Caminhamos lentamente

28mar10

Caminhamos lentamente para fazer o tempo durar um pouco mais. Queríamos, talvez, fabricar algum intervalo nas horas, que nos revelasse alguma coisa que apenas entrevíamos. Subimos lentamente a Avenida Rio Branco, examinando mais uma vez os detalhes das casas antigas. Passava da meia-noite. No calor de janeiro e na hora avançada a gente buscava um bar na madrugada. De passo em passo subimos toda a avenida, passamos pela frente da Catedral, buscamos em vão pela praça Saldanha Marinho; o único bar aberto naquela hora da noite ficava na estação rodoviária, longe, e a solução foi percorrer toda a rua do Acampamento, deserta, onde um vento tímido já espantava o calor do dia. Depois, o caminho de volta, agora sim na alta madrugada. Mais uma vez descemos a Avenida Rio Branco, sentamos em um banco na frente do Hugo Taylor, para o ultimo gole da cerveja quase morna.
Depois dessa noite, quase nunca mais a vi. Ela foi embora de Santa Maria e do Brasil. Eu fiquei por aqui e vi a avenida sendo tomada aos poucos até que se transformasse nessa pocilga de hoje. Eu fiquei triste com a partida dela, mas eu era apenas um jovem e superei a ausência. Quem sabe ela adivinhava o que iria acontecer com a avenida que amava tanto?
Está sendo inevitável para mim ter essas crises de nostalgia. A idade explica um tanto. O outro fica por conta de nossas expectativas quanto aos resultados das ações dos césares, o Schirmer, o Gehn, o Ceccin, essas e outras tantas figuras que prometem devolver o centro de Santa Maria para ela mesma. Quem sabe, um dia, poderemos caminhar no centro, pela madrugada, apreciando os detalhes das casas antigas que ainda nos contam algumas histórias.
Fiquei pensando em propor a esses césares todos um encontro na primeira madrugada depois da mudança do camelódromo para tomar uma cerveja gelada ali na frente da Catedral e comemorar um novo tempo na história de nossa cidade. Mas eles tem mais coisas para fazer, eu sei. Vou fazer isso sozinho, em memória daquela noite de verão no início dos anos setenta e em reconhecimento ao trabalho deles.

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3 Responses to “Caminhamos lentamente”

  1. No período 1960/1966 a minha turma (todos universitários da UFSM) frequentou o Bar/Restaurante Moby Dick, localizado onde hoje está a Galeria Seibel, em frente do que é atualmente o Supermercado Carrefour. Todas as noites, depois das 23 horas, reuniam-se ali : Freire Jr (teatrólogo, advogado e declamador), Carlos Alberton Robinson (advogado), Tarso Genro (hoje Ministro da Justiça), Eliezer Pacheco (formado em História), João Nascimento (advogado), Tasso Trevisan (médico), Zuil Pujol (médico) e eu (o único noivo da turma). Em 14 de julho de 1966 eu casei e, uma semana antes, minha despedida de solteiro foi no Moby Dick e durou até às 4h da madrugada quando, em pleno inverno, os ilustres membros da “Geração Moby Dick” (denominação dada pelo Zuil Pujol) me atiraram dentro do chafariz da praça Saldanha Marinho. Uma semana depois do meu casamento o Moby Dick cerrou suas portas, surgindo maldosos comentários na cidade de que o motivo era a perda de seu mais assíduo frequentador. Reabriu as portas meses depois em novo local (onde hoje está o banco SANTANDER), mas jamais voltou a ser o que era, apesar do imenso mural feito pelo Carriconde (uma linda baleia pintada ocupando toda uma parede). Muito esporadicamente frequentavam nossa mesa o Carlos Horácio Genro (médico), o Nelson Jobim (Ministro da Defesa), João Gilberto Lucas Coelho, etc…
    Todas as noites, depois do Claudio (proprietário do bar) praticamente nos colocar na rua, ficávamos sentados na avenida Rio Branco declamando poemas, discutindo literatura e curtindo uma eventual dor-de-corno. Na esquina ficava uma carrocinha de cachorro-quente feito com linguiça de porco, sustentado praticamente pela nossa turma. Não existia medo de assalto. Nem pivetes. Nem prostitutas. Nem policiais. Muito menos camelôs. Eram canteiros lindos, cheios de bem cuidadas folhagens e flores. Jamais tínhamos ouvido falar em drogas. Cada um de nós tomou seu rumo. Uns se afastaram definitivamente. O Freire morreu. Todos nós estamos beirando os 70 anos. A vida era bela. A gente era megafeliz. E não se dava conta disso…

  2. Começo a perceber que me repito e que talvez eu esteja estagnado – o que pode ser, aliás, a razão de todo este comentário. Mas como poderia deixar de citar Milan Kundera e sua reconciliação com as fotos de Hitler apenas porque elas lhe remetiam à sentimentos de primavera?

    Digo isso porque comigo, em poucas décadas, poderá estar pairando uma luz tão melancólica quanto a que ilumina a poesia dessa sua postagem. Pois embora eu seja um filho de Bagé, foi Santa Maria que me adotou aos três anos de idade (1988), e foi com o camelódromo a desaparecer que povoei as lembranças que um dia hão de emergir sob a forma da melancolia, caso eu tenha a sorte de estar por aqui para ver uma outra Santa Maria.

    Evidentemente a feiúra do camelódromo é exponencialmente menor que aquela que Hitler disseminou sobre a face do globo, mesmo assim é essa feiúra que dá substância àquilo que já pré-vejo e pré-sinto como futura melancolia. Minha memória poética tem como cenários o camelódromo de onde vinham alguns de meus mais divertidos brinquedos, a Gare da Estação onde ia pela mão com o meu pai maquinista “olhar a escala” e que hoje é ruína, o Barretinho do Cícero Barreto e que hoje é pouco mais que ruína. Um pouco mais tarde, na adolescência, vivi a poesia na feiúra da Praça dos Bombeiros cheia de pivetes ou na intransitável Saturnino de Brito, por exemplo. Em breve o camelódromo desaparecerá, a Saturnino será revitalizada e eu estarei um pouco mais despojado do “meu” mundo e terei que me consolar com o fato de que, em algum sentido, as coisas estão melhores para as pessoas. Tive uma aula sobre Franz Brentano hoje à tarde e estou considerando a hipótese de que meus sentimentos precisem de uma correção.

    Por fim, todas foram embora de Santa Maria, mas é provável que nenhuma me acompanhasse no pensamento de que a feiúra – do camelódromo, por exemplo – pode ser poética apenas por ser um pedaço da própria história. Eu permaneço e sinto que é Santa Maria que está indo embora. E embora eu saiba que estou exagerando com o sentimentalismo, todo esse devir não me aparece sob o signo do progresso se eu não fizer um esforço de boa-vontade ao limpar os óculos. O lado bom disso tudo é que acordar um dia e perceber que já não se está mais onde supunha estar pode ser um bom pretexto para seguir aquela dica que o senhor deu à mim e minha velha mochila.

  3. 3 claudemir

    Embora não seja muito de beber, topo essa cerveja gelada. E tem uma outra idéia – esta minha, prontamente aceita pelo Candinho (e depois outros se seguiram na adesão), coisa de quatro anos atrás, no programa do meio dia: ir da praça à gare, pelo canteiro central da Rio Branco. Bueno, podemos fazer as duas coisas. E quem sabe no mesmo horário.
    Ei Ronai, e não é que nossos sonhos ainda não tomaram, mesmo? hehehehe


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