Rosário do Sul poderia ser uma cidade uruguaia, não?

20fev11

Férias são uma espécie de trégua, disse a Diana Corso, dias atrás na ZH. Trégua é um intervalo nos combates da vida, mas, no caso das férias pode ser uma metáfora para a gente sair do normal: fazer um curso de pedreiro, montar em camelos no Egito, visitar Machu Pichu ou passar trinta dias cuidando do vivente recém-nascido como ele merece e nem sempre se pode fazer. No meu caso peguei a Rural Willys e fui passar uns dias a ver o que resta do pampa. Passei apenas dois dias em Rosário, para começar, mas acho que bem poderia ficar ali por semanas. Como é pertinho daqui, o consolo foi pensar que é fácil voltar ali. A primeira coisa fascinante sobre Rosário – quem mora em Santa Maria e tem pouca idade talvez cultive o estereótipo da cidade da praia das areias brancas, da ponte grande que se atravessa depressa rumo aos perfumes e uísques de Rivera, não? – é que ela bem que poderia ser, nos dias de hoje, uma cidade uruguaia, uma riovera mais próxima. Afinal, foi ali que travou-se aquela é que considerada a maior batalha campal em solo brasileiro, para se decidir afinal, até onde poderiam ir as terras de uruguaios e argentinos. O sonho de consumo geopolítico deles era fincar um forte em Rosário, para que o rio Santa Maria desenhasse a linha de fronteira natural entre o Brasil e eles. A batalha do Passo do Rosário – de desfecho curioso, pois ao que parece os dois exércitos se fatigaram ao ponto de não haver propriamente vencedores – foi decisiva para o atual desenho de fronteira, dizem os historiadores. Rosário tem museus que contam essa e outras histórias. Uma delas é a da Batalha da Lagoa da Corneta, que se deu já nos conflitos farroupilhas. Hoje, no local, há essa placa que mostro na foto. Perto da placa há um monumento que foi erguido para homenagear os 150 mortos no dia 17 de março de 1836, entre eles um bravo corneteiro que morreu afogado na Lagoa, também chamada de “Lagoa Funda”. Dizem que até hoje, em certas noites, se houve o fatídico toque de avançar que selou a má-sorte dos farrapos.
Ali fica a Vila Carmelo. A Vila Carmelo é um lembrete que batalhas ainda acontecem, ainda que aparentemente mais sutis. A Vila Carmelo é uma passagem obrigatória para se conhecer a foz do Rio Santa Maria, como se vê na placa. No lado direito chega o Ibicuí da Armada. No lado esquerdo, o Santa Maria. E ali se forma o Santa Maria, que segue para formar o grande Ibicuí. Mas isso já são outros dias de férias.

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15 Responses to “Rosário do Sul poderia ser uma cidade uruguaia, não?”

  1. 1 Rosana

    Chegastes a ver o monumento à Onório Lemes?

  2. 2 Alexandre Gindri Angonese (AGA)

    O que os castelhanos queriam fundar hoje é o quartel do 4º Regimento de Carros de Combate (4º RCC), Organização Militar do Exército Brasileiro da Arma de Cavalaria, que está posicionado sobre a elevação que domina o Passo do Rosário, dentro da cidade, no Bairro Progresso, da qual tenho orgulho de ser o Comandante.
    O 4º RCC leva o nome histórico de Regimento Passo do Rosário, uma homenagem àquela que foi a principal batalha da Guerra da Cisplatina, servindo para desenhar as fronteiras definitivas do nosso Rio Grande do Sul, além de dar a independência ao País irmão Uruguai.
    Abraço
    AGA

  3. 3 Alexandre Gindri Angonese (AGA)

    Em suma, a resposta é sim, poderia ter sido uruguaia ou argentina, não fosse o sacrifício de nossas compatriotas, então pertencentes ao Império Brasileiro.

