Estradas e esfinges

14set10


Na literatura portuguesa existe um caso de automobilismo explícito. Álvaro de Campos, que se apresenta como engenheiro e apreciador de viagens e motores, reflete sobre estradas, viagens e velocidades. Datado do dia onze de maio de 1928, Álvaro de Campos escreveu o seguinte poema:

“Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra, Ao luar e ao sonho, na estrada deserta, Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça, Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo, Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter, Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?

Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa, Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa. 
 Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem conseqüência, 
 Sempre, sempre, sempre, 
 Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma, 
 Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida…

Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante, 
 Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram. 
 Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita. 
 Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo 
 Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas! 
 Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!

À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada 
 À direita o campo aberto, com a lua ao longe. 
 O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade, 
 É agora uma coisa onde estou fechado 
 Que só posso conduzir se nele estiver fechado, 
 Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.

À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto. 
 A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha. 
 Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz. 
 Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima 
 Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real. 
 Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha 
 No pavimento térreo, 
 Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga, 
 E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi. 
 Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?

Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?

Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite, 
 Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente, 
 Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço, 
 E, num desejo terrível, súbido, violento, inconcebível, 
 Acelero… 
 Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,

À porta do casebre, 
 O meu coração vazio, 
 O meu coração insatisfeito, 
 O meu coração mais humano do que eu, mais exato que a vida.

Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao votante, 
 Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação, 
 Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra, 
 Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim…”

Hesito em dizer o que mais me impressiona no texto, se a ambigüidade que ele detecta no automóvel ou se os deslocamentos de olhar que seu carro provoca: a nossa vida vista pelo outro, quando somos aquele que passa; e aquele que passa guia um automóvel, e apenas um automóvel é visto ao luar, seja por uma criança, seja por uma rapariga modesta, na janela da cozinha de um casebre modesto, que é atraída pelo ronco do motor e vem olhá-lo, sonhando com o motorista príncipe; casebres vem e vão, ficam para trás, a velocidade do automóvel varia, o guiador acelera ou freia, não importa agora quem ele é, desconfiamos que o automóvel é o portador dos sonhos, e dentro deles, dentro dessa coisa em que estamos fechados somos também uma coisa; precisamos nos transformar em coisa para poder dominar essa coisa que vence distâncias que não terminam nunca. O automóvel se presta como veículo para as angústias excessivas do espírito ao nos emprestar uma sensação de liberdade que, ao ser exercida, nos leva exatamente ao ponto de onde partimos. Mas há uma alternativa: podemos sorrir do automóvel, podemos nos dar conta que ele nos foi emprestado, que a dócil mobilidade que ele nos oferece nos leva cada vez mais para longe de nós mesmos. O automóvel nos deixa de coração vazio, ao fim da viagem, menos perto de nós mesmos.

Fui de Santa Maria a Passo Fundo, dar uma palestra, e decidi fazer um caminho diferente, passando por Nova Palma, Pinhal Grande (onde almocei…), Estrela Velha, Salto do Jacuí, Campos Borges, Espumoso …
Foi absurdo, admito. Quem no mundo, pensei, é tão idiota para ir de Santa Maria a Passo Fundo passando por.. Estrela Velha! Fiz uns cem quilometros em estradinhas de terra, para ligar as estradas asfaltadas. Na beirada de uma dessas estradas de terra estava parado um menino, protegido apenas por um gorro. Ele parecia esperar por uma vaca. Ao menos olhava para ela e depois olhava para mim e depois olhava para a vaca. Fiz uma foto deles, abanei para o menino, que me abanou em resposta e segui na estradinha de chão, rumo ao Passo Fundo. No final das contas, ao chegar perto do Tio Hugo, achei que meu coração havia recuperado um pouco de gosto de chão e estava melhor, ou ao menos mais ou menos. Mas por vezes eu me lembrava do menino e da vaca e da estradinha e essas coisas juntas me pareceram uma esfinge.
E eu não a decifrei e mais uma vez me senti devorado pela estrada, insatisfeito, esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma de que fala o poeta. Só por causa de uma estrada.

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One Response to “Estradas e esfinges”

  1. ulalá ronai,
    com esta você se tornou o primeiro flâneur automobilístico que eu conheço.
    bom divertimento.
    guina


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