O luau na Reitoria não é mais como antigamente. Felizmente. E a grama do vizinho é do vizinho.

02set11

Os pais semeiam bebês e mais adiante colhem explosões. A idéia é do Winnicott. Lembrei-me dela enquanto me perguntava se os estudantes da Ufesm acompanhariam os chilenos, fazendo um beijaço no campus hoje. Recuaram. Ao invés de uma boate na Reitoria, decidiram fazer um luau. Eu não sei bem o que é um luau, quem sabe incluirá beijos e amassos. Em todo caso, luau tem ar de festa. Serão duas noites de moradia na Reitoria, e esse fato fez um ex-companheiro de administração dos anos oitenta me dizer, durante um café, que “não se faz mais protesto como antigamente”. Eu quase perdi o amigo mas brinquei com ele, dizendo que felizmente, pois se assim fosse estaríamos ainda no antigamente. E isso seria uma injustiça, pensei, olhando para as rugas e manchas nas minhas mãos.
Li cuidadosamente a lista de reivindicações que foi entregue pelos estudantes à Reitoria. O arco é grande. Vai de grades nas portas dos apartamentos das casas de estudantes até mais cursos de Libras. Quem pediu por ultimo pediu o que quis.
“Mas”, insisti com o colega, “olha que eles estão deixando por um momento de olhar para o umbigo privado e se interessam por algo público. Isso não é ao menos curioso, depois de quase duas décadas de interesses privados?”
“Há malas que vem pelo trem”, insisti. “A pessoa que lê a lista de reivindicações dos estudantes e ri do fato deles pedirem grades, calçamento de ruas, livros para bibliotecas, horário dos professores, perde de vista o que mais é raro: eles parecem querem dizer que o mundo não vai mudar por atacado. Esse varejo, que soa ridículo para uns, ao menos devia ser visto como um sopro de vida nessa adolescência prolongada que se faz presente na universidade.”
Não fui convincente nem para mim mas era por aí que eu tentava pensar.
Ele voltou à carga.
“Mas o Sindicato dos Professores, pegar carona nisso, o que me dizes?”
Vacilei.
Sonhar na carona do sonho dos outros, pensei, isso puxa para um dos lados do tempo, tempo atrás, tempo atrasado.
“Foi a gurizada que tomou a iniciativa”, ele insistiu, “isso não era coisa nossa”.
Pois é. O idealismo, essa coisa emocionante, essa coisa de experimentar liberdades, beijaços, luaus, planos e ideais, temos de respeitar, eu pensei.
“Depois dos quarenta”, disse o ex-colega, não dá para tirar casquinha de luau.
Eu, que estava pensando no beijaço do Chile encenado na Boca do Monte, me olhei no espelho do café onde estávamos e concordei com ele.

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5 Responses to “O luau na Reitoria não é mais como antigamente. Felizmente. E a grama do vizinho é do vizinho.”

  1. 1 Victor da Filosofia

    Pois é, né professor. O senhor deve lembrar que há uns 4 ou 5 anos atrás eu estava lá, batendo panela. E confesso: estou me coçando pra ir pra lá ao invés de ficar em casa, eu e minha querida dissertação sobre um certo filósofo que adorava esses momentos, sobretudo se tivesse “beijaços”.

    Esse lado mais paroquial das reivindicações, pra mim que nunca precisei da CEU mas que sempre frequentei, é o lado mais comovente da coisa toda. Sei que cinco anos de atividade no Movimento Estudantil é pouco, é muito pouco em comparação às décadas de política que o senhor presenciou. Mas entrevejo, na lista das reivindicações, algumas que herdei dos companheiros que vieram antes de mim e que permanecem sendo a ordem do dia agora que sou ‘reservista’.

