A marcha das vadias: o que uma criança aprende, quando aprende a palavra “mulher”?

03jun12

Acompanhei ontem um trecho da Marcha das Vadias. Como imaginei, encontrei nela muitos aluna/os e ex-aluna/os meus e foi muito bom vê-los, alguns de cara pintada, empunhando cartazes, outros mais discretos, acompanhando a marcha e ajudando na segurança. A concentração foi feita na Concha Acústica, no Parque Itaimbé, a partir das duas da tarde. Caia uma garoa finíssima, que cedeu aos poucos. Passava das três quando a Marcha saiu, rumo ao Calçadão, para depois ir para Gare, inaugurando, en passant, a renovação da Avenida Rio Branco. Não sei estimar quantas pessoas participaram, mas acho que pode ter chegado a duas mil. Fiz algumas fotos até a passagem pelo Calçadão. Durante a caminhada não faltou oportunidade para fazer um exercício de imaginação sobre o que podemos e o que devemos pensar quando somos surpreendidos pelos dizeres dos cartazes, pelas pinturas nos corpos, pela nudez parcial de alguns dos participantes, pelas cantorias irreverentes acompanhadas por bumbos de lata. Quanto à primeira alternativa, a resposta é: podemos pensar qualquer coisa, começando pelas mais bobas e distraídas. E quanto ao que devemos pensar diante da Marcha?
Bem, eu acho que é isso que a Marcha das Vadias nos pede, essa coisa singela e trivial: que a gente pare para ver os cartazes, as pinturas, as cantorias que brotam dos corpos que caminham em um misto de indignação e alegria, que a gente pare e pense um pouco: onde, quando, como, com quem, de quem, contra quem, em quais contextos, sob quais condições, aprendemos o significado da palavra mulher.
Algumas mães e pais levaram as filhas e filhos para caminhada e essas crianças me lembraram as crianças das minhas aulas, quando nelas pergunto para meus alunos, “o que aprende uma criança quando aprende uma palavra? Ela aprende o significado da palavra ou o que a coisa é?”. Depois que faço essa pergunta (inspirado, por certo, em Cavell) eu fico quieto, dou tempo e espaço para que eles pensem sobre ela, para que sozinhos percebam os mundos que se escondem nessa pergunta simples. Depois, com o passar das horas e dos dias, concluímos que muitas vezes o bom caminho de reflexão nos responde assim: por vezes, quando uma criança aprende uma palavra, não aprende nem o significado da palavra, nem o que a coisa é.
E foi assim que fui lendo os cartazes e ouvindo as cantorias: os desenhos, as frases, as cantorias, as faces em êxtase e os seios à mostra eram um convite para que a gente pensasse: onde, quando, como, com quem, de que, contra quem, em quais contextos, em quais situações, em quais opressões, em quais alegrias, em quais tristezas cada um de nós aprendeu o significado da palavra “mulher”? A marcha pedia apenas essa coisa simples: pense nisso, pense por um momento que é possível que muitos de nós não tenhamos aprendido nem o significado da palavra nem o que a coisa é; e que precisamos caminhar mais um pouco mais e mais depressa para aprender, para fazer algo contra os numeros que contam a agressão contra as mulheres por todas as partes; uma agressão que não brota da natureza humana, mas sim dessa coisa frágil de aprender a falar, que nos acontece desde bebês.
A marcha se foi, descendo a Rio Branco, no rumo da Gare, e eu precisei deixá-la. Voltei para casa com uma ponta de orgulho por morar numa cidade que encena para si mesma esses dramas de aprendizagem. Fiquei lembrando de uns versos de Ledo Ivo, sobre o fato do mundo ser muito grande, e nele, “pela mão, levam-me as palavras”. A poesia, pensei, nos ajuda a manter mais puras as palavras; e então a marcha é uma espécie de poesia que caminha pela calçada, para manter em aprendizado a palavra mulher.

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16 Responses to “A marcha das vadias: o que uma criança aprende, quando aprende a palavra “mulher”?”

  1. 1 Eni

    O que a criança aprende, Ronai?
    Mas como assim, se nem os adultos aprenderam ainda?
    Como eu disse aos meus alunos, temos ainda muitas marchas pela frente.
    As críticas aparecem, há quem julgue, há quem não se interesse, e a meninada até pode tropeçar às vezes, mas só tropeça quem anda…
    Beijokas, amado

  2. Querida Eni, obrigado pela visita. Pois é, as crianças aprendem, como todos sabemos, o que os grandões ensinam. O problema é que os grandões não se dão por conta da complexidade do verbo “ensinar”. Um grande abraço!

  3. 3 Franciele Binelo

    Que análise belíssima sobre a Marcha!

  4. 4 Guilherme Passamani

    Um belo texto. Bela reflexão e belas imagens. Obrigado, Prof. Ronai!!!

