A “nova ciência”

08mar10

Foi por volta de 1725 que João Batista Vico publicou seu livro mais conhecido, Uma nova ciência sobre a natureza comum das nações, que ficou mais conhecido como A Nova Ciência. Foi inevitável recordar Vico hoje, ao ler o Diário, que guardou um espaço na capa para uma manchete sobre a presença de Antonio Meneghetti em São João do Polêsine, no interior do interior da Quarta Colônia, Rio Grande Sul, Brasil. A matéria do jornal, apresentada com destaque na página 10, tem como título “Uma promessa de revolução”. Como diria o Mestre Guina, ulalá!!! A cuja expressão foi escolhida pelo repórter a partir de uma frase que teria sido dita pelo ontoguru: “Vocês vão ver que revolução científica vai sair daqui para o mundo”. (O itálico corre por conta da louca da casa). A mesma idéia foi repetida pelo diário na chamada da capa: “o italiano fundador da ontopsicologia afirmou aos convidados que uma revolução científica deve ocorrer no local”. (Mais ulalás!)
Alguns políticos estavam presentes na solenidade: Artur Lorentz, Nelson Marquesan Jr., José Otávio Germano, Luis Carlos Heinze e Afonso Hamm foram citados pelo jornal. Um deles, ninguém menos do que o Secretário de Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul, teria dito que “a ontopsicologia é uma ciência nova, que gera dúvidas, mas tem fundamentos importantes, como empreendedorismo e liderança” (sic!) – “afirmou Lorentz, que usava uma gravata da grife Meneghetti.”
Bem que o Diário tentou dar uma noção das nuvens que rondam o ontoguru. O jornalista disse que havia um clima de “mistério” em torno de AM. A ele foram atribuídos pela reportagem os títulos de doutor em Filosofia, Teologia e Sociologia. Mais uma salva.
Fiquei pensando que o Diário poderia ter sido mais gentil com o leitor, esclarecendo-o melhor sobre o “mistério” e as “dúvidas” que cercam a ontopsicologia, por exemplo. Meneghetti não quer falar com a imprensa, por exemplo. Isso é suficientemente abrangido pelo conceito de “mistério”? Quanto às “dúvidas”; algumas delas correm por conta do fato da ontopsicologia constar na lista das teorias não aceitas pelo Conselho Federal de Psicologia, que já se manifestou publicamente sobre a tal da “nova ciência”.
Uma “nova ciência” se estabelece por meio de pesquisa pública, avaliada por pares sem nação. Dom Menega é monoglota e se orgulha disso. E a ontopsicologia é um gênero literário que consiste em um conjunto de truísmos (bem) decantados de uma literatura de divulgação de freudismo diluído em sociobiologia, altamente eficaz como sucedâneo de pensamento para pessoas que, tendo perdido suas referências tradicionais de orientação no mundo, querem um rumo para manter a paz entre a contabilidade de suas empresas e seu eventual espírito humanista. O ontoguru oferece essa mercadoria e cobra bem por ela. Agora ele desfruta de uma faculdade com seu nome, com autorização do Mec e tudo o mais. É uma vergonha para o Mec que ele tenha aceito, nos programas de ensino, a sigla que indica a presença da ontopsicologia nos programas de ensino. Passou batido por consultores distraídos, pode ser essa a desculpa oficial. Mas não tem desculpa nesse caso. Ontopsicologia é um non sense, ciência municipal de São João do Polêsine, e, por certo, nas letras de seu inventor.
O Secretário de Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul pode afirmar o que quiser enquanto pessoa, mas deveria cuidar mais de suas palavras, como subordinado de Dona Yeda, uma ex-professora da UFRGS. Uma ciência não se cria por decreto. Para que surja uma ciência é preciso mais do que o conteúdo dos livros que uma pessoa inventa. Ela precisa passar pelo teste dos fatos e pela avaliação dos pares, para começar. Meneghetti, como se sabe, não tem pares e escreve o que quer. Faz algum tempo que ele deu uma entrevista para A Razão, na qual comparou-se a Leonardo da Vinci, com desvantagem para o pintor da Mona Lisa. Com isso já estamos acostumados, não é novidade. Mas agora tem mais essa: segundo leio no Diário, o Secretário da Ciência do meu estado quer vender ao seu povo a ontopsicologia como ciência?
Fiquei pensando no João Batista. Já não se escrevem novas ciências como antigamente.
Depois fiquei pensando no pobre Sepé Tiaraju, campereando no pampa: essa terra tem novos donos?

