A declamação da breve estudantil, como prevista pela pretoria, aconteceu

30maio12

As decisões morais do cotidiano, lembra uma filósofa, tendem a levar em conta os detalhes. O mesmo não se passa nas reflexões sociais e políticas, que tendem a se pautar pela máxima “de minimus non curat“, a saber, o pretor não se ocupa com minudências. Dada a declamação da breve estudantil na tarde de hoje, que ocorreu conforme os planos da pretoria, fico pensando sobre a conduta que devo adotar na sala de aula, já que não me declamei em breve: devo agir como uma pessoa comum, pensando nos detalhes, ou brinco de pretor? Ou, ainda, assumo a patética posição de pensar que pouco adianta seguir com as aulas, pois depois eu trabalharia dobrado, dando aulas para os brevistas.
Das malas, a melhor, penso eu.
Diabo velho, fico com os detalhes, sigo com as aulas. Meus brevistas, se tiver algum, levarão falta; tenho certeza que eles saberão ver, em cada falta que tiverem, o respeito e o reconhecimento que seu gesto merece; eles guardarão essas faltas como medalhas ao longo de suas vidas. O contrário disso seria um misto de covardia e cinismo; felizmente, como diz o Professor Róbson, essas coisas ainda não fazem parte de nossas obrigações profissionais.
Expus essas divagações para um colega e ele me perguntou: “Mas se os professores continuarem com as aulas não serão obrigados a dar aulas dobradas, para os eventuais alunos brevistas?” Bem, respondi, numa sociedade democrática somente somos forçados a fazer algo por força de lei e o calendário escolar está em vigor. E, por enquanto não é contra a lei seguir a lei. Na remotíssima hipótese de algum Conselho da Ufesm entrar em delírio e quiser me forçar a algo parecido, pagarei para ver. “Mas se nenhum aluno vier para as aulas?”, ele insistiu. Eu respondi: “O semestre está em curso; nada mudou; e para que o protesto deles tenha sentido e referência (eu estava saindo de uma aula de Filosofia da Linguagem), nada como um fato assim, não? Afinal, um protesto no qual ninguém tem nenhum prejuízo em nenhum sentido, fica meio sem referência, não? Tipo assim, pedagogicamente, a breve seria uma declamação muito vazia, não?”.
Ele fez cara de quem não entendeu. Ficamos de conversar mais depois.

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6 Responses to “A declamação da breve estudantil, como prevista pela pretoria, aconteceu”

  1. 1 Róbson

    Tenho minhas dúvidas se o gesto será tomado como uma medalha, dado que pelo menos um colega nosso já recebeu uma advertência ameaçadora, mas que também era genericamente dirigida aos demais professores da filosofia.

  2. Mas quem tem legitimidade para pronunciar esse gênero de advertência?

  3. Ok, vem bumbo, eu sei. Mas também tenho a menor dúvida que qualquer um dos meus alunos, brevistas ou não, não apenas compreendem o sentido do que faço mas apoiam a minha decisão, mesmo que sofrendo na carne. Intuitivamente eles sabem que essa “jornada de herói” que alguns deles querem empreender somente fará sentido (isto é, não será uma farsa, como a breve do Desandes) se houver um custo. O passeio na floresta somente vale como iniciação na vida adulta se ali houver perigo. Ao contrário dos estudantes, os dolentes em breve reunem-se em salas refrigeradas e tem seus salários garantidos, enquanto salvam o mundo dos perigos; alguns alunos meus, ao menos, vão perder uma disciplina, e, tenho toda a certeza, terão orgulho disso e a qualidade de nossa relação professor-aluno não apenas permanecerá intocada, terá ainda mais qualidade. Eu imagino o que eles pensam dos professores que “aderem” à breve dolente pelo simples efeito da brevidade… Fazer isso tem um nome e tem um custo formacional.

  4. 4 Róbson

    Em relação à ‘advertência’, recebi algumas informações hoje de manhã, após ter postado o meu comentário, que tudo não passou de um problema de má-interpretação. O professor em questão teria interpretado incorretamente uma mensagem que não era com aquele sentido, e tampouco para ele. Tomara que sim.

  5. 5 Vitor Biasoli

    Bravo, Ronai, teus alunos grevistas serão temperados pelas agruras da greve, do conforto com a instituição. As faltas que receberem serão medalhas, sim. Ou possíveis perdas para negociação, não é mesmo?

    • Essa é a idéia. Na lei da cozinha, sem tempero não há boa comida! Mas agora, quem sabe, vem o calendário branco do Cepe e a graça da breve se desmanchará no ar. Não haverá nem perda, nem negociação nem breve. Apenas o tédio sufocando no peito de quem acredita no Desandes.


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