  5. Realmente fantástica sua análise desta bela manifestação que por alguns meios de comunicação e jornalistas foi criticada ou ignorada, apenas pelo nome ou pela semi nudez exibida como protesto por algumas participantes. Muitos sequer entenderam do que se tratava a marcha. Seu texto foi esclarecedor.

  6. 6 meuuniversomeu

    Muito bacana!

  7. 8 Stephanie

    que lindo texto sobre a Marcha das Vadias! Agora sim ela ficou mais cheia ainda de poesia e aprendizado…

  8. Perfeita reflexão sobre a Marcha da Vadias. Parabéns!

  9. 10 Chris Godoy

    Primeiro realmente fiquei chocada com o nome, depois percebi que a ideia era causar esse impacto! Legal, só achei lamentável algumas que se comportaram como verdadeiras vadias, apelando, ou melhor, se pelando, se expondo e dando força para quem acha que realmente as mulheres que ali estavam eram vadias. Sem falar em cartazes que pediam aborto seguro e coisas do tipo…poxa com tantos métodos anticoncepcionais as criaturas aproveitarem um momento que seria para mostrar o valor da mulher, da vida, das responsabilidades femininas para dizer, transo sem responsabilidade nenhuma e depois quero abortar com segurança!
    Acho que estas pessoas deveriam refletir melhor, pois elas não entenderam o sentido da marcha, e acharam que era pra ser vadia ao pé da letra.

    • 11 Chris Godoy

      Eu espero que crianças não pensem nessa minoria que participou da marcha semi nua, ou pedindo legalização do aborto como mulher.

      • 12 selene

        Acho que você não entendeu o significado da Marcha… qual o problema em ser vadia? Em transar com quem quiser? Em poder andar na rua com os seios à mostra sem ser atacada, como os homens fazem? É essa a questão. E sobre o aborto, é uma questão pessoal, se você não quer abortar, não deve impedir que outras o façam. Afinal, aborto nada tem a ver com contracepção, o filho já está feito, agora o menos mal é abortar, do que criar uma criança sem vontade e sem amor…

  10. 13 Vitor Biasoli

    Ronai, bacana a tua simpatia em relação a essa marcha. Não consigo sentir a mesma coisa. Acho que entendo o eixo da manifestação: a violência que as mulheres sofrem, é isto? Mas acho essa dramatização que a juventude faz uma encenação muito grotesca e não sei se serve para alguma. Mas atraí a nossa juventude de classe média e isso talvez seja sinal de alguma coisa. Mas do quê?

    • 14 Ronai Rocha

      Vitor, as minhas dúvidas também são muitas. Uma delas, para seguir uma linha que sugeres, é sobre se que aquilo que por vezes nós, homens, chamamos de “violência que uma mulher sofre” é algo que estamos compreendendo bem. Ali na marcha eu identifiquei ao menos duas ex-alunas que tiveram um histórico de agressões físicas pesadas, das quais custaram a se libertar. Isso marca um dos limites do gradiente. O outro é muito sutil, quase invisível. De outro lado, a dramatização da marcha sofreu uma tropicalização, eu acho. A forma como a mulher brasileira de classe média se veste é, provavelmente, uma das mais ousadas do planeta, de um ponto de vista “maryquantista”. Tu e eu pertencemos a uma geração que acentuou as opções de vestir como uma forma de estar na vida; o máximo que ousei foi usar umas bocas-de-sino, aos dezoito, e uns cabelões, logo depois. Mas acho que olhamos com simpatia para as fotos do maio de 68, na qual as rebeldes apareciam de mini-saia e olhões pintados; o que elas queriam dizer com isso? Eu acho que concordo contigo, estamos até agora tentando decifrar. Assim, nessa linha de tropicalização da marcha, a brasileira, pela generosa recepção da tradição maryquantista, foi obrigada a radicalizar um pouco, e surgiram assim os sutiãs expostos ou os seios de fora. Uma encenação, sim, mas não seria o grotesco, quem sabe, um gênero a ser compreendido, como os demais. Assim, acho que estamos num caminho parecido; a marcha talvez seja sinal de algo que ainda não percebemos muito bem, mas que certamente tem a ver com o que podemos e devemos fazer diante do mal estar que qualquer um de nós, classe média ou não, sente diante dos números da violência de gênero, para ficar só nela.

  11. 15 selene

    Muito legal seu texto, um ponto de vista singelo e sem preconceitos, simplesmente analisando, sem ser reacionário… vendo essa mensagem anterior eu pergunto: qual o problema com a nudez? Na televisão tem tanta e ninguém reclama… a questão é justamente essa, a nudez livre, fora do padrão de beleza, sempre é indesejada, ofensiva, grotesca. Ali ninguém queria ofender, e sim repensar certos costumes que não são muito pensados…

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