Na segunda-feira, 28 de maio, fico pensando no que sei quando sei o numero dos apóstolos

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O nosso conhecimento da verdade, no sentido mais trivial dessa expressão, não depende apenas de nós, como se sabe. Quando nos atribuímos saber isso ou aquilo, o modo como representamos esse conhecimento é um dos fatores essenciais. Outro fator essencialíssimo é o estado de coisas a que nos referimos. O lema trivial é, como dizem os bons filósofos, sabemos sobre o mundo sob uma descrição do mesmo. Daí que descrever um estado de coisas não é tão simples como fazer sopa miojo, que já requer uma certa prática. Como disse um outro filósofo, o Papa sabe que doze é o número de apóstolos. Mas disso não se segue o Papa saiba que a soma do quarto e quinto números primos seja o número dos Apóstolos. E evidente, para um matemático medíocre, que doze é a soma do quarto e quinto números primos. O exemplo é do Kneale, retomado pelo Arthur Coleman (não é o dos lampiões). O Papa e cada um de nós, lembra o Arthur, conhece a verdade sobre o mundo apenas relativamente à representação que temos dele. Conhecer é conhecer sob uma descrição.
O assunto, segue o Arthur, pega fogo quando a gente começa a pensar sobre o que é “fazer algo”. Em que condições podemos dizer que a gente de fato faz algo? Édipo encontrou um velho chato numa encruzilhada e houve ali um desentendimento. Brigam daqui e dali e Édipo, mais jovem, leva a melhor e liquida com o velhote impertinente. Ele teve a intenção de tirar a vida do velhote e para isso usou os meios adequados, uma espada afiada e bem manejada.
Mais adiante o jovem Édipo olha para aquilo que ele incontestavelmente fez e é levado a concluir que, na verdade, estava fazendo outra coisa.
O que é mesmo fazer algo? Preciso ter a intenção, usar os meios adequados e ter a coisa feita, finalmente. Dessas reflexões o Coleman tira um lema muito instigante: a fórmula para a tragédia e para a comédia consiste na estrita responsabilidade no plano da ação, conjugado com uma responsabilidade limitada no plano do conhecimento.
Hoje, na segunda-feira, depois de enfrentar os tradicionais engarrafamentos na estrada para a Ufesm, perguntei para o porteiro do prédio onde trabalho, quantas chaves de salas-de-aula não foram retiradas pelos professores. O prédio tem três andares e dezenas de salas de aula, de quatro cursos.
“Uma”, disse o porteiro, “teve apenas um professor que não pegou a chave”. E completou:”Mas isso acontece, às vezes”. Eu fiquei pensando que o porteiro do prédio parece ter uma boa ética da descrição.
Coisa rara, pensei.
(P.S: a foto é de um banheiro da Universidade Federal de Goiás e ali está escrito, para reflexão do usuário, uma frase de Quintiliano: “a consciência vale mais do que mil testemunhas”.)

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