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14 Responses to “A “nova ciência””

  1. 1 quemsera

    É… realmente é lamentável que esse tipo de coisa aconteça, mas não é a primeira vez e jamais será a última. Aliás, muito pelo contrário. Mas o fato de esse acontecimento ter a presença e o consentimento legal de governantes, saindo na capa de um jornal com uma considerável circulação, é no mínimo vergonhoso. Inadmissível, sobretudo, pela presença do Secretário da Ciência.. Incrível como isso conseguiu registro no Mec. E realmente,como o Prof. mesmo disse, “uma ciência não se cria por decreto”..

  2. Dá uma olhada neste trecho do Jornal Nacional, de 2008 :

    É de estarrecer.

    JP

  3. 3 claudemir

    Ouso perguntar, professor, não tendo muita certeza sobre qual seria a resposta e quem a daria: como o sujeito consegue tanta adesão de políticos dos mais variados calibres? O que o dito cujo tem que atrai tanto e tantos graúdos? Quisera encontrar a resposta. Embora, não sei, talvez tenha medo dela.
    Em tempo: o certo é que o, digamos, “cientista” ganha espaços na mídia. Crescentes. Sei não, amigo e professor, mas esse pode ser o começo da ruína. Afinal, daqui a pouco as reportagens irão um pouco além do “mistério”

  4. Na noite em que passou esta reportagem na Rede Globo, através do Jornal Nacional, todos os habitantes de Santa Maria estavam anestesiados e dormindo ?
    Repito o link : http://www.youtube.com/watch?v=pa0vF4JThIo

  5. 5 Arno Dallmeyer

    Gente!
    Fiquei impressionado com a clareza e a profundidade do texto do Prof. Ronai (a quem admiro há muito) e depois encontro comentários de pessoas bem conhecidas, como meu ex-professor James Pizarro ou o jornalista Claudemir (que também já deu suas rateadas em interpretações de conceitos, mas isto é outro assunto).
    Bem, porque me animei a escrever? Fui professor na Faculdade AM. Uma disciplina, e um semestre. É pouco para uma amostra válida, diriam, mas, senhores, há algo de valor lá. Os alunos têm um desempenho superior. Se esforçam para atingir seus objetivos, tem um outro “brilho no olhar”. Não conheci Antonio Meneghetti pessoalmente. A avaliação que tenho é via algumas pessoas que foram treinadas por ele. E, o que concluo? Assim como em qualquer técnica há os que entendem o processo, o praticam com sucesso e há os que não tem o mesmo entendimento, e ficam até piores em suas relações de negócios e/ ou familiares. Conheço exemplares dos dois tipos.
    O que sugiro é olhar também pelo lado dos resultados desta “revolução”. O sujeito é polêmico, é! (Lembram do Luis Inácio da Silva? E do sucesso da revolução de Lamarca via Dilma?) Mas os benefícios das pessoas envolvidas no processo, para São João do Polêsine, etc…
    Existe um dito (Prof. Ronai, me ajude na identificação do autor): “lemos muito mal o mundo e depois dizemos que nos engana”.
    Era isto. Aberto para um cafézinho e aprofundamento da questão.

  6. 6 Arno Dallmeyer

    Conceitual:
    vejam que falo em TÉCNICA, não em CIÊNCIA. Aí parece estar uma das falhas de origem do coneceito da Ontopsicologia, não?