    Andei postando uns fatalismos lá pelo ressentimento.wp, pra movimentar um pouco a coisa. No fundo porque a despeito de estudar uma “liberdade ontológica”, a experiência que tenho é que talvez, no fundo, nossa liberdade de sujeito-comum não vai muito além de escolher como se dispor diante de eventos que parecem se produzir segundo forças que transcendem de longe nossa capacidade de interação e intervenção. Talvez para o senhor seja triste ouvir isso de alguém que tem apenas 25 anos de sonho, de sangue e de América do Sul. Mas reitero, embora não pense que sirva como consolo: estou me coçando para ir pra lá. Pois concordo que isso que está sendo feito é algo que deve ser feito, para além das conseqüências. E digo isso sabendo que ninguém, ninguém que está lá agora deve compactuar com essa perspectiva na qual me posiciono aqui, que transforma toda “ação” em mero “gesto”. No fundo, esses gestos auto-compreendidos como ações, ainda estão na gaveta das coisas que mais me comovem.

    Um abraço!
    Victor

    • 2 PATRICIA

      Interessante….ontem estava esperando o raro,mas sempre lotado T.neves Campus, qdo alguem do movimento estudantil convidava em alto tom de voz e com argumentos fortes para a comoçao da reitoria….confesso q admirei aquela pessoa…pela disposição em ato…tbém já tive momentos pareceidos…talvez alguém tenha sentido admiração pelo meu momento….mas a verdade é que, podem jogar os tomates agora,entre dúvidas existenciais e ceticismo político há a conta do supermercado para pagar….não faz parte das minhas metas a plenitude da educação, mas a educação da minha prole..q envolve a de todas as outras pessoas..por que não vivo numa ilha deserta….ou seja…inverti meu ponto de vista….antes eu qria mudar o mundo….e sem método não fazia nada de relevante…agora meus limites são menores…qro apenas mudar o meu redor…pq acredito q essas mudanças se espalham pelo ar…ar q eu tbem respiro….cada um transforma de acordo com uma disposição própria…não adianta sair por aí cuspindo no bife do prato do outro….apenas sente-se a mesa e componha o seu proprio prato!

      sem método não fazia nada de relevante

  2. Os alunos estão ocupando a reitoria, e fazendo luau à noite, para pedir, entre mil coisas, livros para a biblioteca, salas de aula e professores?! Mas isso é maravilhoso!

  3. 4 Rafael Mafalda Rodrigues

    Estive lá, para dar um apoio físico, além do moral. Tenho pretensões de mudar o mundo, como as que a colega ali em cima disse não ter mais. Mas querer mudar o mundo não significa querer abraçá-lo por inteiro, eu vou fazer um pedaço desse mundo novo, não vai ser sozinho e vai ser só um pedacinho, pequenino. E como sofro também de crises existenciais e principalmente de ceticismo político, não me vejo fazendo mais do que um pedacinho de mundo novo, e o mundo é grande não? Tem pedacinhos para todo mundo ajudar a refazer. Também por que eu não vejo um horizonte, por enquanto, como por exemplo alguns companheiros de ME que tem um ideal político, e acreditam nisso. Eu não acredito em quase nada (em política), não sei no que acreditar, não conheço ainda os critérios que vão me proporcionar um ideal político ou o que não é difícil, abandonar de vez essa de ideal político. Se eu contribuo para a ocupação da reitoria hoje (nem que seja com meu peso e sombra), é porque acredito na legitimidade das reivindicações e porque acredito que ocupações, passeatas, panelaços, beijaços, luais, greves de todo tipo, e todas as outras formas de manifestação popular, fazem parte do processo democrático. E se tem uma coisa que me deixa mal, mas mal mesmo, é ver alguém lutando pelo público, pelos outros, por mim, e não ir ajudar, nem que seja com o peso, a sombra, a voz.

    • 5 Rafael Mafalda Rodrigues

      Ah, corrigindo “luais” é segunda pessoa do plural do presente do modo indicativo do verbo luar. Acho que o certo é “luaus”.


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