A indiada bruta

15abr11

Essa expressão, “indiada bruta”, é de autoria de um leitor deste blogue, Jorge Teles, que fez diversos comentários a partir de minha postagem sobre Rosário do Sul. O assunto sobre Rosário do Sul vai seguindo, a partir dos comentários dele, de forma cada vez mais interessante, e tomo, mais uma vez, a liberdade de tirar a palavra dele do rodapé do blogue e passá-la para a parte principal. Então, daqui para a frente quem tem a palavra de novo é o Jorge Teles. Fiz alguns pequenos arranjos, para preservar a unidade do texto, já que ele distribuiu o assunto em diversas postagens.


”Quando a Cia. Swift adquiriu a Charqueada Union del Rozario, de capital uruguaio, em Rosário do Sul no ano de 1917, o grande problema enfrentado pelos gringos foi o de mão de obra. A única conserva de carnes que a gauchada sabia fazer era o charque, coisa que o sábio Assis Brasil associava com a estopa.
Para suprir essa falta foram importados centenas de uruguaios e argentinos, elementos já descartados pelos frigoríficos Tablada de Montevideo e Cold Storage de La Plata, na Argentina. Entre esses, muitos eram truculentos e brigões, com idéia revolucionárias para a época como o sindicalismo e o anarquismo.
Para os altos funcionários que vieram do Estados Unidos a Swift construiu um bairro típico americano com cottages (chalés) e o campo de golfe. Essas coisas existem até hoje. Os americanos formaram a sua própria polícia, aos moldes deles. Com a chegada desses estrangeiros surgiu o problema de acomodação. Para isso foram construídos os tétricos e afamados Quartos Brancos, entre o campo de golfe e a estrada de ferro, que mais nada eram que grandes celas onde era internado esse pessoal para o descanso. A forma como eram tratados esses infelizes funcionários platinos merece um estudo maior. Eles eram acordados ao som de potentes pauladas num grande sino que ficava entre os quartos. Sem muitas delongas e abaixo de gritos eles entravam em forma e eram levados como gado para o serviço. No caminho cruzavam com a outra leva que tinha cumprido o seu turno de serviço e retornava para os Quartos, onde ocupariam as mesmas camas recém desocupadas e ainda quentinhas.
Hoje os famosos Quartos Brancos ainda existem. Foram vendidos, repartidos internamente e transformados em confortáveis residências. Quase nada mudou em sua aparência externa a não ser algumas janelas. As originais eram muito altas para evitar as fugas. Durante a Primeira e Segunda Guerras Mundiais, a Swift chegava a ter três turnos de oito horas, funcionando vinte e quatro horas sem parar. Era gigantesco o esforço de guerra do Tio Sam. Especialmente para a Segunda Guerra a Swift já recrutava operários entre os desocupados das cidades vizinhas de Rosário como Cacequi, Alegrete e São Gabriel.
Existem muitas testemunhas e relatos sobre a fome que passava a população de Rosário do Sul nos primeiros anos do século passado. O principal relato sobre isso é do escritor Josué Guimarães, nascido em São Gerônimo em 1921, filho de um telegrafista dos Correios, que foi transferido para Rosário no mesmo ano de seu nascimento. Faltavam comestíveis na cidade; o leite, por exemplo, ninguém tirava, apesar das vacas ficarem soltas pela cidade e até pastarem na praça. Quando tiravam o leite, era só para fazer queijo. Com dificuldades conseguia-se trigo, batata-doce e charque: esse havia em abundância. A dieta do gaucho pobre da fronteira sempre foi muito pobre, bem diferente do que contam os arautos do tradicionalismo, de que o Rio Grande sempre foi farto. Outro testemunho forte é o do Padre Estanislau, o padre da Cabras, de Santa Maria. Foi hercúleo o seu trabalho pelas campanhas na tentativa de reeducar a alimentação das populações no plantio de hortas e criação de cabras para a produção de leite.
Sobre o assunto dos prisioneiros de guerra japoneses trazidos pelos militares americanos: o Dr. Mario Ortiz de Vasconcellos, proprietário das terras onde foram assentados os soldados prisioneiros japoneses ainda está vivo e lúcido, apesar dos seus 104 anos. Também ainda trabalham no local o casal Luis e Arizolina, assim como os vizinhos mais antigos das imediações. Esses citados acima são boas fontes testemunhais e de informação.”

Caro Jorge, obrigado por essas informações e relatos. Vou calibrar os pneus da minha Rural Willys e rumar para Rosário, na primeira brecha da minha escravidão docente aqui na Ufesm. Esse capítulo da história do Rio Grande do Sul, ao que me parece, ainda está por ser contado.
A foto acima é do campo de golfe de Rosário do Sul.

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7 Responses to “A indiada bruta”

  1. gostei do blog e do post também,
    estmos fazemdo um blog novo do colégio, gostaria que dessem uma olhada, sugestões e comentarios são sempre bem vindo ;]
    Carmem

    http://drinkcometrue.wordpress.com/

  2. 2 Vitor Biasoli

    Muito boas essas histórias de Rosário. Lendas ou não, elas configuram um bom retrato de uma cidade da campanha rio-grandense. Precariedade de alguns, sofisticação de outros, um tanto de lembranças guerreiras do século XIX, outro tanto de presença norte-americana e até um toque de guerras mundiais, com japoneses e campo de concentração. Uma beleza!
    E, além do texto, belas fotos para deixar tudo mais claro e convincente.

