“Eles aguentarão no miojo”

09jun12

“E agora que os servidores técnicos-administrativos da Ufesm se declamam em breve”, me pergunta o jovem europeu recém chegado na Boca do Monte, o que se segue? Ele ainda não fala bem o português, daí minha transcrição dessas expressões, “declamação da breve”. Eu tento explicar a ele que as breves brasileiras nada tem a ver com as breves européias. “Como assim?”, pergunta ele. Bem, aqui nenhum brevista perde o pagamento do salário quando se declama em breve. Ele faz uma cara de debochado e ri, enquanto me diz que estou “princando”. Não, sem brincadeira, em mais de trinta anos de breves, e mais de 1.600 dias de declamações de breves, não há corte de salários durante as breves das universidades. “Mas a breve não é uma quebra unilateral do contrato de trabalho?” Bem, no setor privado e nas Europas, quem sabe, mas aqui nas ufesms das vidas não é bem uma quebra de contrato, está mais para uma envergadinha discreta, eu respondo. “Mas então, qual é o ponto das breves, qual é a moral das breves? As pessoas deixam de trabalhar e o governo não deixa de continua bagar? “Pagar”, eu corrijo. Sim, é isso mesmo. O meu amigo fez cara de quem não estava entendendo nada e queria mais explicações. “Mas como?” É que depois da breve a gente volta a trabalhar e faz o serviço que deixou de ser feito, tipo assim, a gente volta e dá as aulas que deixaram de ser dadas. Ele continuou me olhando meio estupefato, não entendia nada. “Mas isso é uma loucura, como se os dias pudessem voltar, como se vocês tivessem uma máquina do tempo?” Eu vi que o assunto iria longe e me ative à pergunta inicial dele. “Agora que os servidores se declamaram em breve, um certo grupo, que controla o restaurante universitário, vai deixar de fornecer as refeições. O outro grupo, que controla a biblioteca, vai raptar os livros. Mas os estudantes já conhecem bem esse jogo, faltam apenas três semanas para o final do semestres, e eles encaram isso como um detalhe pitoresco da vida acadêmica, que costumam tirar de letra. “Aguentarão no miojo esses poucos dias e logo estarão em férias, esperando que o frio de julho amorne a breve.” Ele continuava sem entender nada. “Como assim, aguentar no miojo?” Eu expliquei para ele que precisava ir no quintal, carnear uma ovelha, e que depois a gente continuava a conversa.
Ele fez cara de quem mal podia esperar.

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One Response to ““Eles aguentarão no miojo””

  1. 1 Vitor Biasoli

    Pô, Ronai, mas se cortarem o pagamento, como é que vamos exercer nosso direito de greve?
    Comecei a fazer greve no Magistério Estadual, em 1979. O falecido Amaralzinho não nos cortou o salário, na época. Nem o Jair Soares. E acho que o Simon – de triste lembrança – também não.
    Levei anos para entender que o Governo podia fazer isto. Levei anos para compreender esta “peculiaridade” das greves de funcionário públicos.
    Primeiro corte que senti na pele foi feito pelo Governador Collares, em 1991. Foi inesquecível!


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