  4. 4 Jorge Telles

    E desde então, naquela elevação e naquele portão de armas tremula o pavilhão auri-verde que avisa, que esta terra tem dono sim, e os donos são os descendentes dos primeiros gauchos portugueses que assim nos legaram.
    O 4° RCC foi inicialmente uma guarda deixada pelo Gal. João Antonio da Silveira (ex- herói farroupilha) na Guerra contra Oribe e Rosas em 1850. Após sediou o 9° BCCL, o Divisionário, o QG.da 2° Divisão de Cavalaria na reforma de 1908 sediada em Rosário, hoje em Uruguaiana, o 8° RCI, o 2° RCT, o 2° RCM e o atual 4° RCC. Em 1919 recebeu como instalação um dos treze quarteis do Ministro Pandiá Calogeras que se mantém em pé até hoje.
    Sua época de ouro foi quando sediou o 8° RCI ( 8° Regimento de Cavalaria Independente) quando era comandado pelo Ten- Cel Aymberé Cavalcanti, tendo como Sub o afamado Major Ancora, mais conhecido por Rapa-Côco, que tinha esse apelido pelo habito truculento de mandar prender civís desocupados, levá-los para o quartel e só liberar com a cabeça raspada. Esse Ancora era agarrado ao máximo aos regulamentos militares, tanto que não suportava soldados sem bigode. Para os novos recrutas, jovens imberbes que se apresentavam no quartel sem bigode, o mesmo mandava passar bosta de galinha preta e, aí de quem desobedecia. Outra pérola de autoria do Major Ancora que é usada até hoje na tradição militar é a palavra “Andarola”. Contam que quando a Swift construiu os “cottages” (chalés) para os funcionários que vieram dos EUA, trouxeram grande quantidade de mantas de algodão para a forração interna dos chalés. O Ancora em uma de visitas na fábrica viu as sobras dessas mantas e as solicitou, para usar em uma velha idéia: fazer forros para as bundas do soldados de cavalaria que ficavam esfoladas nas grandes marchas a cavalo pelos campos de Saicã. A esse confortável apetrecho o Ancora deu o nome de ANDAROLA, coisa que só era usada pelos novos soldadinhos oriundos da cidade, chamados de cola-fina. No final, era ultrajante para um soldado perante a tropa o pedido das Andarolas. O jargão pegou e, vive até hoje, mesmo ninguém saber a sua origem

  5. 5 jorge marcos telles de oliveira

    O 8° RCI em 1933 foi transferido de Rosário do Sul para a cidade de Uruguaiana com missão de proteger a fronteira contra os propósitos do PAN-PERONISMO argentino. Igualmente deixou Rosário o 5° RCI, transferido para a fronteira Quaraí em 1935. O quartel do 5° em Rosário era todo de madeira e ficava onde hoje se encontra o posto da Polícia Rodoviária Federal (BR 290) próximo a antiga Ponte das Tropas sob os trilhos da Viação Férrea. Juan Domingo Perón sonhava colocar em prática o plano estratégico transcrito no livro ‘Nuestra Guerra’ do Gral. Pedro de Córdoba, que só pelo nome mostra descaradamente ser um expoente de escol, do vivo chauvinismo argentino. O livro editado em 1917, causou na época de seu lançamento um latente tremor nos altos escalões militares brasileiros. Entre outras desconsiderações desastrosas ao nosso amado Brasil, esse Pedro de Córdoba escreveu: ” A guerra contra o Brasil considero-a fácil: No caso do Uruguai, que é pró Brasil, resolvemos com um médio contingente em terra para os anular completamente. Quanto ao Rio Grande, está do mesmo jeito quando da visita de D. Pedro II em 1865, ainda falta tudo. De melhora existe apenas uns 3 mil KMs. de ferrovia, mal cuidada e de material ruim, que o mais leve aguaceiro interrompe. Com a nossa esquadra deixamos inoperante o porto de Rio Grande, única entrada dessa infeliz província, igualmente com a mesma esquadra, anulamos qualquer reação do Brasil metropolitano, Rio, São Paulo e Minas. Portanto, algum auxilio só poderia vir do norte, se é que no norte existe alguma coisa. E se vierem, serão poucos e chegarão tarde”
    Esses assanhados e desejados sonhos de ocupação de parte de nosso Brasil sempre foram a tônica dos ditadorezinhos de nossas republiquetas vizinhas. As atitudes de Rosas, Solano Lopez, Perón e por último, dos ‘cucarachos’ Elvo Morales, Hugo Chaves e Fernando Lugo, facilitados pelo frouxo ‘Ogro do ABC’ nos dão o alerta: o Brasil só tem uma bandeira e, as cores dela são o Verde, o Amarelo e o Azul por isso devemos estar sempre vigilantes.

