Uma inacreditável carta

07jul12

Se alguém precisava de alguma evidência adicional que provasse o desvairio que tomou conta de algumas lideranças sindicais da Sedufesm, veja o texto abaixo:

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14 Responses to “Uma inacreditável carta”

  1. 2 Róbson

    Ronai, entendo que é normal nestes tempos de releitura de A Tabela Periódica (Primo Levi) considerar que concordância de gênero e número é uma regra gramatical burguesa, mas não compreendi a quem foi dirigida a missiva reproduzida: está endereçada a uma colega professora, mas no desenvolvimento do texto solicita-se a atenção “dos senhores”. Certamente, esse é um detalhe menor, considerando os impressionantes exemplos evidenciados nas considerações tecidas na carta. Contudo, tendo a pensar que o ‘desvairio’ que você identifica parece ser consistente com táticas derivadas de uma compreensão ortodoxa da tese da superestrutura e da função ideológica do Direito.

  2. 3 Ronai Rocha

    Róbson, a carta foi uma espécie de circular endereçada pelo Sedufesm aos Coordenadores de Curso. Suprimi o nome da pessoa que recebeu pois não vinha ao caso. Pelo que sei a carta foi mandada para todos os coordenadores de cursos, como reação a um memorando da Prograd que relembra o prosaico fato que o calendário acadêmico está valendo. A carta da Sedufesm está provocando uma intensa reação de muita gente. Eu li, faz pouco, um mail de um professor do Departamento de Música que me deixou emocionado, pela lucidez e intensidade da reação dele – e certamente de muito de seus colegas -. Ele começa assim: “Caríssimos,
    Esta carta do SEDUFSM é indignante e vexatória para todos, docentes, técnicos e alunos. O baixo nível moral e intelectual de quem a escreveu é evidente pelos próprios termos da carta. É típico da atitude ditatorial acusar qualquer oposição justamente daquilo que a ditadura faz — tanto nazistas como comunistas fizeram isso, como fazem seus descendentes ideológicos até hoje.” E por aí ele vai, desmontando os pseudo-argumentos ali presentes. Como reação a esse documento eu estou pensando em solicitar formalmente ao Presidente do CEPE que, finda a breve, seja elaborado um calendário de recuperação de aulas para os brevistas e que os demais 90% dos professores da UFSM sejam deixados em paz desse delírio. Topas assinar comigo?

    • 4 Róbson

      Ronai, assino sim. Contudo, ainda inclino-me a pensar que a promoção de confusão jurídica, especialmente entre aqueles que são seduzidos com argumentos ad hominem supostamente dialéticos, é um misto de desvairio, orfandade de utopias, indigência conceitual, mas também de intenções táticas definidas (o que sinaliza, talvez, aquilo que o colega do Departamento de Música expressou com “baixo nível moral”). Não tenho dúvidas que um dos resultados da breve, a ser declamado quando forem contabilizados os ganhos históricos do movimento, é o desmascaramento do conflito de classes presente no interior da universidade pública federal. Brincadeiras a parte, você acredita que poderemos ter novamente algo análogo ao que se seguiu à célebre assembléia dos três segmentos, aquela do estádio de futebol no CEFD?

      • 5 Ronai Rocha

        Róbson, acredito que algo parecido pode surgir, sim. Vai depender dos acontecimentos prometidos pelos declamantes na semana que vem; eles prometem radicalizar as ações (ocupar a Reitoria vai ser o mínimo, junto com novas barrigadas; todo o esforço de diálogo do Reitor vai por escada abaixo, pois o ponto dos brevistas agora é obter reconhecimento e para isso eles vão sacrificar a boa relação que fizeram nas semanas passadas); os brevistas estão farejando que muitos professores vão pressionar para saber o seguinte: afinal e na real (ou seja, com numeros do DERCA); quantos pararam? Ao se descobrir que mal passa dos dez por cento no sistema – alguns brevistas estão registrando as notas, e isso sei por seguro…) o Reitor fica na sinuca: ou ele defende e aprova um calendário que arrasta 90% dos professores para a aventura dos brevistas ou ele dá aos brevistas eles o que pedem, um calendário de reposição à parte, deixando a imensa maioria em paz. Algo parecido com isso já aconteceu, como bem sabes. Se a maioria da universidade for arrastada para esse abismo dos brevistas surge o espaço para uma “terceira via” retomar fôlego. Documentos como esse, do colega da música, mostram que há um limite para a boa educação que tem havido para com a insensatez juvenil que tomou conta do frentão brevista.

