“Se estás contra a greve, por que não vais na assembléia?”

09ago11

Tive um pesadelo ontem. Gripe, febre, a umidade melequenta dessa semana, excessos variados e no meio da noite eu deliro. Um colega me fazia essa pergunta, “mas se estás contra a greve, vai na assembléia, defente a tua posição!” Delirante, mas nem por isso menos preguiçoso, me refugio no argumento rasteiro e que desvia a questão: porque eu iria me incomodar com propostas psolistas de ação política? Mas logo ele me retruca que isso beg the question, envenena o poço, logo tu que entendes um pouco disso, me grita. E no meu delírio me dou conta que tem até umas coisas que simpatizo na prosa dos psolistas. E aí meu delírio voa e volta ao sindicalismo dos anos oitenta, onde fui criado. E me voltam as lembranças de quando grudamos as greves nos movimentos de massa de redemocratização do Brasil e nas bandeiras por indexação orçamentária da educação. E segue, agora, mais calmo, meu sonho com um sindicalismo que tinha uma agenda ampliada e uma ponta de conexão com movimentos de massa, com panelaços e passeatas nas ruas, com greves que eram por melhores salários, mas também contra os generais do regime militar, quando havia solidariedade social e política no ar, pouca certeza, muita conversa fora, um gosto por um futuro que apenas se insinuava, quando as praças eram cheias de gente em comícios pela democracia e depois veio Tancredo, depois Sarney, a Constituinte e somente então as panelas voltaram para o fogão e então veio a década de noventa e ali começaram as diferenças, os estranhamentos. E me lembrei nesse delírio que muitos fizeram o caminho de crítica dos limites da democracia participativa, mas fizeram depois também o luto do sonho das democracias diretas. E depois veio um sindicalismo que parecia fazer pouco caso pelas conquistas democráticas e vieram os flertes com horizontes ainda mais distantes. Era um sindicalismo carrancudo, de “hoje eu não tô bom” no peito das camisetas nas assembléias e aí a agenda sindical foi estendida para os horizontes políticos das utopicas e foi encurtada na dimensão social: os sindicatos começaram a ouvir cada vez menos e falar cada vez mais e mais e foi-se a solidariedade entre os movimentos. Os operários do setor privado arrefeceram as greves, tendo em vista os altíssimos custos delas. Sobraram as nossas greves, financiadas pelo dinheiro público, nossas greves de classe média, com salário em dia no fim do mês ou, no caso de outras categorias igualmente públicas, com desconto revertido pelos governantes. As greves de baixo custo. E vai que então a sociedade civil começou a olhar um tanto perplexa para esse estranho fenômeno tropical, unico no mundo: as greves de baixo custo, pagas apenas com o tempo barato da vida dos estudantes de graduação. Esse sindicalismo, a pretexto de combater conspirações mal descritas, ficava alheio ao contexto social e político, guardião dos alegados sentimentos de indignação “pelo descaso do governo”. E aí, nesse ponto, olhei firme no olho do meu colega que havia me feito essa pergunta difícil e comecei a responder: “Eu? Queres mesmo saber?”
E o vento norte que já rondava a casa soprou com toda a força e bateu a veneziana e me acordou.

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