O papel dos sentimentos

09ago09

maos (1 of 1)
Depois que foi lançado no Brasil o livro de Martha Nussbaum, A Fragilidade da Bondade, fiquei torcendo para que seja também feita uma tradução do seu livro sobre o papel dos sentimentos no direito. Em Hiding from Humanity – Shame and Disgust in Law (Esquivando-se da humanidade – Vergonha e Repugnância no Direito , numa tradução livre) Martha examina o papel que certos sentimentos como a vergonha e a repugnância tem em nossas vidas, tanto individuais quanto sociais, em especial em alguns argumentos jurídicos e políticos. A fundamentação de leis sobre censura nas artes, por exemplo, algumas vezes invoca os sentimentos de repugnância que um certo tipo de obra pode despertar nas pessoas. O livro discute casos concretos em diversas áreas, com exame de casos nos tribunais americanos. Faz pensar.
Eu fiquei pensando. Martha pede que a gente examine a possibilidade desses sentimentos por vezes terem alguma conexão com um desejo da gente negar a própria humanidade. Quem nunca pensou em ter o “corpo fechado” jogue a primeira pedra. Assim como o Borges brincava literariamente com a idéia de ter sido sorteado para ser imortal, muitas vezes a gente flerta, num nível nem sempre articulado linguisticamente, com certos desejos e pensamentos de ser invulnerável ou puro diante dos mares de lama da humanidade. Assim, o mais usual é se ouvir discursos inflamados condenando a corrupção dos políticos en bloc, ressalvada a pureza e invulnerabilidade do discursador, é claro, pois essa pureza funciona como a condição de possibilidade da crítica. Eu posso falar da corrupção do político pois meu imposto de renda, por exemplo, resiste à todo e qualquer exame ou minhas compras no país vizinho são todas dentro da lei ou minhas notas fiscais não deixam nenhum serviço ou venda de fora, tenta dizer para si mesmo o sujeito que está tomado por certas “idéias mágicas de contaminação e impossíveis aspirações à pureza que não estão alinhadas com a vida humana como nós a conhecemos”. Martha argumenta que esses sentimentos, como a vergonha ou repugnância nunca devem ser a base para a criminalização de nossas ações, nem mesmo para agravar ou mitigar as responsabilidades. É claro, você diria, isso funciona bem para os casos de casamentos gay, pornografia, esses casos com embriões e células-tronco, que são alguns dos casos mais importantes para Martha. Acho que não. Algumas pessoas que eu conheço pessoalmente aqui na cidade, Paulo Sarkis, Silvestre Selhorst, Dario Trevisan, Ronaldo Morales, José Fernandes, Luis Pelegrini, Ruben Hoher, por exemplo, talvez experimentem algumas vezes olhares e sentimentos de reprovação pelo fato de serem réus em processos jurídicos. Quando isso ocorre não será que seria o caso do olhador sentimentoso pensar um pouco melhor sobre certos fatos muito gerais acerca da imperfeição humana que nos colocam a todos no mesmo barco?
Nesse domingo dos pais chuvoso acho que deveria chover também um tanto sobre as almas das gente na Boca do Monte, para que elas ficassem mais úmidas e mais humanas.
A foto ali (feita por mim) é das mãos da Yeda. Eu nunca privei com ela. Mas ela me faz lembrar do Carlos Crusius, de quem fui colega de curso durante dois anos. Nesse dia dos pais ele deve estar bem triste, imagino eu. Ele faz parte da lista que fiz acima, de pessoas a quem cumprimento no dia-a-dia, pais-de-família-como-eu, pessoas a quem continuo cumprimentando, em especial nesse domingo molhado. Eu quero para eles o melhor, que sejam julgados sem sentimentos especiais, apenas o da justiça. Pois é fácil, diria Martha, esconder-se da humanidade. Resta perguntar onde, neste humano mundo?

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3 Responses to “O papel dos sentimentos”

  1. Sabe, Ronai… uma confissão (que já fiz em privado a muita gente). Certa feita, faz 20 e alguns, no início da profissão e já com espaço na observação política, chamei certa pessoa de “viúva porcina – aquela que foi sem nunca ter sido”. Juro que não escreveria hoje, e morro de vergonha de um dia ter publicado algo sobre alguém que não conhecia, embora pública fosse. Se pudesse, pediria desculpas à senhora aquela, verdadeira vítima de uma pena imberbe. Se vale, hoje penso muuuuito mais no receptor da mensagem – que ele existe, é de carne e osso como eu, como você. Não diminui minha acidez eventual, mas me conforta, de todo modo. Digo isso porque, em se tratando de corrupção e de toda a lama de que uns e outros falam (não raro com alguma razão), sempre me faço uma pergunta: e aí, quantas vezes você furou uma fila? E aí, quantas pessoas, das tuas relações, ou próximas, têm “gato” de tv a cabo? Deu para entender? Espero que sim.. hehehe.. Ah, a foto é ótima. Abraço e bom dia dos pais… que nossos Pedros sejam melhores que nós.


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