  3. 6 Saucedo

    Ronai,

    Como também recebi a tal carta, decidi começar a elaborar o curso que oferecerei no presídio central. O título do curso será”Filosofia peripatética: banho de sol”. Possivelmente tenha o I e o II. Tudo dependerá do tempo que ficarei preso. Pelo menos, terei alunos que não sairão da sala de aula.

    • 7 Ronai Rocha

      Eu gostaria de te acompanhar, e meu curso seria “Interpretaço 101”!

  4. A Greve é um Direito mas não uma Imposição. As pessoas e coordenações tem o direito de escolher se vão ou não aderir à greve, por mais legítima que seja. Deve haver um bom senso ao se optar por um meio termo entre livre-arbítrio e engajamento. Este meio termo deve ser dialógico e ser pautado pelo respeito mútuo. A missiva assim atribuida ao “Comando da Greve” foi escrita num tom reprovável que, paradoxalamente, ao se auto-vitimizar impõe uma ameça semi-velada a todos aqueles que optarem por não aderir à greve. Trata-se de algo um tanto falacioso, facilmente redutível ao absurdo. Compreende-se as razões legais e políticas para a greve, assim como a defesa dos interesses do segmento. Contudo, constranger os indivíduos em nome de uma “causa maior” é moralmente correto? Penso que não. Generalizar motes de causa como se fossem normas e subjugar as consciências em nome de um engajamento qualquer não procede. Todo engajamento deve ser voluntário, senão se torna imoral e ilegítimo. Bem, esta é minha humilde opinião. Como diria Gandhi: “Para fins bons os meios também devem ser bons!”.

  5. 9 Alexandre

    Caros, agradeço a menção à minha carta de indignação dirigida aos colegas do meu departamento. Foi o meu aluno Marcio quem a repassou. Na verdade, embora o dpto. de música esteja funcionando normalmente, de todos os meus colegas professores somente um se pronunciou a meu favor. Os demais com quem conversei a respeito, embora não tendo aderido à greve, não pretendem esquentar a cabeça caso a UFSM mude mesmo o calendário. A minha idéia era abrir um processo judicial (justiça comum) coletivo com alunos e professores não grevistas para uma liminar impedindo a reitoria de cancelar o calendário, caso venham a fazê-lo. Até porque somos a maioria e seria absurdo que uma maioria de não grevistas seja obrigada a fazer greve por uma minoria de grevistas. Aliás, impressiona-me sobremaneira que, diante desta realidade numérica, a reitoria tenha se acovardado e não tenha chamado a polícia para retirar os trogloditas que impediram a reunião do CEPE…

    • Caro Alexandre, benvindo. Conta comigo (e certamente com muita gente mais) para essa iniciativa. Eu espero, no entanto e por enquanto, que a Reitoria, diante dessas evidências, tome a iniciativa de propor um calendário que afetará apenas os brevistas, pois, como disse acima, os numeros reais da paralisação serão aqueles do Derca, e isso mostrará a menoridade da paralisação e o absurdo de mudar o calendário para todos. Ficamos em contato e parabéns, mais uma vez, pela carta, que somente não transcrevi na íntegra porque não tinha a tua autorização. Grande abraço!

      • 11 Róbson

        Também estou nessa. Vamos ver se a Reitoria consegue fazer alguma reunião do CEPE, pois neste momento o acesso principal da UFSM está fechado.

      • 12 Alexandre

        Caro Ronai, fique à vontade para transcrever a carta na íntegra. A única coisa que dá força à minoria que sempre inicia greves por qualquer motivo (inclusive porque a mosca zumbiu em seu ouvido) é a sua capacidade de intimidação e a ameaça do uso da força bruta, como se viu pela carta que enviaram aos docentes e por sua ocupação do andar onde se reuniria o CEPE. Infelizmente muitos professores, inclusive chefes de depto e coordenadores, se acovardam para “não esquentar a cabeça”. Preferem ceder à truculência de alguns colegas vagabundos e literalmente esquentar a cabeça trabalhando nos 40ºC de janeiro e fevereiro. Mas a imensa maioria dos alunos (salvo os poucos que tiveram o cérebro lavado pelos acima referidos vagabundos profissionais) detesta greves e por óbvios motivos. Da mesma forma a maioria dos professores apenas cede aos grevistas pelos motivos acima expostos. Quanto aos técnicos, costumam ser mais atingidos pela “síndrome de Maria” que os demais. Mas a greve deles, ainda que atrapalhe, não impede que se dê aulas e avaliações. É evidente que a mamata de poder ficar parado e continuar recebendo salário integral é sedutora para todos, e, como diz um colega de dpto, uma regalia do funcionário público descendente direta da pequena nobreza dos tempos da monarquia… Acho que devemos em algum momento, em breve, nos reunirmos pessoalmente para discutirmos uma estratégia de irmos à justiça comum para defender o nosso direito de manter o calendário letivo. Abraços

  6. 13 Adriano

    Qualquer outra atitude que não seja de acordo com a nossa ordem será considerada unilateral e anti democrática. Que bonito!

