento dessa lida.
Nenhuma universidade de respeito, fora do Brasil, faz eleicões como a nossa.
Seria hora, então, de discutir profundamente essa nossa originalidade.
Seria hora de desconfiar que esse sistema de eleições cria uma ingovernabilidade radical: para conquistar votos o candidato precisa negar a teoria do poder como soma zero. E quem faz isso gera a impossibilidade da administração, pois não pode atender todos os interesses ao mesmo tempo.
Seria hora de desconfiar que uma universidade pública não é uma sociedade em miniatura.
Eu participei da primeira e da segunda eleições, antes de 1985. Antes do fim da tal da dita dura. Depois que dita dura terminou, que tivemos a Constituinte, achei que a gente fosse pensar melhor essas coisas. Nada mudou muito, até os direitistas se esquerdizaram com o tempo, já que os gatos todos foram ficando pardos. Hoje é esse cambalache que o Claudemir indicou muito bem.
Barak Obama fez hoje um discurso interessante na Universidade do Cairo. Que vai ser muito discutido na Sorbone, em Harvard, e em muitas outras universidades, algumas maiores, outras menores, longe das terras tupiniquins. Em nenhuma delas tem essa coisa maluca de eleição direta e paritária.
Aqui, a gente vai fazer uma eleição direta e paritária para rei-tor.
As eleições estão nuas, como o rei daquela historieta popular.
Não vê isso quem é distraído ou lê pouco ou é mesmo mal-intencionado.

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One Response to “Adeus”

  1. Ronái meu caro, como vais?
    Belo texto, didático e preciso como sempre. Acho que a tal “comixão de conxulta estulta” esqueceu de um público que também poderia votar para rei-tor. São os pacientes do hospital universitário! Porque não? Eles estão dentro do campus, fazem parte da comunidade, têm todo o interesse em influir na reitoria. Como não outorgar a eles também o direito a voto?
    Como você bem lembrou em nenhuma universidade séria do mundo jamais houve votação para reitor nestes termos em que a coisa está acontecendo na ufesm. É triste perceber que a grande maioria dos habitantes da ufesm (porque é demais denominá-los de outra forma) não sabe o quê é mesmo uma universidade. Triste paralelo trinta este nosso, que possui gente assim.
    Eu continuo com meu tambor: Dia 16 de junho é dia de Bloomsday. Não faça outra coisa, participe do Bloomsday.
    Abraços e bom final de semana.
    Aguinaldo


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