O dedo de Lula e a sedução das ditaduras

26fev10

O Presidente Lula foi provocado por um jornalista para comentar a morte do dissidente cubano. Lula disse ter aprendido a não meter o dedo onde não se deve. No caso, nos assuntos internos dos outros países, e, no caso, em Cuba. Disse ter feito greve de fome nos seus tempos de sindicalista e que morrer era parte do risco assumido.
Hoje mais uns tantos cubanos se declararam em greve de fome. A julgar pelo que Lula já disse, seu dedo vai continuar metido em outros assuntos.
Daqui a mais alguns dias, serão uma dúzia.
Daqui a mais alguns meses, serão várias dúzias. Depois, centenas de dissidentes presos, ameaçados, perseguidos, humilhados, como se pode facilmente ver.
Cuba foi, um dia, uma esperança para muita gente de todos os lugares. Cuba foi, durante algum tempo, uma esperança de que pudesse haver um lugar no mundo em que as formalidades da democracia pudessem ser sacrificadas no altar das realizações sociais e coletivas que importavam. Poucas pessoas serão céticas diante do idealismo da primeira geração de revolucionários que depuseram os ditadores que transformaram Havana no maior cabaré da América Central.
Mas apoiar o regime cubano hoje, sustentá-lo? Em nome do quê? Eu penso que Lula movimenta-se entre os vagos princípios da soberania dos estados modernos e sua sabedoria sobre a sedução das ditaduras.
Em que consiste esta sedução? Quem pode ser seduzido por uma ditadura?
De um lado, basta ler o que dizem alguns institutos de pesquisa social. As democracias da América Latina são tentadas pelos autoritarismos e ditaduras quase que em ciclos naturais. Sempre que um processo de redemocratização apresenta resultados pífios, a gangorra vai para o outro lado. Foi assim que surgiu, no vocabulário político da América Latina, o uso da expressão “democracia de resultados”. Essa expressão foi introduzida para podermos discutir o fato de que as massas populares precisam ver na democracia mais do que o regozijo pelo estado de direito. Chamemos isso de repercussões empíricas da democracia, para indicar esse campo da avaliação da democracia na balança dos interesses particulares e imediatos, no horizonte visualizável, no cotidiano.
Aqui podemos e devemos formular algumas hipóteses (preocupantes). A mais óbvia delas é essa: a imensa maioria da população desconhece inteiramente o aspecto ideológico dos debates políticos que falam em neoliberalismo ou direita ou esquerda. Mas essas mesmas massas tem, ao mesmo tempo, expectativas de direitos sociais e econômicos, e essas expectativas se traduzem em metas pessoais extremamente simples e concretas: ter emprego, salários razoáveis, escola para as crianças, médico e hospital na hora da doença. Quais as relações que esses enormes setores da população fazem entre o desfrute dessas condições de vida e um regime político democrático ou ditatorial? Vai por aí o assunto da sedução da ditadura. Êta assunto complicado.
Eu volto.

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One Response to “O dedo de Lula e a sedução das ditaduras”

  1. Olá, professor. Antes de mais nada, bom retorno. Quanto a Cuba, sonho de muitos de nós, na infância de nossa juventude, e o texto aí de cima. Interessantíssima e necessária discussão. Mas, e reconheço que estou mais para observador do que para analista (bem sabemos que há diferenças), tenho particular interesse pela repercussão midiática. Ou, por outra, como a mídia (que acabamos por refletir, quase compulsoriamente) tradicional trata determinados assuntos. E aqui, cá com meus escassos cabelos a cobrir o bestunto, fico a pensar: qual a diferença entre Cuba e China, só para exemplificar? Hein? Outro dia, em conversa entre amigos, simplifiquei (com tudo o que isso implica em possibilidade de erro). Disse que o “problema” de Cuba não é exatamente o seu “comunismo”, senão que sua pobreza e nula inserção no cenário econômico mundial. Ao contrário da China, em que o “comunismo” é só um mero detalhe. Tanto que lá morre-se por ativismo muito mais, muitíííssimo mais, com bala na cabeça e direito a pagar a bala. Sim, provavelmente é uma simplificação à espera de uma análise (lembre, sou observador). Mas, que diabo, Lula esteve duas ou três, quem sabe quatro, vezes ao território de Confúcio. E, ao que me recorde, não ouvi ou li uma linha sobre dissidentes internos chineses. No máááximo, e olhe lá, os combatentes pela libertação do Tibete. Estarei eu delirando, caro professor e amigo?


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