“… como essas mulheres que não sabem o que devem fazer.”

07ago11

Um filósofo paulista, Vladimir Safatle, escreveu recentemente que os filmes de Lars Von Trier “retratam uma época que descobriu que a insistência na certeza moral subjetiva é, muitas vezes, a maneira de não nos perguntarmos sobre como as nossas ações serão recebidas em contextos intersubjetivos.” Logo a seguir ele comenta que as heroínas dos filmes de Triers “são mulheres que parecem a encarnação contemporânea da bela alma, com seu coração puro e sua incapacidade de compreender porque tanta catástrofe decorre de suas ações. Elas, no fundo, não entendem por que nem sempre o melhor a fazer é confiar na clareza de nossa intencionalidade moral.” O ultimo filme de Trier, Melancholia, que começou a ser apresentado no Brasil na semana passada, traz, segundo Vladimir, algo que não havia nos outros: “uma mulher que não sabe o que deve fazer.”
Não tenho certeza de ter compreendido todas as implicações desses comentários do Vladimir. Mas, por alguma razão, eles me fizeram lembrar essas discussões atuais sobre mais uma greve na Ufsm.
De um lado, o sindicato local e nacional nos parecem cobertos de razões, em suas denuncias de falta de políticas salariais e demais evasivas governamentais, sem falar da falta de algum reajuste simbólico, ao menos. Essas razões, no entanto, sendo de fundo eminentemente moral, prestam-se a fundamentar ações cujas conseqüências materiais podem ser devastadoras. Eu me refiro ao fato que nossas ações de protesto, por meio de interrupção seletiva de atividades (eu não creio adequado usar a palavra “greve” como nome próprio para o que fazemos, em respeito à memória do movimento operário, e por isso prefiro designar o que fazemos na forma como fiz agora) são seletivas em atingir os estudantes de graduação e uns poucos outros cursos, mas passam ao largo dos prazos dos relatórios para o Lattes e o Cenepequê e a Fapergues e outras tantas fontes que hoje alimentam a universidade. Nossos corações grevistas tem, certamente, muita pureza, mas não conseguem bater sem que as catástrofes decorrentes deles sejam zelosamente escolhidas, de forma a provocar, no mais das vezes, um efeito-demonstração para o jornal das oito que deixa incólume umas outras tantas e mais importantes atividades profissionais, em especial aquelas de aterrisam no Lattes.
Eu entendo perfeitamente que o Sindicato Nacional seja levado a propor uma greve. Dados os termos morais em que se colocam os debates, poucas alternativas lhe restam. O que o Sindicato parece ter dificuldade em aceitar é que a proposta de parar todas as Universidades Federais do Brasil é, na conjuntura atual, pouco mais do que um gesto de bela alma, que repousa na suposta clareza de uma intencionalidade moral, para usar as palavras de Vladimir. Esse gesto do Sindicato vem, mais uma vez, acompanhado de uma melancolia conhecida pela comunidade universitária. Ela, comunidade universitária, não pode ser pensada como uma mulher que não sabe o que deve fazer, mas sim como uma mulher que sabe demais, e que por isso é acometida por um sentimento de vazio: as “greves” nos esvaziam por dentro e minam nossas relações com nossos próprios compromissos profissionais. Sabemos isso excessivamente, no olhar de cada estudante.
Nossas “greves”, de uns anos para cá, são cada vez mais tristes, melancólicas, depressivas. Que o Sindicato as proponha, eu entendo. Que nossa omissão as permita faz com que eu me sinta como as mulheres de Von Trier, que não sabem o que devem fazer porque sabem em excesso.

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