“Não haverá desconto no contracheque!”

13jun12

Conversei novamente hoje com meu amigo recém-chegado da Europa. Ele, que se mostrara um tanto cético quanto às minhas afirmações sobre o brevismo que assola as beiradas acadêmicas, hoje me disse que começava a acreditar no que eu havia dito. “Afinal”, disse ele, “eu li em um jornal local que o reitor da Ufesm garantiu que não haverá qualquer tipo de repressão aos grevistas, como controle do ponto ou desconto do contracheque”. “Mas”, ele acrescentou, “ainda custo a entender esse sistema de protesto; a pessoa não trabalha e não tem ponto nem desconto; quer dizer que chega no fim do mês e o salário está no conta?” Na conta, corrigi. “E é o Reitor que manda nisso?” “Mais ou menos”, expliquei. “O Reitor informa a frequencia, diz quem trabalhou e quem não trabalhou e o pagamento vem lá de Brasília para a conta do servidor”. “E se o governo quiser saber quem não trabalhou, para pagar apenas os que trabalharam?” “Bom, isso raramente acontece, os governantes costumam ser complacentes e não fazem muita pressão.” Ele insistiu: “Mas e se? O Reitor não pode se rebelar contra o governo e não mandar essas listas?” “Sim, isso pode acontecer, mas é difícil, pois o Reitor é nomeado pelo Ministro. Normalmente ele deveria informar e nesses casos, o protesto normalmente termina o protesto”. “Mas então a notícia que eu li está redigida de forma estranha, o Reitor pode mesmo dar essas garantias que o jornal disse que ele deu?”
Felizmente eu tinha que voltar para minha aula e ficamos de retomar a conversa depois. Eu havia chegado um pouco atrasado, devido ao enorme engarrafamento na ida para Camobi, e precisava terminar a aula na hora boa para não enfrentar o ainda maior engarrafamento do retorno. Meu amigo voltou para a aula dele e o campus retomou a vida normal.
Mas antes de nos despedirmos ele saiu-se com essa: “Não é curioso que no Centro de Tecnologia, onde fica o comando da breve, não há o menor sinal dela?”

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8 Responses to ““Não haverá desconto no contracheque!””

  1. 1 Róbson

    A propósito, Ronai, lembro de uma breve em que, a despeito de alguns não terem sido brevistas, o governo reteve os salários. Um dos meus ganhos do protesto foi uma dívida de empréstimo junto ao Banco do Brasil. Em outra ocasião, mesmo com certo contragosto, um dos nosso reitores, creio que do Centro de Tecnologia, precisou enviar a Brasília uma folha diferenciada. Também lembro que havia rumores de que em certos departamentos lutadores a folha saiu igual, como se nada estivesse acontecendo. Mas esses são detalhes sem valor histórico.

    • 2 Ronai Rocha

      Sim, eu lembro disso, mas como o assunto ficaria longo demais se eu entrasse por esse rumo, deixei para outra conversa com meu amigo estrangeiro.

      • 3 Róbson

        É verdade, nestas discussões de fundamentos é tão fácil quanto oportuno perder o rumo.

  2. 4 Daniel

    Amigo Ronai, é só explicar para seu amigo que os ganhos obtidos através de greves e outras lutas na universidade são também oferecidos a todos, independente de terem ou não protestado ou lutado por seus direitos. Não ouvi falar ainda de ninguém que não fazendo greve tenha abdicado dos acordos e ganhos obtidos ao final das mesmas.

    • 5 Ronai Rocha

      Amigo Daniel, eu também, mas a observação também se aplica para os custos dos protestos, que nem sempre são muito visíveis ou de curto prazo. E o meu amigo estrangeiro entende que não há protesto grátis. Ele acha mesmo que se toda a universidade parasse, para valer, tipo fechar o arco por trinta dias, apareceria a verdade desses protestos: eles só funcionam porque muitos seguem trabalhando normalmente. O que ele não entende é que isso que a gente chama de “greve nas universidades”, ele não chamaria assim, pois parar e trabalhar e e seguir recebendo salário nada tem a ver com o que ele está acostumado a ver na Europa, em nenhum setor. E aos poucos ele vai descobrindo que o sindicalismo universitário brasileiro está profundamente dividido, e que quando se fala em lutas e ganhos e negociações, nem sempre fica claro quem são os agentes das lutas.

    • 6 Juca

      Também são de todos os prejuízos trazidos por breves em que tudo o que se ganhou foi a “mobilização da categoria”.

  3. 7 Juca

    Hoje, no ceceenee , os brevistas foram pedir ao conselho de tríplice categoria que o controle eletrônico do ponto (que está em fase de teste, isto é, ainda não vale) fosse cancelado naquela unidade de ensino. Melhor não comentar o assunto com seu amigo estrangeiro.

    • 8 Ronai Rocha

      Caro Juca, não deu outra: comentei o assunto com meu amigo estrangeiro e ele disse que exatamente esse ponto do ponto eletronico era um dos que mais lhe causava espanto. Ele me contou que nas Europas era muito comum haver exploração de mão de obra de outras paragens do mundo e que então as sindicatos européias, quando faziam greves, incluiam na pauta das greves a introdução do ponto eletronico, para que as horas de trabalho fossem contabilizadas honestamente. Ele me disse que tinha ficado muito surpreso, pois aqui mesmo na Zilbra ele viu que alguns sindicatos, como os dos bancários, exigem o ponto eletronico, e outros, como o das universidades, são contra. Ele ficou achando que entender o Zilbra não é coisa para amadores. Eu, naturalmente, tive que concordar…


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