“Qual é a nossa serventia?”

11abr10

A frase está na página 142 do livro do Jacaré, Assim na Terra. Passei horas hoje relendo o Sérgio e outras coisas que apontam para o sul, incluindo as milongas do Ramil. Ela me veio à cabeça ao ler as provocações do Giannotti hoje na Folha de São Paulo. O Zé Arthur reclama da condescendência dos intelectuais brasileiros para com o regime político cubano. Giannotti retoma o mote do Claudemir Pereira, uns postes atrás, que dizia que a revolução cubana imantou a imaginação de algumas gerações, que desculparam a ausência de liberdades e o paredón em nome do fim da opressão dos batistas e de novas possibilidades sociais e econômicas, um socialismo aqui pertinho e bem real.
Acho que o Jacaré andava a cavalo nessa trilha, como tantos de nós que olhamos para o sul como metáfora da busca sem fim de nossos rumos e serventias.
Ele recordava um haicai (p. 142 de Assim na Terra):

“Este caminho
já ninguém o percorre,
salvo o crepúsculo.”

Ele e Gomercindo S. troteavam a cavalo, rumo ao sul.
E para onde troteamos nós?
A China, como lembra o Claudemir, é hoje o maior parceiro comercial do Brasil. Eles compram mais de treze por cento no balcão de nosso bolicho externo. Tem até um povo da Boca do Monte indo para lá por esses dias. E a Cuba, pergunta o Claudemir?
Me tento a dizer: Cuba é o vinte de setembro do esquerdismo em sandália, nostalgia do futuro, reserva técnica de utopia. Experimente sair do armário em Cuba, por exemplo
Os “irmãos em Clotilde” costumam borrifar uma nuvem de loção Coty no sovaco e invocar umas realizações de direitos economicos como justificativa. Os filósofos tiram o Sartre da gaveta e lembram que ele denunciou a farsa faz muito tempo. No fundo, o Zé Arthur tem razão. Tem muito crepúsculo perto da linha do Equador.

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5 Responses to ““Qual é a nossa serventia?””

  1. 1 claudemir

    Sem o talento do Gianotti, muito menos o do professor Ronay, só o que advogo é que se trate Cuba do mesmo jeito que à China. Ou vice-versa. O resto, bem, o resto é pura hipocrisia. Ou ambos são ditaduras que prendem e matam (uma delas até cobra a bala), ou parceiros comerciais independente da situação interna. Nada de tratar um de uma maneira, outra de outra. Simples assim. É o que penso.

  2. Putz…que saudade senti do Sérgio “Jacaré” e também da sua namorada,ambos meus alunos e amigos desde os tempos do cursinho. Quando o Augusto mandou cortar a gigantesca paineira que existia atrás do restaurante (entre o restaurante e os fundos do MASTER e da Casa do Estudante, onde o “Jacaré” morava à época), ele produziu um excelente artigo denunciando o fato, que eu li no meu programa da Rádio Universidade, o “Antes que Natureza Morra”. Neste fim de domingo praieiro fiquei a calcular por alto quantos ex-alunos, colegas, parentes e amigos “a indesejável das gentes” já ceifou do meu convívio. E me enchi de melancolia, pois são centenas. E me aproximando célere dos 70 anos, fui sendo tomado duma certa onipotência de sobrevivente.

  3. 3 R

    Caro James, o Jacaré faz uma falta bárbara. Vale a pena ler esse livro dele, o Assim na Terra, para a gente constatar a altura em que ele andava um pouco antes de morrer. Eu morava em Porto Alegre na época e devezenquando a gente se via; a ultima vez foi numa Feira do Livro; logo depois ele entrou para o hospital e não mais saiu.


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