O rezatório da Ufesm

01set11

Saí caminhando pelo campus da Ufesm com um colega, fazendo um intervalo entre uma aula e outra. Fomos colher uns butiás bem amarelinhos e doces que eu havia entrevisto num canto do campus, perto de um asfalto novinho em folha no meio de um campo. No caminho paramos para admirar uma nova construção, uma das quarenta e poucas em obras nos dias de hoje. Entre o prédio da Reitoria da Ufesm e o futuro formatório da mesma (um anfiteatro para 1.200 lugares), ergue-se um rezatório, um centro de ecumenismo religioso, ao modesto custo de novecentos mil reais. Esclareceu o colega que quando o Professor Mariano encomendou um plano diretor para a Ufesm, ele fez constar ali um centro ecumênico. Cincoenta anos depois ele sai do papel pelas contas da atual gestação.
Meu colega, que nessa hora me pareceu um tanto cético, continuou:
“O rezatório, como vem sendo chamado por alguns servidores pouco entusiasmados por celebrações públicas de atenção às confissões, será um complemento solene para as formaturas e um teste importante para os sentimentos de comunidade espiritual nesses tempos cada vez menos ecumênicos.”
Não pude deixar de dizer para ele que os vínculos que temos com as transcendências possíveis a esse barro todo correm por trilhos estranhos; o cuidado com o conhecimento e a verdade é um deles. Por causa disso a universidade já foi saudada, um dia, como um templo do saber.
“Templos bicudos, esses”, ele disse.
Meu colega perde o amigo mas não perde o trocadilho, pensei.
Ele seguiu:
“Templos bicudos, esses. As metáforas precisam dessas materializações rezadeiras”.
Colhemos os butiás e voltamos. Ao longe vimos estudantes caminhando e cantando. Eles entraram na reitoria para entregar as canções que havia escrito e mais algumas reivindicações, umas tantas e outras. Conversaram com o Reitor e por ali foram ficando.
Demos uma volta pelo rezatório e voltamos para o trabalho.
Quanto voltei para continuar minha aula me dei por conta que os butiás haviam caído do meu bolso.
Que pena, pensei. Deviam estar doces.

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4 Responses to “O rezatório da Ufesm”

  1. 1 Athos Ronaldo Miralha da Cunha

    Ronai, boa crônica nesses tempos em que os butiás não caem mais dos bolsos.

  2. O amigo continua brilhante na escrita. E nunca, ao lê-lo, consegui perder os butiás.. hehehe.. .(nada a ver com isso, mas outro dia falei com o Albano, telefonicamente. Aquele que havia esquecido o que eu jamai esqueci: um nordestino maluco que conheci pelos fins dos 70’s, fazendo um mestrado e uma dissertação em seis meses. E com um orientador que adorava uma moto e que, hoje, parece preferir off-roads. Momento de saudade. Não de saudosismo)

  3. A UFSM não me surpreende nunca.
    Construir uma igreja dentro do campus não é nada.
    Complicado será quando TODOS forem obrigados a entrar lá.
    Não duvide Ronái. Ainda viveremos para ver fascistas de plantão fazendo o censo de quem frequenta e quem não frequenta a igrejinha da UFSM.
    E quem não pagar o dízimo? Direto para o inferno, claro.
    Bueno. Vou ali ler meu Dante e já volto.
    Aguinaldo.

  4. Segundo William James, há aspectos da realidade que não se revelam à consciência ordinária. Por acreditar que James está certo nisso e em outras coisas, eu vejo com simpatia a construção desse templo. A experiência religiosa é parte importante da experiência humana. Se temos na UFSM teatros, bibliotecas, laboratórios e campos de futebol, cada qual dedicado a um tipo particular de experiência, acho que um templo ecumênico é um bom complemento. Claro, resta saber como ele será usado. Mas a preocupação com o uso adequado vale também para as salas de teatro, bibliotecas, laboratórios e campos de futebol, eu acho…


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