    • 6 jorge marcos telles de oliveira

      Portanto, foram infundadas as informações de que a transferência do 8° RCI de Rosário do Sul para Uruguaiana seria em represália por insubordinação. Na verdade o 8° retornava da Revolução Constitucionalista de São Paulo coberto de glórias. Foi graças ao 8° nos combates do Vale da Ribeira e Muzambinho, quando destroçou as legiões da Força Pública do Estado de São Paulo, fortemente armadas por Ademar de Barros, que a revolução arrefeceu. Foi esta experiência de fogo que abilitou o 8° para guarnecer Uruguaiana, tanto é que o decreto de transferência foi assinado pelo próprio Presidente Getulio Vargas.

  6. A RIQUEZA DOS DETALHES HISTÓRICOS AQUI INCERIDOS PELO CEL ANGONESE, CMT 4º RCC (QUE ME HONROU O CONVITE EM HISTORIAR SUA UNIDADE MILITAR) E DO MESTRE – MEU ILUSTRE AMIGO JORGE TELLES – COMPANHEIRO DE PESQUISAS, NOS ENVAIDESSE, SOBREMANEIRA, A PREOCUPAÇÃO DA NOSSA HISTÓRIA GAÚCHA, CONFIRMADOS NESTE EXCELENTE BLOG.
    QUE SEU PROVEDOR CONTINUE A QUESTIONAR NOSSA HISTÓRIA. SÓ ASSIM ELUCIDAREMOS PARA O AMANHÃ. A VERACIDADE DOS FATOS ACONTECIDOS.
    CARLOS FONTTES – DEL AHIMTB

  7. 8 moroqueiro

    Presado Ronai
    Talvez não pareça mas, Rosário do Sul é a cidade com a história mais interessante de todos os municípios do Brasil. O Rio Santa Maria (aquele que tu fotografou) foi Raia do Tratado de Madri de 1750. Ali foi que se deu a Batalhado Passo do Rosário (Ituzaingó) entre o Brasil e a Argentina em 20/fev. 1827, a que ratificou no campo militar a independência do Uruguai, inclusive alí estão sepultados até hoje 3, dos Treinta y Três Orientales do Gal. Juan Antonio Lavalejja, que morreram nessa batalha. Segundo as vozes do tempo, em Rosário do Sul foi que o Gal. Carlos Maria de Alvear, futuro primeiro presidente argentino, redigiu os primeiros esboços da primeira constituição argentina quando alí esteve exilado de 1815 a 1816, Alvear nessa época era como um ‘inconfidente’ que lutava pela independência da Argentina, objetivo logrado no Congresso de Tucumã em fins de 1816. Exilado em Rosário também esteve o célebre Ivan Pedro de Martins, onde ele escreveu a trilogia ‘Caminhos do Sul’. O escritor Josué Guimarães morou em Rosário durante os primeiros 10 anos de sua vida. ‘Tambores Silenciosos’ e o ‘Gato no Escuro’ são memórias dessa época, onde conviveu com o coronelismo e o caudilhismo de Honório Lemes ao mesmo tempo. Salvador Pinheiro Machado também morou exilado em Rosário, onde se escondeu das perseguições do Estado Novo de Getulio Vargas na Casa Braga, do pai do Osiris Braga, que tem uma veterinária lá embaixo no começo da Av. Presidente Vargas aquí em S. Maria.
    Também em Rosário é que estão as raizes da trilogia o ´’Tempo e o Vento do Érico Verissimo. Foi quando da chegada da Swift em Rosário, que espalhou compradores de gado por todo o RS. Um desse foi Marcial Terra de Tupanciretã e Cruz Alta, muito amigo e compadre de Licurgo Verissimo, tio de Érico. Por influência de Marcial, Licurgo arrendou a Semaria do Cambará em Rosário para depósito e engorda das tropas que eram compradas na serra antes de serem vendidas para a Swift. Segundo a Dona Mafalda, Érico lhe contou que nesta época esteve em visita ao tio em Rosário. Nas prosas de galpão ouvia da peonada causos que um dia lhe seriam uteis para seus devaneios literários, inclusive sobre a batalha do Passo do Rosário que fica num campo contíguo ao Campo do Cambará (atual estrada BR 158- Rosário S. Maria). Além disso, aquela Lagoa que tu fotografou foi onde Bento Manoel Ribeiro derrotou e prendeu Corte Real na Guerra dos Farrapos. Logo alí adiante, no outro lado Ibicuí da Armada , na Estancia do Curral de Pedras foi onde Garibaldi recebeu a famosa tropa de gado em pagamento aos serviços prestado a causa farroupilha. A luneta que Garibaldi presenteou o Barão, dono da estancia ainda está lá, inclusive agora foi colocada uma placa incluindo a estancia na Rota Garibaldina. Afora isso tem muito mais… além de Honório Lemes, reconhecido como o mais agil e esquivo chefe guerrilheiro das américas.
    Paro por aqui. Abraço.

