A prova de Filosofia

27jul09

Poderia ser quase um sinal dos tempos: haver uma prova de Filosofia no exame de ingresso para as Universidades. E seria um sinal ambíguo, negativo para alguns, positivo para outros. Afinal, como encerrar a sabedoria filosófica entre as letrinhas de alternativas? E, de outro lado, que coisa mais notável incluir as letras filosóficas entre as obrigações formacionais da meninada média? Entre San Juan e Mendoza, como se diz aqui no pampa, a prova de Filosofia, segundo lembro o dito por alguns de seus promotores, anos atrás, surgiu como uma sugestão de muitos professores da própria rede de ensino médio. Essa sugestão foi acatada pela comissão de ingresso na universidade, que a levou até ao departamento de Filosofia e nessa conversa foi surgindo a proposta que hoje vigora. O programa da disciplina surgiu de uma comissão de professores da rede escolar, na qual havia representação da Ufsm. Um leitor do blogue pergunta qual era o objetivo da universidade, quais conhecimentos a Universidade queria promover. Ele questiona a decisão que foi tomada, anos atrás. A Universidade adotou um programa que o leitor considera um tanto vago, com títulos muito gerais: “Verdade e Justificação”, “Usos da linguagem e argumentação”, “Liberdade e determinação”, para não falar de outros títulos ainda mais gerais, como “Felicidade”, ou “Ética e Política”.
O leitor diz que é exatamente a disciplina de Filosofia que tem baixado a pontuação dele, bem como da maioria dos seus colegas.
Ao ler a segunda parte da afirmação, fiquei mais aliviado, pois, ao que parece, a dificuldade é geral. E se é geral e bem repartida, o mal apontado ao menos não discrimina.
Eu não tenho respostas para essas perguntas, mas arrisco alguns palpites.
Eu acho que não houve um “verdadeiros objetivos” com a prova de Filosofia. Eu acho que houveram muitos objetivos, e, acima de tudo, houve um convencimento mais ou menos disseminado que, a médio e longo prazo, a promoção de estudos de filosofia no nível médio seria algo valioso, e que a Universidade deveria assumir sua parte nessa história, induzindo comportamentos a partir do vestibular. Ela tomou a decisão e com isso se antecipou a algo que desde 2008 passou a ser uma obrigatoriedade nacional: ensino de filosofia no nivel médio. A escolha de um programa mais ou menos vago, a meu ver, faz sentido se as questões tiverem uma baixa exigência de memorização de conteúdos e se orientarem pela exigência de atenção e habilidades gerais de leitura. E é isso que tem sido buscado pelas bancas, com maior ou menor sucesso: elaborar questões que exijam apenas um vocabulário de base, aplicado em contextos de outras disciplinas, sem exigir decoreba. Esse tipo de programa e esse tipo de questão gera desconforto nos vestibulandos. Isso porque não há macetes para a prova de Filosofia, não há fórmulas para decorar, definições para memorizar. A questão de filosofia, apesar de terminar numa letrinha, exige que o aluno pense; e, por certo, ninguém pensa no vazio e a partir do vazio: para pensar é preciso ler com cuidado (ou apenas l-e-r!!!) Ler não é o resultado mecânico da alfabetização bem sucedida. Ler é um hábito que se adquire aos poucos e que exige prática. Muitos alunos fracassam nesse primeiro degrau: lêem mal, lêem pouco, lêem sem atenção. E aí começa a tragédia. Eu acho que a Universidade, ao tomar essa decisão, resolveu apertar um pouco mais o parafuso contrario à inércia, fez uma aposta contra a corrente e de médio e longo prazo.
O aluno me pede uma sugestão de como proceder para poder enfrentar as provas de filosofia com mais segurança, diante desse currículo um tanto vago. Bem, eu acho que Universidade gostaria que os estudantes lessem alguns dos bons livros que ajudam a criar um fundo de cultura filosófica: autores da nova geração, que tem sido traduzidos e publicados no Brasil, por exemplo (Law, Kenny, Blackburn, Wilson, Warburton, Baggini, Fosl; essas leituras ajudariam a situá-los naquilo que eu chamaria de “familiaridade com conceitos e problemas básicos”. Mas essas leituras são pouco produtivas no contexto de histórias pessoais de pouca leitura em geral. Essa situação é geral, como diz o leitor deste blogue. E provoca um certo medo e uma certa dor.
A outra alternativa – um programa mais detalhado, mais minucioso – seria muito boa para reduzir o medo e a dor. Mas provocaria, no final das letras, a decoreba de sempre.
Eu acho que a Universidade escolheu o tipo de medo e dor que queria provocar. E não se saiu muito mal.

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3 Responses to “A prova de Filosofia”

  1. 1 filopucpos

    Esse texto pode ser lido como um pequeno manifesto. De grande valor.

  2. 2 filopucpos

    Ai, sou eu, Gisele, agora no wordpress fico com a identidade do blog dos alunos da pós da PUC-Rio…

  3. 3 Anônimo

    Dez, apesar da necessidade de ajustes quando você se refere a “U”niversidade.


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