A ilustre desconhecida e o estrondoso silêncio

29jun10

Quem não experimentou uma coceira gostosa nas idéias ouvindo umas frases assim, como “sem querer querendo” e “é proibido proibir”, exemplos tradicionais de oxímoros? O Houaiss diz que o oxímoro é uma figura de retórica na qual se combinam expressões de sentido oposto, que parecem excluir-se, mas que no final das contas produzem um efeito de reforço do que queremos dizer. E o que dizer de “educação à distância”?
A Ufesm, pelo que me disseram, quer investir mais em educação à distância. Em tese, eu acho bom. Mas tem uns grãos de sal nessa história.
Como disse o doutor Sócrates uns dias atrás, os gaúchos são uns reacionários, e me deu essa coceira de vestir a camiseta do cujo. Daí que me me ocorreu que de tanto a gente ouvir essa expressão nos ultimos anos – educar à distância – a gente já não sente mais nela o fisgão de oxímoro ou a possível contradição em termos. Para recuperar o sentido de realidade, vale perguntar: o leitor educaria seu recém-nascido filhote à distância?
É claro que não. Educação se faz, como se diz, olho no olho. O resto é instrução, formação, informação, ensino, treinamento, aprendizagem, etc, mas não educação. De uns anos para cá, no entanto, a novilíngua vigente no país inventou essa expressão e ela, ao que parece, vai pegando. Primeiro, quando reorganizaram a Ufesm, a Faculdade de Ciências Pedagógicas apropriou-se da expressão e, por meio de decreto virou “Centro de Educação”. Automaticamente os outros ficaram desprovidos desse virtuoso predicado e tiveram que virar-se em outras e menores habilidades: ciências disso e daquilo, artes e letras, saúdes e rurais. Educação, só uns. Pois agora vem essa vingança maligrina; educação: ao longe, distante, tele, lá, xispa, vai!
As palavras, como diria o Mestre Rosa, vão perdendo canto e plumagem.
A tal da “educação à distância” da Ufesm, tanto quanto sei, é uma ilustre desconhecida. Quais são seus números? Como ficou a evasão nesses anos em que foi implementada? Como ela funcionou? Porque ela somente funciona movida a incentivos especiais? A minha impressão é que sobre ela reina um estrondoso silêncio. Para expandi-la seria conveniente, primeiro, que a gente conhecesse bem o que aconteceu nesses anos todos. E depois, que ela tivesse um nome mais adequado, para fazer justiça ao fato óbvio que nenhum de seus defensores aceitaria educar seus filhos à distância, por meio da mais sofisticada tecnologia. Esses problemas não são apenas da Boca do Monte. Sei bem sabido que coisas parecidas acontecem em outras federais. Eu não sou contra as tecnologias aplicadas à educação. Mas a gente poderia conversar um tanto mais, avaliar melhor as nossas façanhas, para que elas sirvam de melhor exemplo no futuro, não?

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One Response to “A ilustre desconhecida e o estrondoso silêncio”

  1. Minha Nossa Senhora do Giz Perdido !
    Valei-nos a padroeira criada, beatificada e canonizada por mim para proteger a classe em extinção dos professores que sabiam dar aulas apenas com seu talento e giz ! Entre os quais, modestamente me incluo, já que me obrigaram a parar de dar aulas mediante ameaça de perder certas vantangens salariais.
    Em pleno gozo das minhas faculdades mentais, com memória privilegiada, senhor do conteúdo básico da minha disciplina e me atualizando diariamente, com facilidade de fazer relação e obter confiança dos alunos…fui praticamente enxotado depois de 40 anos de dar aula sem fichinhas e sem usar transparências para não ver a cara dos alunos bocejando.
    Não se pense que sou contra as tecnologias em prol do ensino. Não mesmo ! Eu próprio sou viciado em computação e internet.
    Mas se dar aula com a presença do aluno já é difícil, imagine-se dar aula à distância.
    Aula dita presencial requer professor com talento, empatia, compreensão, bom humor, criatividade, dominio absoluto do conteúdo e mais : o aluno tem de perceber desde o primeiro momento que o mestre ADORA O QUE ESTÁ FAZENDO ! Que não está ali por acidente, por obrigação ou só para defender uma grana.
    Agora – com a ausência de vocações para o magistério – inventam esta picaretagem e querem me fazer crer que é possível educar e dar aula à distância.
    No lugar dos professores certamente vão baixar entidades do astral e,via mediúnica do computador, vai haver transmissão direta de conhecimentos para a rebimboca da parafuseta do cérebro do aluno.
    Ao invés de universidades, centros espiritualistas.
    E no lugar dos bons livros clássicos de cada disciplina, fluidos ectoplasmáticos serão injetados na cabeça do aluno, onde irão de misturar ao rock e à cerveja, quando não à maconha.
    Que maravilha !
    Jamais pensei assistir ao enterro da sala de aula.
    Ao féretro da cultura.
    Meus bisnetos, certamente, ainda assistirão o incêndio monumental das bibliotecas e das obras de arte. E os alunos obterão orgasmos com chips estrategicamente colocados no corpo.
    Graças a deus, eu já terei morrido.


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