  3. 3 Lenise Severo

    Olá! Meu nome é Lenise, e sou rosariense, recém formada em história. Estou fazendo um trabalho de pesquisa sobre a Companhia Swift S/A de Rosário do Sul, gostei muito da tua postagem e vou usa-la na minha publicação.
    Tu tens toda a razão, esse é um capítulo da história muito pouco explorado ainda. Parabéns pela tua iniciativa!

  4. 4 jorge marcos telles de oliveira

    No livro das Memórias do Dr. Mário de Vasconcellos, editado pela Editora Alcance de Porto Alegre, organizado pela professora Mara Regina Miranda de Sousa, contem fotos da chegada dos aviões Força Aérea dos Estados Unidos no aeroporto de Rosário do Sul, sob o comando do General Mullins e das forças de ocupação que tomaram conta da Swift, num desses aviões é que vieram juntos os falados prisioneiros japoneses da Segunda Guerra..

  5. 5 jorge marcos telles de oliveira

    No citado livro do Dr. Mário Vasconcellos um fato interessante de sua vida aconteceu em 1923, quando então contava com 13 anos, o seu pai, o fazendeiro Olivério Vasconcellos, para protege-lo dos envolvimentos da Revolução de 23, resolveu interna-lo no Colégio Marista Santa Maria, aqui em SM. São interessantíssimas as narrativas dos seu tempo vivido aquí em SM como a relação dos colegas que consta entre eles Romeu Beltrão, os padres alemães e até fotos quando integrou o time do colégio, o 14 de Julho e as brigas durante os jogos, Vale a pena ver…

  6. Acho que o Vitor Biasoli gostou mesmo foi do toque de 2° Guerra Mundial nesse tópico da Swift, que não para por aí e, envolve novamente a pessoa do Dr. Mário de Vasconcellos quando foi prefeito interventor de Rosário nos anos 50. Um dia o Dr. Mário, segundo o próprio me contou (ainda vive em Rosário e tem 104 anos de idade bem lúcidos), que um dia foi alertado pelo agente do escritório local da VARIG que a praça principal de Rosário exibia uma grande suástica nazista para quem a enxergava das alturas ( na época a praça ainda não tinha as árvores altas de hoje). O comentário teria vindo dos pilotos dos DC 3 que faziam a linha Uruguaiana, Rosário, Cachoeira e davam conta que essa suástica era formada por uma extensa plantação de flores brancas (margaridas) aproveitando a assimetrias da mandala demarcatória dos passeios e canteiros da praça. Imediatamente o Dr. Mário chamou o jardineiro chefe, o seu Germano (um nome sugestivo, não?) Texera, um uruguaio naturalizado brasileiro vindo de Dom Pedrito, onde organizou a praça daquela cidade. Aperta daquí e aperta dalí o seu Germano foi abrindo o jogo, que era alemão do porto de Kiel e tinha sido oficial do navio Tacoma e posteriormante do Admiral Graff Spee bombardeado por navios ingleses no Rio da Prata. Contou que após esse combate ele os outros marinheiros foram liberados em Montevidéo, abandonados a própria sorte. O único serviço que conseguiu foi de jardineiro num cassino de Montevidéo, onde conheceu trabalhando de crupiê o famoso Obdulio Varella, campeão mundial de 1950 no Maracanã. Após se naturalizou uruguaio, adotando o sobrenome do Texera, homenageava um outro campeão de 1950. Contou que no Uruguai tudo era dificil e acabou vindo para o Brasil, trabalhando com agrimensor na estrada de ferro Livramento/Dom Pedrito. Com o término da obra voltou aos jardins, na prefeitura daquela cidade. Um dia foi dispensado e soube da existência da Swit na vizinha Rosário. Com a mulher, a Dona Joana (e duas filhas adotivas pequenas) resolveu tentar emprego na firma americana. Era entre-safra e a Swift não empregava ninguém no momento. Tentou a prefeitura, exibindo as recomendaçãoes trazidas de Dom Pedrito, foi empregado na hora.
    Quanto a suástica, a intenção era ser vista pelos vários nazistas que fugiam para a Argentina utilizando aquela rota interiorana sul-americana.
    Conhecí o seu Germano, era nosso vizinho na Rua Amaro Souto e ele morreu sem eu nunca saber a sua origem. Era um alemão alto, de olhos muito azuis e frios, quase não ria e gostava muito de pescar. Lembrei disso agora porque ontem encontrei a sua ultima filha viva chegando no Hospital Astrogildo de Azevedo, veio para uns exames complicados que em Rosário do Sul ainda não tem.

  7. JORGE participe do grupo SOU DE ROSARIO DO SUL no facebook e fique a vontade para postar o que quizer sobre a cidade.. uma abraço ..natan mazuy… http://www.facebook.com/groups/301789416603208/


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