“A representação de uma experiência empobrecida”

11nov09

A frase é de um amigo a quem devo mais do que posso tentar reconhecer. Ela me ocorreu ao pensar sobre as atitudes que a gente pode tomar diante desses temas que por vezes pedem para os filósofos discorrer, como o aborto. Por vezes nos defrontamos com a “representação empobrecida da experiência”, por vezes com a “representação de uma experiência empobrecida”. Quando nós, filósofos, apresentamos uma experiência empobrecida como se fosse o que as pessoas não filósofas, chamam de “realidade”, estamos muito mal. Fazer filosofia e estar à altura “de nossa experiência atual” e não de uma alucinada ou empobrecida descrição dela… isso não é para todos aqueles que reclamam a padrinhagem de Sócrates.
Os temas blogueiros que me incomodam agora são, como disse, o debate de ontem sobre o aborto – obrigado, Frank, pelos comentários, mais uma vez – ou a demissão da autoridade do professor (tema do outro blogue) ou os superinvestimentos libidinais sobre a democracia na direção das universidades. Eu estou voltado ao Marcuse, ao Benjamin e ao Freud, de onde saí um dia para fazer meus temas. Quanto ao Sartre, meu caro Vítor, a quem ainda devo umas palavras, ainda fico devendo. Mas uma coisa adianto: se ele fez alguns exageros nas descrições das operações da vontade – coisa que acho rica na descrição da Iris – compensou com seus esforços de representar a experiência humana de uma forma não empobrecida. Essa estratégia de pseudo-pensamento, infelizmente, ficou acadêmica e popular, algum tempo depois.

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6 Responses to ““A representação de uma experiência empobrecida””

  1. Ronai meu caro, como vais?
    Eu que não sou filósofo fico a matutar sobre a tal “representação da experiência empobrecida”. Ulalá.
    Cousa para se pensar. Noutro dia achei no meu surrado Proust uma menção a algo parecido com isto (ou sou apenas eu a torcer argumentos até encaixarem no teu assunto. Diz o velho Proust: “…só conhecemos verdadeiramente aquilo que somos obrigados a recriar pelo pensamento, aquilo que a vida de todos os dias nos oculta…”).
    Afinal de contas é mesmo fácil experimentar errado ou errar experimentando. Pensar é um tanto mais difícil e sofisticado.
    Abraços e boa sorte nesta tua trincheira (hoje em dia não está fácil migrar de uma trincheira para a outra).
    inté
    Aguinaldo

  2. 2 Ronai

    Caro Guina, obrigado pela visita e, em especial, pelo Proust, que poderia ter colocado a frase no início de sua “Procura”, como dístico, não? Belíssima. Nesses tempos de Bouvard e Pecuchet ela cai como uma luva! Grande abraço!

  3. Queria estar no segundo ou terceiro ano de faculdade e tentar iniciar uma discussão. A primeira coisa que eu ia dizer é que essa estratégia não é pseudo-pensamento coisa nenhuma. Mas seria só por possível amor ao santo à quem eu deveria – mas já não consigo – prestar devoção (aliás, lembro-me que uma vez, em conversa de corredor, eu disse alguma coisa e o senhor disse “Mas tu achas que os filósofos são como os santos, em quem podemos ‘acreditar’?” e eu disse algo como “Apenas os bons.”). Se me dissessem que na morte passamos a eternidade a re-ler algum livro eu sacaria sem hesitar um Milan Kundera – que em minha opinião é mais sartreano que o Sartre.

    PS: Saudades do Marcuse e do Freud do Marcuse, que mal-li nos idos de 2005, acho.

  4. Pois no “Indignation” Philip Roth nos apresenta uma proposta do que seria a eternidade: talvez uma lembrança e repetição de poucos momentos de nossa vida, todavia não exatamente aqueles mais caros à nossa memória.
    Viver é um tanto complicado, já disse um mineiro.
    Bom final de semana.

  5. Pois parece que o Philip Roth e mais cruel que o Kurosawa, portanto.

    Mas voltei aqui porque essa coisa da “experiência empobrecida” me lembrou o Zaratustra, quando o bigode fala que “A Letra era Deus, fez-se Clero e desandou em Populacho”, ou algo assim. Perspectiva que, se adotada, é elitismo; se repudiada, é populismo. Haja lucidez para os filósofos e quase-filósofos: parece que essa coisa de filosofia é uma questão de equilibrio, uma verdadeira corda-bamba na qual devemos prestar vigilância constante para não cometer o escorregão que leva junto as dezenas de alunos ou dezenas de dezenas de leitores.

  6. Olá Ronai!
    Sou a Hericka, da psico, lembra?
    encontrei teu blog, adorei.
    temos que ver sobre aquela coisa do psicodrama!
    um abraço,


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