  8. 9 motoqueiro

    Essa postagem aí em cima entrou com erro de remetente, o certo seria Jorge Marcos Telles de Oliveira ou simplesmente Jorge Telles. Obs: Em tempo, acabei falando no Honório Lemes e por acaso entreguei esta semana ao Honório Nascimento da Editora da UFSM os originais do livro Honório Lemes e as Revoluções de Seu Tempo, de minha lavra, que já teve 2 edições LIC/SEDAC 2000/2001, para uma avaliação e possível publicação de uma 3° edição. Abraço.

  9. O saudoso amigo Caramurú Camargo, falecido a pouco, foi o dono da loja e mecânico autorizado das maquinas de costura Singer por muitos anos na rua Barão do Rio Branco em Rosário do Sul ao lado do antigo cinema Fenix. Paralelo ao serviço de concerto dessas máquinas de costura, o seu Caramurú também concertava armas de caça e revolveres, oficio que ele aprendeu durante o seu tempo de serviço como Cabo Armeiro no antigo 8° RCI (8°Regimento de Cavalaria Independente) atual 4° RCC.
    Entre os causos que o Caramuru me contou foi que ele era muito ruim como cavalariano, era da cidade, por isso foi classificado como armeiro, aprendizado que o tornou eximio no concerto de fuzis mosquetões e metralhadoras. Esses dotes de bom armeiro foi que o livraram de entrar em combate na Revolução Constitucionalista de São Paulo durante os ataques do 8°RCI nos combates do Vale da Ribeira e da sangrenta tomada da cidade de Votuporanga. Muito rosariense ficou sepultado para sempre naqueles ermos, eu escapei porque ficava sempre na retaguarda, com as caixas de munição e desengasgando as metralhadoras que trancavam depois de algumas rajadas.

  10. Também conhecí o seu Claudio Raimundo que tinha um armazém na rua Riachuelo depois dos trilhos e o seu Nenéca (um negrão preto como breu), que também tinha um armazém na avenida Coronel Sabino próximo ao cemitério (doente pelo Internacional de Porto Alegre). Esses sim, foram para as linhas de frente. O Claudio Raimundo não gostava muito dessas recordações, ao contrário do Nenéca que gosta de relatar essas passagens para chatos como eu. Pelo menos aquí eu deixo registrado estas lembranças e o nome desses heróis amigos que nos deixaram a pouco tempo.

  11. 12 Arico Veríssimo Barcelos Kurtz

    fico feliz em ler sobre as histórias que estão encravadas nesse lugar. sou natural de Santa Maria mas me criei em rosário,num desses comentários li nomes de pessoas que conheci como o neneca ,obrigado a todos vocês que publicam e que comentam essas histórias estão de parabéns

  12. 13 Arico Veríssimo Barcelos Kurtz

    esqueci de dizer que quando quiserem tomar uns mates nas barrancas do rio Ibicui da Armada fico a disposição

  13. 14 Graziela

    alguém sabe me dizer pq no uruguai tem na cidade de treinta y tres uma placa dizendo mais ou menos isso: “aqui neste local 33 valorosos uruguaios foram mortos por um covarde brasileiro”?

  14. Seria um território de língua espanhola, sim. É só ver a delimitação do Tratado de Tordesilhas. Ah, para os que não gostam dos paulistas, isto se deve muito aos bandeirantes.


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