O rebaixamento do horizonte utópico

17maio10

A frase é do Athos. Ele a usa, penso eu, para indicar o fenomeno do abandono dos grandes ideais e do vocabulário socialista, em favor de metas mais modestas. Não me parece que ele assume claramente um luto por esse rebaixamento, mais bem ele o reconhece como um fato que deve ser levado em conta, por exemplo, nas lutas sindicais, mas que deve ser agendado para debate. Esse registro do Athos e essa agenda são atuais, pelo que se lê em alguns dos escritos que estão na moda na internet nesse momento. Tarso Genro, candidato ao governo do estado, espinafrou recentemente o novo gabinete inglês, sinalizador do fim da terceira via. En passant ele indeferiu os supostos teóricos da terceira via, Giddens, for instance.
Fiquei pensando nos supostos e pressupostos desse debate. Num lado do corner ideológico, o capitalismo; no outro, o horizonte, como diz Tarso, dos “valores humanistas da esquerda, depositária das idéias libertárias da ilustração e das grandes revoluções”, o que, em certos contextos quer dizer: o socialismo.
O debate cai bem no campo de trabalho do Athos: a esquerda hoje seria uma fiel depositária.
Convenhamos. Uma conversa assim precisa de mais páginas do que um romance de Phillip Roth (thanks, Mestre Guina, pelo Sabath!).
Esse ringue nunca me convenceu de todo. Tem um princípio de bom senso que diz assim: não se podem comparar coisas incomparáveis, como a tatuagem na nuca da Mona Lisa e o sorriso da Ingra Liberato.
Mexplico: o capitalismo nunca foi fundado ou criado. O socialismo, tudo a ver ao contrário, tem certidões de nascimento, as primeiras, de tipo literário, as segundas (e mais importantes, as tais das grandes revoluções. Eu não estou dizendo que o socialismo é um gênero literário de crítica social, mas se eu beber mais um cálice desse vinho ruim que estou bebendo, juro que escrevo isso, só para irritar quem lê o que quer. O que eu estou querendo dizer é que o capitalismo é um fenômeno difuso historicamente, sem data de início ou criação, e que, desde seu surgimento, esteve sob o fogo cerrado da contestação. (PS: Eu pertenço a uma geração que leu a história da classe operária escrita pelos ingleses, E. P. Thompson, por exemplo.) A literatura e os movimentos socialistas são instâncias desses fogos. Assim, quando os raciocínios políticos baseiam-se nessa reificação conceitual infantil (x versus y) que coloca em um canto do corner o capitalismo (agora eventualmente de olho roxo e dente quebrado) e no outro canto o socialismo (o velho boxeador retorna em glória, depois de purgar as desvirtudes), quem quer enganar quem por quanto tempo?
Eu concordo com o Athos. O horizonte utópico foi rebaixado. Mas utopia não é a mesma coisa que esperança. Esperanças não se inventam. Utopias, sim, e, por isso mesmo devem ser submetidas ao mais intenso escrutínio da razão, e não devem servir, como se fossem inocentes, para má literatura.
Faz tempo que quero pensar sobre isso, mas não consigo. Agradeço ao amigo Athos pelas idéias que colocou na roda. Grande e fraterno abraço!

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6 Responses to “O rebaixamento do horizonte utópico”

  1. 1 Athos

    Prezado Ronai.

    Sobre esse tema em tela já fiz, em outra ocasião, um texto (embora não tenha formação acadêmica para tal, gosto de dar palpites) que tratava desse rebaixamento da utopia. Então gostaria de fazer um esclarecimento. A frase não é minha e o texto que havia feito era justamente na frase pronunciada pelo Tarso Genro, então ministro do recém iniciado governo Lula. Já pré-anunciando que “o sonho que sonhamos juntos” não era bem assim como sonhado.
    Só para registrar a autoria, se eu não citei em algum outro texto ou em uma conversa informal foi falha minha.
    Parabéns pela tua reflexão. Sigamos…

    Abraços

    Athos

    • olá
      pois o athos está certo. a frase é do glorioso tarso genro e está no “esquerda em processo”, um pequeno livro que foi publicado em 2004. lembro de ter comprado na cesma e guardado exatamente pela coleção de retórica elástica, típica deste grande timoneiro dos pampas. “rebaixamento do horizonte utópico” é o tipo de malabarismo mental que só um sujeito que cometeu seus maus poemas quando jovem é capaz de produzir.
      paciência.
      abraços meus caros.

  2. 4 R

    E eu mexi com o pau e acertei na cobra…
    O link leva para um texto de 2004 do Gaspari, não? Eu não tenho esse livro do Tarso. Quando eu li essa frase em um texto recente do blogue do Athos não me lembrei nem por um segundo dessa possibilidade de autoria, que agora fica evidente. Grande abraço a ambos, Guina e Athos.

  3. Professor, ótimo texto, concordo em grande parte, mas me sobra uma dúvida: apesar do capitalismo não ter sido “criado”, não podemos pensar que uma determinada forma de capitalismo (que reina atualmente) foi determinada também por pressupostos filosóficos e econômicos (como os do liberalismo não-ético se sobrepondo ao liberalismo ético), e que os rumos da política que já era “capitalista” foi de alguma maneira manipulada, também pela literatura? Ou seja, não há um dedo dos “criadores” por aí?

    abraço!!!

  4. Grande Ronai :

    Tenho na minha biblioteca em Santa Maria o primeiro livro publicado pelo Tarso, chamado “Vento Norte”, livro de poemas que não consta no seu currículo estranhamente. Fui ao lançamento.
    Mas não era disso que eu queriafalar.
    Será que o Tarso leu este trecho de uma das biografias do Marx :

    “Sua família foi a grande vítima. Dos seis filhos que teve com a mulher, Jenny, uma aristocrata, três morreram na primeira infância, em decorrência do estado de penúria a que foram submetidos, e os outros – as filhas Jenny, Laura e Leonor – terminaram a vida cometendo suicídio. O único sobrevivente, Freddy, filho de Marx com a empregada, Helene, nunca reconhecido pelo pai, foi adotado por Engels para “salvar as aparências”. Jenny, a mulher, prematuramente envelhecida pelo sofrimento, morreu aparentemente sem perdoar o marido por ter engravidado a empregada.

    Com os pais, Marx não se comportou de modo menos egoísta. Por ocasião da morte do pai, Heinrich, vítima de câncer no fígado, não compareceu ao enterro porque, segundo ele próprio, “não tinha tempo a perder”. Por conta disso, a mãe, Henriette, saturada de pagar suas dívidas, com ele cortou relações, não antes de adverti-lo: “Você devia juntar algum capital em vez de só escrever sobre ele.”

    Mais adiante, num capítulo expressivo, o autor conta que o Marx era um calaveira, pois nunca pagou as empregadas domésticas que ele contratou.

    Não é uma coisa interessante ?…rsssssss

    Abraço, Ronai !


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