O bonzo de Polêsine

14mar10

Santa Maria tem dois cursos de Jornalismo e ao menos dois diários. Um deles, por nome “A Razão“, ofereceu no final de semana (edição dos dias 13 e 14 de março de 2010) uma peça rara para análise dos profissionais do ramo. Eu me refiro à matéria da página 12 (inteira, sem anúncios), cuja manchete é: “Inaugurada faculdade para formar lideranças humanistas”. Ela não vem assinada, e consta como sendo uma reportagem do setor de “Educação” do jornal.
Como se vê, A Razão levou uma semana para noticiar o mesmo evento que o Diário, que comentei no post abaixo. A pergunta que deveria ser feita, para começar, é se se trata mesmo de uma “matéria” ou “reportagem”. Isso porque o texto ali apresentado como sendo do jornal (não há aviso de que se trata de publicidade ou divulgação paga!) parece ser a mera transcrição de um release institucional, na medida em que copia o obscuro jargão dos ontopsicologistas polesianos. Eles dizem que o objetivo da faculdade “é preparar inteligências liderísticas”, por exemplo, no modelo de conhecimento “ontopsicológico”, como se alguém, além do ontoguru Antonio Meneghetti, naturalmente, soubesse o que essas expressões poderiam querer dizer.
Eu me importo com isso porque, como diria o James, as coisas vão passando batido; essas pessoas vão escrevendo e dizendo e os jornais vão publicando…
Dom Menega também se apresenta, gênio multiforme que é, como filósofo. Até aí, nada de mais, como diriam os ditados populares sobre o tema. Ele dissertou, em um auditório que o jornal a Razão disse que é o “novo locus do saber”, sobre a Constante H. Segundo o texto do jornal, a “Constante H é um princípio universal unificador do plurirracionalismo dos contrários que faz o Ser uno, belo, bom, verdadeiro”. E aqui vem a frase final, a conclusão do bonzo de Polêsine: “Se nascemos do Uno, do Verdadeiro, do Belo e do Bom, temos que fazer algo a mais pelo Belo, pelo Bom, pelo Verdadeiro… conclui o pensador, empresário, artista, ontopsicólogo”.
Santo Tomás de Aquino deve estar se revirando no túmulo depois dessa pilhagem aos transcendentais do ser. Assim, em respeito a Tomás de Aquino, fica aqui meu registro: essas coisas que dom Menega disse não passam de non sense que, ao passarem batido, apenas ilustram a penúria conceitual dos que as escutam sem protesto ou crítica.
Uma análise à parte deveria ser feita da foto que ilustra a matéria: Dom Menega arengando a platéia, solitário em uma mesa, tendo atrás de si um vitral com um desenho de circulos concêntricos. O cara, isso eu reconheço, entende de pomadismo como poucos.
Felizmente para nós, meu caro James, Santa Maria tem dois cursos de Jornalismo e não vão deixar essas coisas passar em branco, eu acho!

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6 Responses to “O bonzo de Polêsine”

  1. 1 Daniel

    Ainda bem que tem gente sensata nesse mundo!!!
    Parabéns pelo post!

  2. 2 claudemir

    Tua afirmação final é falsa. Lamentavelmente. Vão deixar passar em branco. Eu tenho certeza. E mais não falo, nem escrevo. Por enquanto. Acho que já encontrei adversários (inimidos, não – pelo menos não pra mim) demais na mídia tradicional. Conceda-me isso, amigo e professor. Ao menos por enquanto.

  3. 3 claudemir

    corrigindo: “inimiGos”

  4. Parece-me que a coisa ultrapassou a nebulosa fronteira entre o risível e o perigoso. Assim, pergunto ao senhor, que tem mais traquejo e vivência: qual é a possibilidade de Meneghetti tornar-se algo pior do que um Olavo de Carvalho, que diz suas estultices à quem paga por elas e, no máximo, faz as pessoas perderem a oportunidade de ouvir boa música para aprenderem à assar comunistas em seus “True Outspeak.mp3”? Faço essa analogia porque se bem me lembro essas duas figuras – ao lado do padre Lauro e até do grande, do enorme, magânimo e colossal Paulo Coelho – eram alguns dos “inimigos públicos nº 1” daqueles que eram meus veteranos e voteranos quando entrei na Filosofia UFSM. Talvez eu tenha a sorte de conviver com gente sensata demais, mas Olavo de Carvalho só me incomodou efetivamente quando vi seu “Imbecil Coletivo” na cabine filosófica da CESMA: fiquei ofendido. Acho as estultices do Paulo Coelho bem mais edificantes e divertidas de ler.

    Se estou entendendo bem a dimensão do que aconteceu – o estabelecimento da ciência por decreto – Meneghetti transpôs o limite do risível para o perigoso, certo?

  5. Olá Ronaí, como vais?
    Li tuas notas mais recentes. Concordo contigo e não é necessário ser muito paranóico para perceber que o acolhimento das pseudo idéias daquele sujeito está se espraiando por estes pagos. Você é otimista e espera que os cursos de jornalismo da cidade engrossem as barricadas e ocupem o vácuo deixado pelos profissionais da cidade. Será que vai dar certo? Acho difícil. Contribuo nesta trincheira lembrando teus leitores do excelente e definitivo texto do Renato Zamora Flores sobre o tema: http://str.com.br/Str/ontopsicologia3.htm e também do link para a matéria que saiu no Jornal Nacional e que o James Pizarro lembrou no outro post. : http://www.youtube.com/watch?v=pa0vF4JThIo . Parece que os jornalistas de Santa Maria não sabem ou não querem mesmo fazer uma pesquisa básica sobre o tema. Em Santa Maria tudo é sempre muito diferente. Boa semana para ti.

  6. Achei uma imagem emblemática daquilo que o senhor falou: http://bit.ly/auYAV3


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