“Todos nós passamos trabalho, de uma maneira ou de outra.”

27jun10


Eu vou chamá-la de Maria para preservar seu anonimato. Eu a encontrei hoje pela manhã carregando uma armação de ferro, retirada de uma das barracas do camelódromo que estava sendo desmontado. Ela disse que morava lá embaixo na Avenida Rio Branco, numa casa velha, com muitas goteiras. Pedi para fazer uma foto e ela aceitou, um tanto relutante. Depois da foto ela queria arrancar mais uma daquelas armações de ferro e pediu minha ajuda. Foi em vão que tentei, os ferros estavam soldados no cimento.
“E eu ainda queria umas folhas de zinco para tapar umas goteiras na minha casa. Será que o Schirmer não me conseguiria algumas?”
Eu não sabia. Nos despedimos e eu segui fotografando.
Passada quase uma hora e removidas mais algumas barracas, a encontrei novamente. Ela reclamou que eu havia desaparecido e que ela não havia encontrado o responsável pela remoção do camelódromo. Continuamos a conversa. Me contou que era viúva do dono de uma maiores lojas de roupas masculinas de Santa Maria nos anos cincoenta e ficou admirada de encontrar por ali alguém que conhecera seu ex-marido. O que eu não fazia idéia era da história de seu namoro e casamento.
“Ele me encontrou trabalhando como doméstica. Eu era empregada de um oficial do exército, empregada doméstica, numa casa aqui perto, passando a Floriano. Ele era amigo desse oficial do exército e tinha uma namorada firme, de uma família importante na cidade. O pai da namorada dele tinha um cinema, no outro lado da rua, perto da casa desse oficial amigo dele. Um dia ele estava passando na rua, para ir ao cinema, que nem existe mais, quando me avistou. Ele me achou muito linda dos dentes, me disse depois. E voltou para conversar comigo. Bom, ele perdeu o cinema. Interessante, não? Eu acho que ali ele se encantou, pois ele primeiro terminou o noivado, coisa que deu muito o que falar, fizeram horrores para ele, não aceitavam que ele quisesse namorar comigo, eu era uma doméstica, ele era de uma família muito importante na cidade, tinha um negócio de confecções bem ali no centro, na Floriano. Fizeram horrores com ele. Mas ele não desistiu de mim.”
“Terminamos casando, no civil, não no religioso.”
E quanto anos durou o casamento?
“Para mim, até hoje. Não vi outro homem depois que ele morreu. Estou certa ou não? E tivemos oito filhos. E ainda criamos muitos filhos alheios, que vinham para a delegacia de polícia e ele acabava levando lá para a nossa casa. Ele me botou no hotel no mesmo dia em que começamos a namorar, assim, oficialmente. Fui morar num daqueles hotéis ali embaixo, na Rio Branco. E ele participou para os meus patrões no mesmo dia, que eu não ia mais trabalhar lá. Ele me levava para tudo quanto era lugar. Até no Caixeiral eu entrava. Ele não tinha nenhuma vergonha de mim. E isso que eu era tão grossa que um dia, fui num jantar num lugar que tinha dois andares e um elevador, ele mandou pegar uma sopa e eu quase que me atirei lá de cima, para não fazer feio, eu não sabia andar de elevador. Tu veja só, quando a gente é grossa, é grossa mesmo.”
“Mas o lindo não é isso, o lindo é o espírito. Todos nós passamos trabalho, de uma maneira ou de outra, quem não passou vai passar. Tomara que o nosso trabalho, o nosso sacrifício sirva para alguém. Sabe que a primeira vez que eu entrei dentro da casa dele, na verdade na casa dos pais dele, onde ele morava, deu um toque de música, a coisa mais linda, como para me receber? Então a minha sogra me dizia assim, isso é coisa espírita, por isso que tu entrou na nossa família.
Apareceu uma música assim, do nada?
“Pois foi, apareceu aquela música, na porta, na hora em que ele abriu para entrar, aquele toque de violão, coisa mais linda, coisa muito fina. E de vez em quando alguém da família ouvia aquela música. A família dele não me aceitava. Nunca me disseram nada. Nunca abriram a boca sobre esse assunto comigo. Mas falavam para ele, chegavam a fazer reunião para falar com ele para ele desistir de mim. Mas nunca me incomodaram. E ele sempre me querendo. Eu acho que era uma coisa de destino.”
“Hoje eu tenho 83 anos e quando lembro de tudo isso reconheço que mais do que um esposo ele foi um pai para mim. Eu respeito ele como se vivo fosse. Estou certa ou não estou? Ele me deixou uma casa aqui na avenida Rio Branco, que hoje é um rancho grande, chove como na rua.”
Ela pegou do chão as duas armações de ferro que havia conseguido e nos despedimos. Prometi fazer uma visita um dia desses.
“Na segunda feira vou falar com o prefeito para ver se ele me arruma uma meia dúzia desses zincos, para fazer uns consertos na minha casa. Chove como se fosse na rua. Acho que não vão fazer nada com eles, não é?”
Bom, eu acho que eles não vão fazer nada com esses zincos velhos, eu disse.
E bem que o Cézar Schirmer poderia arrumar uns zincos para dona Maria. Se ao menos ela conseguisse falar com ele na segunda-feira, pensei.

