Vai e vem

10maio10

Nos dias 11 e 12 a gente vai viver horas bem emocionantes no campus da Ufesm. Pela segunda vez nos últimos anos teremos duas chapas disputando a Sedufsm. Não me recordo dos números da ultima eleição, mas a diferença foi muito pequena em favor da, digamos assim, situação. E, como da outra vez, teremos dois campos com posições bem diferentes disputando a casa sindical. A oposição tem uma bandeira clara, me parece: ela quer acompanhar uma tendência que não pode ser desconhecida: algumas das grandes universidades, entre elas a histórica Federal de Santa Catarina, um dos palcos de criação do movimento docente, optaram pela desfiliação do Andes. Se a Federal do Rio continua, a Federal de Minas saiu, e, no mínimo pode-se falar de uma tendência. A queixa, como se sabe, é antiga e, sem querer polemizar em véspera de eleição, pode-se dizer que a principal delas é o excessivo arco de preocupações do Andes. E, contra os opositores, o que se costuma levantar é que são excessivamente preocupados com as questões locais e corporativas.
Meu sociólogo favorito, Albert Hirschmann, me sugere uma coisa: há um balanço, um vai-vém quase inexorável entre duas alternativas: as paixões que por vezes nutrimos pela participação na vida pública e nosso cuidado com as atividades privadas.
Em certo sentido o Andes continua sendo o símbolo máximo, um vai nessa balança que começou a girar na metade dos anos oitenta. Suas dificuldades de prestígio, reveladas pelo surgimento dessas vozes alternativas, devem-se, em parte, ao processo de complexificação das universidades públicas, que se sofisticaram muito e em velocidade que não se imaginava. O Brasil detém hoje o mais sofisticado parque acadêmico da América do Sul, para dizer o mínimo, e esse parque surgiu em pouco mais de trinta anos. A compreensão política centrada na idéia que todos os governos conspiram pelo sucateamento das universidades torna-se cada vez mais difícil de ser mantida, pois depende de outra premissa complicada: que este quadro de sucesso foi havido por esse tipo de ação; afinal, o uso de condicionais contrafáticas em análises políticas, como se sabe, deve ser feito com muita cautela. O Andes é um vai bem claro: pela unidade, num tempo de desgarramento; o movimento do vem ainda é difuso e confuso; foi essa a impressão que eu tive ao consultar algumas páginas dos colegas da UFRGS, desfiliados, dos históricos amigos de Santa Catarina, desfiliados. Mas eles vem vindo, querendo dizer alguma coisa.

Dias 11 e 12 vão ser de vastas emoções e pensamentos no campus da Ufesm. A gente tem poucas horas para decidir se vai ou vem.
Coisa bonita e espinhenta.

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8 Responses to “Vai e vem”

  1. 1 Athos

    Ronai, afinal, quais os quadrantes ideológico – à moda antiga – das chapas. Quem é quem nessa eleição. Pergunto porque estou “purfa”.

    • 2 Athos

      “ideológicos”

      • 3 R

        Caro Athos, o tema – dos quadrantes ideológicos – é dos mais espinhudos, quer dizer, compridos, cheios de vértebras, ossudos e agulhentos. Veja, as simpatias proclamadas da situação, isto é, do Andes, passam pela cordilheira ensolarada do Psol e Pstu, a julgar pelas filiações de muitos de seus membros; quanto às filiações dos opositores, não conheço. Nesse sentido seria fácil enquadrar ao menos um dos grupos como vindo da esquerda. Mas essa palavra hoje é um fraco passpartout; Lula entrou para o governo como esquerda e vai sair como o quê? Serra foi refugiado político, era dirigente estudantil de esquerda; Dilma era guerrilheira, hoje é o quê? O tio Vladimir, quando viu o problema, disse que há esquerda e esquerdismo, uma doença das crianças. Assim, nos quadrantes ideológicos, uma criatura irreverente poderia dizer assim: estamos mais para revolução de 1893, centralismo federal contra os interesses regionais, em parte.
        Dei uma derrapada feia na frase final, não? Mas é que estamos na véspera do causo.
        A clef, eu diria: a história não se repete, como o barbudo insistiu.

  2. 4 Dion

    Um nonocactus cereus e um opuntya bolinha?

  3. 5 R

    Caro Dion, obrigado pela identificação, se correta. Desconhecia esse teu lado botanista!

  4. 6 Athos

    Caro Ronai.

    Perguntei porque estamos vivenciando um momento interessante no sindicalismo. No caso dos bancários BB e CEF temos uma direção totalmente alinhada com o governo Lula. E todos sabemos a palavra que se dá para sindicato que apóia governo. E nossas negocições são péssimas.
    As universidades públicas tiveram melhores negociações com o governo do que nós bancários dos bancos federais. Então, eu penso que o sindicalismo do sindicato de vocês é mais combativo que o nosso e assim as negociações são melhores.
    Quem sou eu para meter o bedelho da eleição de vocês, mas eu tenderia a apoiar a chapa que não fosse subserviente a governo Lula.
    É, mas os caras são da extrema esquerda… são e daí. Quem tem medo da revolução? Se ela não vai sair mesmo. rsrs.
    Enfim, o sindicato tem que “sindicatear”. Como sempre digo.
    Abraços.

  5. 7 R

    Caro Athos, as tuas observações tornaram o tema ainda mais fino. É exatamente esse tema das “melhores negociações” que se transformou em um dos pontos mais polêmicos entre as chapas. Não há consenso sobre quem conseguiu esses bons resultados a que te referes, e que são bem objetivos, como apontastes: se foi a negociação feita fora do Andes, como insistem, por exemplo, muitos professores da UFRGS, ou ou ou. Nosso quadro sindical, creio, é muito mais complicado do que o de vocês, pois nos ultimos anos houve um certo paralelismo que dificulta exatamente esse raciocínio de atribuição de méritos. Numa descrição malvada, eu diria que, sem combinar, diante do governo nós encenamos uma dupla, o sindicalista guerreiro (Andes) e o negociador (Proifes), com muitas ameaças de continuar as greves sem fim (que os bancários já não mais podiam fazer…) e o governo topou conversar, gerando efeitos bons para todos. O ponto complicado para a gente avaliar é que a “combatividade” não é um invariante na história do sindicalismo. Aquilo que é combatividade numa época, em outras chega a ser covardia ou burrice. Mas nesse assunto de extremidades, primeiro o índio tem que enfrentar os argumentos do tio Vladimir: qual seria a linha divisória entre esquerda e esquerdismo? A meu juízo o esquerdista empurra a linha divisória com a barriga, pois ele, orientado pela idéia de revolução que nunca ocorre, nunca aceita ser governo. Daí que tem que chamar para a conversa o velho Sigismundo, para explicar.

  6. Só vou dizer o seguinte: gostei das perguntas do Athos e das respostas do Ronai. Mas gostei especialmente de uma frase do meu amigo aquele que nunca aceitou ser cronista do meu sítio (desculpa, Athos, mas não consigo esquecer.. hehe): “…Quem tem medo da revolução? Se ela não vai sair mesmo. rsrs…”
    Ei, Athos: esse não é um bom tema para crônica? Eu publico!


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