O Setembro

28set11

O velho achou que seria nesse Setembro. Todos os anos, assim que o frio do Agosto se arredava um pouco e dava espaço para outros pensamentos, ele começava a assuntar. Seria no próximo setembro. Agosto tem fama que vai além de tiros no peito e do desaparecimento dos amigos antigos, engolidos na brancura da geada. Foi em agosto que Dom Sebastião teve de apear no Alcácerquibir. Como ele lembrava dessas coisas de almanaque, pensou? Em agosto o preço da cavalhada sobe, até lubuno ganha valor e vitrine. E aí vem o Setembro, e poderia ser nesse, não? São muitos. Eles somam mais de oito mil no Alegrete, que quase sempre ganha dos de Uruguaiana, quase quase os mesmos milhares. E tem depois os de Bagé, na volta do quatro mil, Santana não deixa por menos, Rosário perde mas de pouco, Santa Maria capricha e traz mais de três mil, e por aí segue uma bicha comprida e numerosa, que quando chega no Porto Alegre soma milhares, pois que até na Capital se contam em miles de contas os deacavalo.
Seria nesse ano, o velho pensou. Eles terminariam o desfile do vinte e se recusariam a fazer essa tal da dispersão.
“Dispersão!” ele resmungou.
“Um dia alguém ainda vai dizer que estamos nos prestando para desfile, cavalódromo, seria? Mas era o que nos faltava!”
Eles, todos, miles de cavalarianos, seguiriam, um bronze só brilhando na tarde, no rumo do Mampituba. Viriam de todo lugar, desde os oito mil de Uruguaiana, reconciliados com os do Alegrete, arrebanhando a turma de Caçapava e Lavras e Bagé e Dom Pedrito e Pantano Grande e até os loirinhos de Santa Cruz, miles de milhares nos tordilhos, tobianos, zainos, lubunos, mangas largas e curtas, árabes e ingleses, criolos e malacaras, todo corte e feito de pelo e crina estariam ali, no rumo do Mampituba. Ali estaqueariam, imensa coluna de centauros e seria então e definitivamente revivida e proclamada a nossa separação.
O velho achou que seria nesse Setembro. Ligou a tevê e ali ficou espiando.
Um a um foram dispersando, começando pelos engravatados da capital, que deveria dar o exemplo. Foram desmontando os carros alegóricos e os churrascos de isopor, abrindo latinhas de cerveja e tomando rumos que nada tinham a ver com o Mampituba.
Era a dispersão, pensou o velho.
“Outubro será um bom mês para o salame, mais uma vez”, ele resmungou e desligou o aparelho.

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