Presuntada com ervilhas e querosene

20fev11

Dona Zelma, senhora minha mãe, revelou hoje, enquanto tomávamos um chope no Augusto, que as ervilhas da Swift sempre foram as melhores. Disse a ela que minha memória infanto-gastronômica estava associada não apenas às ervilhas enlatadas em Rosário do Sul, a poucos quilômetros de nossa casa, mas também às salsichas, às presuntadas, ao corned-beef, enlatados que vinham em forma piramidal, abertos por meio de uma pequena chave fixada na própria lata. Saber que esses sabores maravilhosos eram fabricados a poucos quilometros do lugar ermo em que vivíamos – na Capela do Saicã, na várzea do Ibicuí – foi uma das situações de maravilhamentos de minha infância. Como poderia haver tal sofisticação perto de tal precariedade? Não havia eletricidade, a geladeira era movida a querosene. Até hoje lembro o cheiro de querosene, o veludo do contato dela na pele, o amarelo-vermelho da chama.
Rosário do Sul sempre foi para mim um buraco na memória, pois vivi em suas proximidades apenas até meus sete anos. Mas era um buraco pleno de sabores, o que não é pouco, me dou conta agora. E compreender que a convivência entre a sofisticação e a precariedade seria um signo da vida, isso eu nunca imaginaria naqueles tempos.
Sem geladeira, sem eletricidade, nada melhor que os enlatados da Swift. Eles eram vendidos na Capela do Saicâ, no interior de Rosário.
E no resto do mundo, que o guri nem imaginava existir.
Os pratos que fotografei foram gentilmente mostrados a mim pelos zeladores do Clube de Golfe de Rosário. Haviam ali cobertas completas, que hoje estão reduzidas a meia dúzia de pratos. Esta foi a única foto que consegui fazer de um logo da Swift em Rosário do Sul.

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3 Responses to “Presuntada com ervilhas e querosene”

  1. 1 Rosana

    Vistes as instalações da Swift em Livramento? Muito maiores do que em Rosário!

  2. 2 Jorge Telles

    A Swift de Rosário originalmente era bem maior, pois além do processamento de carnes em latas ainda processava vegetais como ervilhas, milho verde, cenoura e aspargos. O Armour de Livramento só abatia e congelava.
    O que se vê agora da antiga planta da Swift em Rosário é apenas 20% das construções, a maioria foi demolida e o resto depredado, tudo isso causado pela ação louca e anti-americanista de um prefeito louco logo após a empresa ter encerrado suas atividades na cidade, ao contrário do Armour em Livramento que ainda se mantém apesar de fechado mas, já em processo de deteriorização pelo desuso e ação do tempo.

  3. Esse crime que as autoridades municipais de Rosário fizeram com a Swift, apenas por pura ignorância ideológica, não matou apenas a Swift, matou sim toda a cidade de Rosário do Sul. Após isso fecharam agências bancárias, revendas autorizadas de veiculos, padarias, relojoarias, oficinas, lojas de todo o tipo, pensões, o ramal ferroviário, bares, empregos domésticos etc…etc…


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