A invasão da Reitoria da Ufesm (ii)

05set11

A primeira foi em 1985, por volta de abril. Um grupo de estudantes aproveitou o cochilo do meio-dia e ocupou não apenas o saguão da reitoria mas também e principalmente o Gabinete do Reitor. Dona Natália, que zelava pelo cafezinho do quinto andar, contou depois que eles foram apenas entrando, uns mais calmos, outros mais excitados, e ocuparam o gabinete. E por ali ficaram, explicando que apenas sairiam depois de uma conversa com o Reitor. Quando chegamos no prédio, por volta das duas da tarde, eles já havia saído do quinto andar. Conversamos com eles por um bom tempo, em torno da pauta de reivindicações, que trazia a moradia e assistência estudantil em primeiro lugar. A pauta era longa e tinha itens amplos, mas os fatores desencadeantes eram locais.
A primeira foi em 1985, mas passamos por outras, até 1990. Mais de uma vez os estudantes bloquearam o acesso ao campus, nas ocasiões mais aguerridas; nas mais calmas, o bloqueio era apenas do prédio da reitoria. Por vezes ninguém entrava, por vezes ninguém saía.
Depois de 1990, sopraram os ventos mais fortes da redemocratização. Os líderes estudantis foram ocupando lugares na política estadual e nacional e os partidos que apoiavam os movimentos ocuparam-se em conquistar os poderes. A Ufesm viveu longos anos de calmaria estudantil; os reitorados foram se tornando progressivamente centrados num modelo de desenvolvimento centrado no surgimento dos “puxadinhos”; pesquisadores bem formados abocanhavam verbas para laboratórios disso e daquilo, construíam casinhas para equipamentos que prestavam ainda mais bem sucedidos serviços para grandes marcas de negócios mundiais; assessorias e formações proliferaram em quase todos os centros de ensino, sob as vistas grossas dos conselhos; o modelo ainda existe mas encolheu-se desde a crise do Rodin; a instituição vive em suspense faz já bons anos, no aguardo do desfecho, que, penso eu, deverá pesar sobre uns poucos de fora. Mesmo que todos os professores da Ufesm ligados ao dito esquema sejam justamente inocentados, a Universidade não é e não poderá ser mais a mesma depois de tudo o que passou.
Há quem duvide disso. Talvez tenham razão nisso, mas é possível que a instituição tire lições sobre essas coisas difíceis de se falar sobre.
Aqueles que tem memória do período anterior à crise do Rodin devem lembrar das intervenções dos estudantes nos Conselhos Superiores. Eles não cansavam de falar, por exemplo, sobre certas características dos cursos de pós graduação que eram fonte de remuneração extra para os docentes envolvidos, sobre certos contratos da Fatec; com razão ou não, eram eles a voz dissonante no silêncio mais ou menos geral.
Eles deixaram de trancar o arco, pelos custos sociais e políticos; as imagens de feridos e doentes querendo entrar no campus proibiram esse tipo de protesto; a gente pode sacudir as esperanças dos outros, mas com a morte alheia iminente não se joga dados. Voltaram, pois, a ocupar a reitoria. Ao contrário dos anos oitenta, não há ali gente no trampolim da política partidária; essa volta ao tempo da voz, ao contrário do que pode parecer, é um voto de lealdade. O luau da Reitoria terminará com os festejos da pátria e em nome do que vale a pena nela.
Os ipês amarelos do campus guardaram as flores para ver a gurizada sair do prédio. Acho que eles querem dizer que a temporada vai seguir.

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2 Responses to “A invasão da Reitoria da Ufesm (ii)”

  1. 1 Róbson

    Um dos pontos que sempre me intrigou no modelo do Hirschman é que ele parece admitir que a voz e a lealdade teriam alguma imunidade nata à colonização técnica da linguagem e da ação orientadas para o futuro. Quando suas palavras e imagens aproximam a primavera da nossa velha invernada, não tenho como deixar de pensar num voto de esperança que você põe em alguma natureza preservada no fazer e dizer dos que virão.
    Wishful thinking?

  2. 2 Ivan Zolin

    Movimento Estudantil está mostrando um maior pragmatismo, não busca apenas resultados políticos, deseja avanços e ganhos práticos… pode parecer estranho mas ao o idealismo político está sendo acompanhado lutas específicas e pontuais… querem melhoras aqui na UFSM… são novos tempos… e algumas flores já mostram sua beleza e o perfume no campus da universidade… esperamos que os frutos não demorem muito a surgirem…

    Zolin


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