O buraco da chepa

17fev11

Seu Adão foi fotógrafo durante muitos anos, canonzeiro de fé do tempo do filme em preto-e-branco. Entre outras lidas conheceu de perto o funcionamento de um dos maiores frigoríficos da América Latina, a Swift, de Rosário do Sul. Eu o encontrei na marmoraria de sua propriedade, no mesmo Rosário. Ela funciona no, digamos assim, distrito industrial de Rosário. O distrito localiza-se naquela que foi um dia a Vila Swift, nas instalações do então todo poderoso Frigorífico Swift, que, a partir de 1917, abatia por ano milhares de cabeças de gado, enlatava salsichas, ervilhas, pepinos, palmitos, presuntos e fabricava qualquer tipo de derivado das carnes: velas, graxas, mortadelas, etc. Procurei por horas algum vestígio escrito da vila, mas pouco achei. Um deles foi o escrito que está na postagem anterior, sobre o fumo nas horas das refeições. O cartaz, me explicou seu Adão, quer dizer aquilo que ele diz, apenas isso: os operários do frigorífico, depois de baterem o ponto, somente podiam fumar no intervalo das refeições, que eles conheciam por “chepa”. A cada dia, depois de ingressar no serviço, o empregado ganhava uma ficha para a chepa. Essa ficha era entregue ali naquele buraco que está na foto, de vinte por quarenta centímetros, unica forma de comunicação que havia entre o salão de refeições e a cozinha. Uma vez entregue a ficha, saía do buraco, por mãos anônimas, uma bandeija de aço inox com a chepa.
O aroma, conta Adão, era inebriante. “Os americanos trouxeram para Rosário seus hábitos alimentares. A comida era farta, saborosa, bem feita. O perfume da comida invadia o ambiente, a hora da chepa era esperada com entusiasmo, pois era garantia de comida boa, farta, saborosa. Perder a chepa era uma tristeza para o trabalhador.”
Percorri a cozinha, fazendo fotos. As paredes até hoje conservam os ladrilhos brancos até o alto, algumas janelas mantém ainda hoje as vedações contra moscas, o pé direito é altíssimo.
Percorri devagar o refeitório, enorme, que também tem paredes altas, ladrilhadas, fazendo mais uma fotos. Ali o Seu Adão faz hoje funcionar sua marmoraria. Ali, na primeira metade do século XX, centenas de operários faziam suas refeições e podiam fumar à vontade. E foi dali que surgiram as primeiras greves no Rio Grande do Sul, no ano de 1919. Eles comiam bem, mas trabalhavam dez horas por dia. E um dia reclamaram dessa jornada, não importando o fato que do buraco da chepa saísse aquela boa comida. Alguns operários, por causa dessa greve, foram presos e desapareceram no caminho para a cadeia em Livramento, dizem alguns cronistas.
Seu Adão gentilmente removeu um armário que tapava o buraco da chepa e me explicou tudo isso. Depois, ainda mais gentilmente, posou para essa foto.
Abaixo, o antigo salão de refeições, onde hoje funciona a marmoraria. Aqui nasceu uma das primeiras greves operárias do Rio Grande do Sul, entre uma e outra baforada, eu presumo.

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7 Responses to “O buraco da chepa”

  1. 1 LAEFarinatti

    Cada vez que vejo notícia de novo post no teu blog é uma alegria.
    Esperando a próxima postagem, deixo um abraço!

  2. 2 R

    Obrigado, Farinatti; a propósito, nesse giro pela campanha encontrei mais algumas casas antigas e taperas que são de admirar. Qualquer diz mostro por aqui ou no Flickr Photos. Grande abraço!

  3. 3 Jorge Telles

    Trabalhei na Swift de Rosário nos anos 70. Essa janelinha era por onde as cozinheiras entregavam o Pincher aos operários, nome como os americanos davam as refeições em Chicago, matriz do grupo Swift Meat Company. Ainda vive em Rosário do Sul a Doeña Soledad Iglesias, uma uruguaia que foi a chefe dessa cozinha. Os operários de Rosário abrasileiraram o nome para Pinche a farta comida que consisitia de um cardápio que variava costela, bife de figado, carne com mandioca, batata doce, picadão de carne com repolho, arroz, feijão, alface, dobradinha de mondongo, café preto ou com leite e um pão chamado cervejinha como se denominava o atual cacetinho. As ortaliças eram produzidas pela própria Swift na chamada ‘Quinta’, uma grande orta que ficava nos fundos da fabrica e que servia para abastecer o as casas dos altos funcionários da Vila , os hospedes do Hotel Swift e o operariado que comia no restaurante (pinche), tudo dentro da organização pragmática dos americanos. De começo, as ortaliças como alface, couve e vagens eram vistas com desdém
    pelos operários. Eram coisas desconhecidas pela gauchada que tinham uma dieta muito pobre de charque, batatas doce, arroz e feijão miudo mas, esta história vai ainda muito longe… ficarei por enquanto por aquí

  4. 4 Jorge Telles

    Essa estória sobre a Swift servir alfaces, couves e rúculas nas refeições cheguei a presenciar os mais antigos dizerem que aquilo era bóia para vaca. Lá pelos anos 50, durante a Guerra entre a Coreia e os EUA, temia-se o expancionismo comunista no mundo caso os EUA fossem derrotados na Coreia. Um dia aterrizou no aeroporto de Rosário dois grandes aviões da Força Aérea Americana comandados pelo General Mullins com dezenas de militares americanos. Eram forças de ocupação que controlariam o grande investimento americano (Swift) com o fim de dectarem algum tipo de infiltração comunista. Entre o pessoal desembarcado vieram alguns prisioneiros japonese feitos nas ilhas de Ivo Jima na Segunda Guerra
    Mundial. Esses prisioneiros japoneses foram assentados nas chácaras do Dr. Mário Vasconcellos, atrás do quartel do 4°RCC e chácara do Dr. João Alves Osório na várzea do Rio Ibicuy D’Armada com o fim de plantarem tomates para industrialização na Swift. É falsa a afirmação que correu de que, Rosário foi um campo de concentração de prisioneiros japoneses dos EUA, eles tinham uma vida livre e logo se ambientaram apesar da dificuldades dos idiomas com os populares das circunvizinhanças. Os militares americanos que vigiavam a Swift durante o tempo de serviço sempre trajaram a paisana. Com o tempo a Swift abandounou a plantação de tomates e os japoneses foram embora. Ainda hoje o local atrás do 4°RCC onde está o Centro Hipico ainda se chama Campo do Japones.

    • 5 R

      Caro Jorge, obrigado pelos comentários. Eles são tão interessantes que vou passá-los para a parte principal do blog, ok?

      • Obrigado Ronai. A Swift esteve em Rosário por mais de 70 anos e as estórias são muitas de greves, perseguições, castigos, sindicalismo, trabalhismo, comunismo e até ações de contra-espionagem em supostos 5° colunas na 2° guerra mundial. Abraço.

  5. 7 jorge marcos telles de oliveira

    Ok! Posteriormente estarei dando outros toques sobre a Swift no que se trata da greve operária de 1919 com o sumiço de alguns líderes grevista, fato que gerou desdobramentos até a morte do prefeito de Santa Maria do Julio Rafael de Aragão Bozzano.


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