A pedagogia do Buda

22out10

O Buda dava ensinamentos sobre os demônios aos seus discípulos. Acabada a sessão os alunos se retiram, mas um deles retorna e pede para fazer uma pergunta. “Mestre”, arrisca o rapaz, “esses demônios realmente existem?” O Buda olha para o discípulo com calma, percebe que o rapaz é um cético a respeito da existência de demônios e responde que sim, evidentemente. O discípulo se retira, chateado. Um outro volta ao recinto e pergunta: “Mestre, os tais demônios, realmente existem?” O Buda olha para o discípulo com calma, percebe que o rapaz é um crente na existência dos demônios e responde que não, evidentemente. O rapaz se retira, consternado. Um terceiro discípulo, que estava no recinto lavando as taças de oferendas, toma o risco de fazer uma pergunta; “Mestre, para um dos meus colegas o Mestre disse que os demônios existem; para outro o Mestre disse que os demônios não existem. Eu não compreendo isso, me parece que há uma contradição aqui…”.
O Buda olhou para o terceiro discípulo com calma e disse: “Você tem alguma pergunta para me fazer”? O terceiro discípulo tomou coragem e perguntou: “Sim, eu tenho. Eu quero saber se os demônios existem”.
“Muito bem”?, disse o Buda. “Sabe que eu mesmo não sei se os demônios existem?”
O terceiro discípulo ficou consternado por algum tempo e depois tomou coragem para olhar novamente o Buda no rosto. E ele, cheio de compaixão, lhe disse: “Não confunda cu com bunda. Quando um aluno pergunta, um bom mestre (e eu me esforço para ser um bom mestre, complementou o Buda) entende desde qual lugar o aluno faz a pergunta, se é do lugar da crendice, do ateísmo ou de uma sabedoria superior. E o mestre deve dar uma resposta que faça com que o aluno seja obrigado a dar um passo adiante na sua caminhada. O papel de um mestre não é o de passar recibo para as crenças dos alunos e sim o de impulsioná-los em suas buscas, considerando os diferentes lugares em que estão. E por essa razão uma mesma pergunta, dependendo de quem a faz, pode ter três respostas diferentes.”
[PS: peço desculpas aos leitores budistas pela minha indesculpável irreverência. Poucos Budas usariam minhas licenças de linguagem e a história que contei foi terrivelmente adaptada de uma belíssima história da tradição budista. Mas foi isso que quis dar a entender, tortamente, no debate de hoje sobre “O que é filosofia?”. Depois eu volto ao tema.]
Para os curiosos: um mau mestre, evidentemente, lê o que diz o livro escolhido pelo MEC e dá essa mesma resposta para os três.

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8 Responses to “A pedagogia do Buda”

  1. 1 Nana

    Ronai, meu querido!
    Amei tua historia.
    ps:cu ? sem acento no u!
    Bacio,
    Nana

  2. 2 R

    Thanks, Nana!

  3. 3 Gisele

    Volta ao tema, please. “Tipo, boiei um pouco”, numa linguagem de aluno…

  4. Como boa caminhante Zen, amei a parábola! Aqui, entre nós, nem precisa desculpar-se (pelo menos ao pessoal Zen que é iconoclasta por natureza). Como professora: é isso aí! Pena que os alunos, boa parte, esperem respostas prontas, aquecidas no microondas, tipo “é só esquentar e servir”. Olha que isso dá uma boa reflexão sobre lanches e refeições…

  5. olá ronái, como vais?
    eu que sou leigo em budismo e ainda mais leigo em filosofia me pergunto….
    vamos a ver: será que este raciocínio pode se aplicar a qualquer dúvida terrena de um sujeito? você não acha que há questões onde este relativismo não pode ser tão tripartido e absoluto?
    abraços
    guina

  6. 6 Ronai Rocha

    Caro Guina, vou indo, não muito devagar para não parecer que provoco, nem muito depressa para não parecer que fujo. De fato, a historieta apenas se aplica àquelas relações de tipo assimétrico, como a de professor-aluno, nas quais está em jogo a atitude do perguntante diante do saber. O tema é cabeludo, eu sei, e eu gostaria de desenvolvê-lo mais, exatamente nessa perspectiva de encontrar um caminho entre duas dimensões: o lado pessoal e subjetivo de apropriação do conhecimento e o lado do “conhecimento objetivo”. O “conhecimento objetivo” o que é? Uma entidade de status platônico, um “third realm”, um terceiro reino? A gente tende a fazer essa construção, e eu mesmo acho isso interessante; quando a gente fala no “estado da arte” da física, estamos supondo um certo conjunto de proposições, teorias, descobertas, validadas, em andamento, etc, que não dependem deste ou daquele sujeito particular. Mas esse “reino” precisa ser apropriado pelo aprendente. Há um filósofo que trabalha um conceito interessante sobre isso, o de “conhecimento pessoal”, uma etapa intermediária (mal-expondo) entre relativismo e objetivismo. É o Michael Polanyi, livro do mesmo nome, “Personal Knowledge”. Mas a história do buda fica um tanto aquém, pois se preocupa mais com a atenção que o mestre presta nas atitudes do aluno diante de certos temas. Uma possível resposta “superior” do mestre, que apareceria como decorrência da ultima resposta seria: “Deuses/demonios são projeções de nossas mentes”. E depois dela o baile das perguntas continuaria. Grande abraço!

    • ulalá.
      quer dizer que: “de ilusão também se vive” (reducionismo guinesco…)
      grato pela resposta e pela dica. vou procurar esta referência e dar uma assuntada.
      abraços
      guina

  7. 8 Ronai Rocha

    Grande abraço, Guina; eu estou fuçando no Polanyi, no capítulo primeiro, que dá para ler de graça na Amazon, e estou gostando.


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