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7 Responses to ““Todos nós passamos trabalho, de uma maneira ou de outra.””

  1. 1 leila

    uma foto e muitas histórias,vidas,amores………parabéns professor ronai.

  2. ronái meu velho.
    este tipo de história faz com que um domingo como este se torne mais mágico, mais memorável.
    obrigado
    abraços
    aguinaldo

  3. Lindo, professor.

  4. Ronai, fraterno :

    Linda crônica…pungente mesmo !
    Este é o lado B da cidade dos doutores.
    Da capital da interiorização do ensino superior no Brasil.
    Das 6 ou 7 universidades.
    Este é o tipo de literatura no qual aposto.
    Não tem introdução.
    Nem material e métodos.
    Nem conclusões.
    Nem bibliografia.
    A matéria-prima deste tipo de texto é a injustiça social.
    A vida dividida entre os que pagam a UNIMED e os que morrem nas filas do SUS.
    Oito filhos a dona Maria ?
    E nenhum deles pode comprar as folhas de zinco para sua casa ?
    A crônica também é sobre a terceira idade.
    Não sobre os idosos que brincam nos saraus dos clubes da cidade.
    Mas sobre os que catam sucata.
    Eles mesmos, sucatas de vísceras e sangue.
    Ah…o lado B de Santa Maria.
    Aquele que os jornais não publicam.
    Porque ferem os interesses dos detentores do poder e capital.
    Ah…que aperto dolorido no peito eu sinto.
    Uma vontade de mandar tanta gente à merda !!!

  5. Já mudei de opinião algumas vezes sobre esse assunto. Por algum tempo cheguei a achar que algumas cruzes são mais pesadas que outras. Hoje acho que estava certo, só não acho mais que isso seja tão importante quanto achei que era, porque tem gente que é mais forte, tem gente que é mais fraca, é difícil medir isso tudo. De qualquer maneira, comovente. Nunca vou saber o quanto a cruz da dona Maria pesa, só sei que nas suas palavras parece que ela a carrega de um modo tão bonito que dá até uma invejinha, aquele tipo de “inveja boa”, se isso não for uma contradição em termos.

  6. Ronai, querido!
    Fico um tempo sem falar contigo, sem fotografar, sem trocar uma idéia e cada vez que te encontro, seja aqui mesmo pelo blog, me ensinas e me surpreendes como ninguém.
    Que grande história, poderia ser uma ficção não. Vai som, vai câmera…Ação. Mas é real, muito real.
    E o que tratar como real? O real que depende de cada um de nós, não é mesmo?

    Abraços!! Saudades!!!

  7. 7 Vitor Biasoli

    Grande crônica, Ronai. Uma bela e triste história.
    E sensacional o comentário do Pizarro. Uma outra crônica. Bem contundente.


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