  7. 7 ronairocha

    Caro Arno, acho que tens razão em separar algumas coisas. Uma coisa é o chamado “brilho no olhar” que conseguistes ver nas pessoas, o entusiasmo da gurizada, um desempenho brilhante dos alunos. Eles provavelmente estão de fato entusiasmados com todas essas promessas de AM, e a ele deve ser creditado o mérito de galvanizar bem essas pessoas, com seu charme e inteligência pessoal, que parece não faltar, como dizem todos que o conhecem pessoalmente. Mas outra coisa é examinar a fundo os conceitos que, segundo ele, sustentam a ontopsicologia. Desse exame resulta apenas um conjunto bastante vago de expressões colhidas junto ao freudismo e a vagas idéias de extrato socio-biológico. Renato Zamora Flores fez um exame detalhado disso no livro que a Cesma publicou, faz uns cinco anos. Tem a venda na Cesma. Eu penso que as bases conceituais da ontopsicologia são confusas, e que a rigor o caso é de pseudo-ciência, apenas. Machado de Assis analisou casos assim de forma brilhante em um conto chamado “O Segredo do Bonzo”, vale a pena ler. Nesses casos, o charme pessoal dos bonzos é um dos detalhes mais importantes, sem ele nada funciona. E certamente ele soube transmitir parte dessa arte a diversos seguidores que a transmitem bem, também.
    Grande abraço!

  8. 8 ronairocha

    Caro Arno, acho que tens razão em separar algumas coisas. Uma coisa é o chamado “brilho no olhar” que conseguistes ver nas pessoas, o entusiasmo da gurizada, um desempenho brilhante dos alunos. Eles provavelmente estão de fato entusiasmados com todas essas promessas de AM, e a ele deve ser creditado o mérito de galvanizar bem essas pessoas, com seu charme e inteligência pessoal, que parece não faltar, como dizem todos que o conhecem pessoalmente. Mas outra coisa é examinar a fundo os conceitos que, segundo ele, sustentam a ontopsicologia. Desse exame resulta apenas um conjunto bastante vago de expressões colhidas junto ao freudismo e a vagas idéias de extrato socio-biológico. Renato Zamora Flores fez um exame detalhado disso no livro que a Cesma publicou, faz uns cinco anos. Tem a venda na Cesma. Eu penso que as bases conceituais da ontopsicologia são confusas, e que a rigor o caso é de pseudo-ciência, apenas. Machado de Assis analisou casos assim de forma brilhante em um conto chamado “O Segredo do Bonzo”, vale a pena ler. Nesses casos, o charme pessoal dos bonzos é um dos detalhes mais importantes, sem ele nada funciona. E certamente ele soube transmitir parte dessa arte a diversos seguidores que a transmitem bem, também. Quanto às revoluções, a ultima que me entusiasmou foi a Francesa. Depois dela…
    Grande abraço!

  9. 9 ronairocha

    O Claudemir lembrou o fato de AM ter adesão de muitos políticos. Isso é correto, mas eles perdem de longe para o número de adesões de empresários de médio porte, pelo que se lê nos materiais de divulgação do Recanto. A minha compreensão disso é que nessa floresta de incertezas de fundo ético-administrativo na qual vivemos, AM oferece a essas pessoas argumentos de tipo racionalizador, embebidos em uma presumida teoria que aparenta ter ao menos uma das exigências de qualquer ciência, a consistência. Eu digo “aparenta” porque o vocabulário que ele usa, ao ser recrutado de diferentes áreas das humanidades – ele pilha com naturalidade impressionante o vocabulário da fenomenologia husserliana, por exemplo – e conjugado junto, provoca uma nuvem de obscuridade que aos olhos do leigo aparenta profundidade. Assim, desde que a coisa toda tenha uma certa consistência, ofereça de brinde uma ética conveniente a quem perdeu seu esfarrapado cristianismo, seja polvilhada por expressões aparentemente científicas, obscuras, mas que sugerem profundidade, e seja servida com muito charme e convicção, eis o bonzo Pomada fazendo sucesso, diria o velho Machado de Assis.
    De resto, a teoria da administração, todos sabemos bem, é extremamente porosa a todo tipo de modismo. Os gurus se sucedem nessa área com monótona regularidade, como se vê na lista de best-sellers a cada tanto. AM morde uma fatia nesse bolo, agora com chancela do Mec.
    PS: Até um vice-governador do RS frequenta o lugar, disse um jornal um dia desses. Abraço, Claudemir, volta sempre.

