Sinuca embaixo d’água

07set09

Aproveitei o feriado para ler o romance de estréia de Carol Bensimon, “Sinuca embaixo d’água” (Companhia das Letras, 2009). Carol é portoalegrense, nascida em 1982, e no ano passado publicou um volume de, digamos, contos, chamado “Pó de Parede”. Agora saiu seu primeiro romance. O livro me fez pensar na voz que cada geração tem que fazer para si mesma, na compreensão de mundo e vida que cada um de nós fabrica para si mesmo e que a cada tanto caduca; caduca para o varejo da gente mesmo, pois a vida da gente por vezes é como focinho de porco, vai adiante antes dos olhos e das idéias e topa com coisas que a gente não revolve bem; mas caduca no atacado, quando nos encolhemos diante do esquema geral de tudo, quando nos refugiamos nas pequenas idéias das pequenas tribos, nos esquemas reconfortantes da salvação da humanidade no atacado das boas intenções. A geração de Carol chegou tarde demais para embarcar nos sonhos do atacado libertário, malemal colaram uma allstar no peito por consideração aos pais e tiveram que sair em busca de outros sinais. Boas escolas fizeram uma diferença; o mundo foi descoberto aos poucos, com garantias; descobriram “os com pouco dinheiro” e a contraditoriedade do mundo, e, como nós, os porcos antigos, foram enfiando o focinho na terra, percebendo a diferença e o intervalo entre o gesto e o pensamento, entre o acontecimento e a idéia. E foram afinando a voz e a percepção, entre a alegria e as pequenas tragédias. Até que.
Tem livros, desses que as editoras vendem, bem fresquinhos, cheirosos como pão da hora, que a gente lê e fica pensando na tristeza das árvores que caíram. Tem outros que me fazem pensar nessa metáfora boba, de porquinhos que focinham com calma, que parecem compreender o intervalo. E daí se metem a escrever, furiosa mas calmamente, intensamente, mas mostrando que sabem o tempo que toma “recompor afetos, reinventar a vida”.
A sinuca de Carol, acho eu, não é de bico.

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2 Responses to “Sinuca embaixo d’água”

  1. 1 José Antonio Brenner

    Olá, Ronai!
    Descobri teu blog por inf. do Valter Noal. Gostei!
    Conhecendo tua experiência de percorredor de trilhas, pergunto se já passaste pela localidade de Durasnal, cerca de 15 km a oeste do centro da cidade. Nos primórdios da poavoação santa-mariense, lá havia um antigo cemitério dos Pompeo de Toledo, quando o lugar se chamava Durasnal de São João.
    Dá uma olhada em minha última postagem, no blog http://brennerdesantamaria.blogspot.com/
    Estou interessado em visitar Durasnal e preciso saber como se chega lá.
    Uma abraço

  2. 2 Ronai

    Caro Brenner,
    obrigado pela visita. Conheço algo da região oeste, mas lembro apenas vagamente desse nome nas minhas andanças por ali. Conheço ao menos dois cemitérios semi-abandonado em meio a campos, em uma região que se enquadra na tua descrição. E sei de um terceiro, por mapa. Assim, teríamos alguns pontos de partida. Todos eles tem como ponto de acesso a nova BR158. Um deles, mais distante e mais abandonado, uns dez quilometros antes do Pau Fincado, é visível da beira do asfalto. Esse é o mais distante, menos provável. O que mais me parece um candidato fica no meio de um campo, na beira de uma estradinha de chão, em um dos tantos acessos secundários a Dilermando. Fica, portanto, entre Dilermando e Santa Maria. O outro fica próximo a esse, em termos, também no meio de um campo, no mesmo eixo Dilermando-Santa Maria. É uma região bem servida de estradas razoáveis, e tem nomes pitorescos por ali. Fotografei em um local chamado “Sertão”, por exemplo. Sou parceiro para essa busca, por certo, pois tenho uma boa idéia da geografia da região.


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