Saída, voz e lealdade

22out09

58269Albert Hirschman sugeriu certa feita um modelo de análise de fenômenos sociais, organizacionais, políticos, etc. Ele chegou a três categorias: saída, voz, lealdade. Elas visam pensar a forma como nós nos comportamos no interior de organizações, as mais diversas.
Seu modelo teve como ponto de partida um conceito da economia, a saída. Quando a gente não está satisfeito com o padeiro da esquina, passamos a comprar de outro. Na política o conceito também funciona: a gente deixa o partido quando a hipocrisia passa dos limites, abandonamos nossa igreja quando a venda de lugares no céu passa da conta, etc. A saída pode ser percebida pelo padeiro, ele tenta melhorar o pão, quem sabe a gente volta. Sair, as vezes, é um alerta para a organização saída. Para quem sai, no entanto, o significado muitas vezes é apenas que a gente não quer mais se aborrecer, bronquear com o partido ou xingar o padeiro. A gente fica quieto e vai embora apenas, escolhe outra padaria. Ou escola. Ou universidade. Ou partido. Ou igreja. A gente sai, para não se incomodar mais. Sair, de certa forma, é fugir.
Agora, a voz. Aqui, a gente abre a boca e tenta mudar as coisas; melhorar o partido ou a igreja, mudar a cabeça do diretor da escola. A voz é o nosso lado participativo, político. Hirschmann relaciona a voz com a saída. Sair tem um custo, e assim vale tentar a voz para mudar as coisas. Assim, voz e saída se mantém em constante relação. Quanto mais não podemos sair, pode-se dizer, mais tentamos exercer a voz. Se estamos muito envolvidos no partido ou no emprego na escola ou nosso filho não tem outra opção de escola razoável – ou seja, nossas saídas são poucas ou nulas – dê-lhe voz.
Mas a voz tem custos, ora se tem. Abrir a boca tem um preço e o menor deles é a dor de garganta. Mobilizar gente com a gente, negociar, juntar os pais ou os colegas de partido, tudo isso custa. Os sindicatos que o digam. Ali se pratica voz, ali se articulam as vontades e os interesses de uma categoria, por exemplo. Nos diretórios partidários, nas associações de pais, ali temos a ação política, a voz. E quando a voz tem força? Suponha que na ilha em que eu moro existe apenas um padeiro. Depois de muito reclamar, posso mesmo ameaçá-lo dizendo que vou passar a comprar pão na ilha vizinha, distante três dias em barco a remo? A voz somente funciona quando houver um outro padeiro por perto, isto é, quando a saída for uma possibilidade real.
Na realidade, a voz só pode ser exercida de modo efetivo quando há possibilidades de saída. Quando não há saída, minha ameaça amolece.
E a lealdade? Seu ponto de partida é simples: a gente tem uma tendência – especialmente quando assinamos a ficha no partido ou o contrato de trabalho ou o contrato com a escola – a querer que as coisas funcionem, e estamos dispostos, intuitivamente, a contribuir com isso. Somos, digamos assim, mais ou menos racionais, desde que as expectativas que tivemos ao fazer esses acordos sejam razoavelmente atendidas pela organização. Lealdade tem a ver com isso. A gente espera ser tratado bem pelo padeiro e pelo diretor da escola. E se for assim não pensaremos em sair ou em botar a boca. Se as coisas funcionarem bem, a organização tem nossa lealdade. E nossa lealdade, com o tempo, pode assegurar a nossa influência na instituição. Isso reforça nossa tendência para a voz e não para a saída.
A lealdade se faz presente sempre no horizonte da possibilidade de saída e seu combustível é a voz.
Ontem, quando alguém, na entrada da Ufesm, com um microfone, assegurava a plenos pulmões, que as universidades públicas estão na corda bamba e que os hospitais universitários estão ameaçados, e etc, eu fiquei pensando nessas coisas que eu lia nos anos oitenta.
Ninguém parecia ouvir o que o sujeito do microfone dizia. Eu fiquei ali, besta como sou, pensando se ele dizia algo.

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2 Responses to “Saída, voz e lealdade”

  1. 1 Ivan Zolin

    Professor Ronai!

    Estamos quase todos de saída.
    A voz ficou rouca e em alguns casos difusa.
    A lealdade necessita do “ser” querido, que está difícil.

    Zolin

  2. Esse livro é ótimo, descreve com uma precisão assustadora o comportamento das massas e grupos frente a dificuldades. Um excelente trabalho. Recomendo a leitura, especialmente aos que trabalham em análises e melhorias do relacionamento entre empresa e consumidores. O livro não traz respostas, mas abre os olhos para que você encontre as suas. Nada mudou muito nos 40 anos entre a publicação do livro e agora, só a tecnologia, mas o comportamento humano é exatamente o mesmo.


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