  10. Não entro em cogitações sobre filosofia, psicologia, onto-não-sei-o-que, etc…Não são coisas da minha área e conheço minhas limitações. O único alvo do meu comentário é a reportagem da Globo, de 2008, com as acusações dantescas (até hoje não desmentidas) e o fato disso até hoje não ter despertado a mínima curiosidade, impacto, investigação, etc…na sociedade santa-mariense. Só isso. Mas deve ser curiosidade despropositada, fruto da mente de um pobre professor aposentado e por fora dos novos paradigmas vigentes…rssss
    Abraço

    JP

  11. 11 ronairocha

    Caro James, de fato tocas num tema bem quente. Eu estava vendo o JN no dia em que saiu a reportagem, mas tenho certeza que faz mais tempo, não foi em 2008. Bom, isso podemos descobrir depois. O que eu quero te dizer é que partilho contigo essa preocupação, no sentido em que a imprensa local nada tem escrito sobre o tema em sentido investigativo. A revista Rolling Stone esteve aqui e abordou o assunto em poucas linhas, pois o tema, na ocasião, era o Padre Lauro. Na ocasião, o reporter disse que ia fazer a proposta de uma pauta sobre o AM e essas histórias que a Globo abordou. O vídeo continua a ter impacto aqui na região, isso te garanto, mas a discussão se faz à boca pequena, sem repercussão na mídia grandona de Santa Maria, como diz o Claudemir. O Diário pouco tem noticiado o Recanto, mas agora vai começar a ficar inevitável, pois eles compram muita publicidade. Creio que aí teremos um teste para o jornalismo deles; vamos esperar. A Razão tem sido muito simpática ao AM, com entrevistas pessoais e tudo o mais.
    O pessoal da Faculdade AM veio propor um convênio com a UFSM, que foi recusado, e para isso contribuiu o tipo de discussão informal que tem sido feito, eu acho. Não tenho certeza, na verdade, pois o argumento da recusa que foi usado pelo Conselho Universitário parece ter sido orientado mais por razões formais. Mas na ocasião eu escrevi ao Reitor sobre o tema e ele, felizmente, leu minha carta no plenário e lá ficou registrado o meu ponto de vista contrário. Mas, com o tempo, quem sabe vai acontecer que nem com a Sandra Bulock, que ganhou um Oscar por insistência, e eles vão fazer algum convênio… Espero que não. Mas já tentaram isso. Assim que, de fato, a mídia impressa grandona e grandoninha da região e do Brasil ainda não tratou do tema. A ver.

  12. Professor, já deixei um comentário bem reles sobre a proposta de vinculação com a UFSM. Ainda insistindo sobre o mesmo assunto (sem esperança de que a burocracia estatal supere o meu medo), o que faz uns aposentados – duplo sentido – sentirem atração por uma espécie de auto-ajuda (pseudo-ciência também) corporativa; aliás o que um jornal faz elogiando isso? Enfim, queria seguir por aí: os colonos trazem o arroz e o italiano traz o feijão e o piano. Abraço!

  13. 13 ronairocha

    Caro Vinicius, fiquei pensando nas tuas perguntas. O conceito de “auto-ajuda corporativa” me pareceu interessante para dar conta de certos aspectos da coisa. Se me permites, vou usá-lo no futuro. De resto, pedi uma ajuda aos universitários. Estou lendo, pela primeira vez e com muita surpresa agradável, “Psicologia de Grupo e a análise do Ego”, um texto que Freud escreveu nos anos vinte. Como disse o Ernest Becker, é a grande obra dele sobre o tema, dedicada à questão do líder. Como diz o Anonymous Gourmet, voltarei ao tema.

  14. 14 Joana Requiato

    Boa tarde, frequento a quarta colônia e todos estão maravilhados com os progressos para a região. Pequenos comerciantes elogiam o progresso e os beneficios trazidos por Antonio Menegheti. Vcs sabiam que todos os alunos da faculdade trabalham, ou seja, produzem seus próprio sustento? Não entendo a ontopsicologia, mas vejo seus resultados práticos e são realmente superiores. É uma boa forma de medir um método, não?


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