  7. O Professor Alexandre autorizou a reprodução da carta que escreveu para seus colegas e alunos, e vai aqui o texto:
    Caríssimos,

    Esta carta do SEDUFSM é indignante e vexatória para todos, docentes, técnicos e alunos. O baixo nível moral e intelectual de quem a escreveu é evidente pelos próprios termos da carta. É típico da atitude ditatorial acusar qualquer oposição justamente daquilo que a ditadura faz — tanto nazistas como comunistas fizeram isso, como fazem seus descendentes ideológicos até hoje.

    O autor assina cinicamente com “saudações democráticas” após uma carta inteiramente intimidatória contra todos os que não aderiram a essa greve. O uso das maiúsculas para “QUE AS ATIVIDADES NESSE PERÍODO ESTÃO SUSPENSAS pelo fato da greve ser plenamente legal”, além de constituir óbvia intimidação aos leitores, é um belíssimo oxímoro do tipo “amo-te, logo agrido-te”. Afinal, o fato da greve ser um direito constitucional não transforma esse direito numa obrigação. Obrigar-nos a fazer greve é que fere o direito constitucional da liberdade de expressão e de pensamento contido no Capítulo 1 de nossa Constituição. Portanto, impor a suspensão de nossas atividades é tão ilegal quanto impedir uma greve.

    Além disso, o mesmo capítulo 1 da Constituição vigente proíbe o anonimato (já que todos têm o direito de livre expressão garantido). No entanto, o “democrata” que redigiu essa carta em nome do sindicato dos professores não assina a carta, preferindo esconder-se por trás da instituição que o abriga… É fácil intimidar anonimamente, não? O fato é que nem todos os professores são filiados ao sindicato, e portanto este não representa os não sindicalizados. E, como se vê no campus da UFSM, são muitos os departamentos que não aderiram a essa greve.

    Aparentemente escapa ao autor da carta intimidatória do SEDUFSM o mais básico silogismo aristotélico:

    1) Fazer greve é um direito; fazer greve não é uma obrigação; logo os grevistas não podem impor greve aos não grevistas.

    2) Os procedimentos de matrícula não requerem necessariamente a participação de todos os docentes e técnicos administrativos; muitos docentes e técnicos administrativos não aderiram à greve; logo a greve de parte dos docentes e técnicos não impede os procedimentos de matrícula.

    Como se vê, é extraordinário e mesmo vergonhoso que professores de nível superior ignorem a lógica mais básica conhecida até hoje, coloquem a realidade de cabeça para baixo e façam uso espúrio da constituição vigente com o fim deliberado de impor sua visão aos demais. Ora, é evidente que os docentes e técnicos que estão trabalhando para garantir o funcionamento de procedimentos de matrícula, dando aulas, etc., não estão constrangendo ninguém, nem muito menos “assediando moralmente” aos grevistas. Só uma mente totalmente insana pode chamar de crime de assédio moral (!) o fato de professores e técnicos continuarem a cumprir com sua obrigação só porque há grevistas em greve!

    Prezados grevistas: se vocês estão em greve, assumam a sua posição somente para si mesmos. Vocês não falam nem têm o direito legal de falar em nome dos demais. Anti-democrático é fincar cartazes vermelhos de “docentes em greve” por todo o campus quando vocês não representam a todos os professores. Dizer que garantir matrículas para o próximo semestre é “crime de assédio moral” é distorcer totalmente a constituição brasileira. Muito mais fácil e lógico é provar o assédio moral de tentar intimidar os não grevistas a parar.

    Por incrível que pareça é preciso lembrar o óbvio: o texto da lei que permite a greve do servidor público não estabelece limites nem regras específicas. Não estabelece nenhuma compensação aos prejudicados pelas greves. E, com todas as inúmeras greves de docentes dos últimos anos, a única mudança significativa foi para pior: não só ganhou-se pouquíssimo aumento salarial como acabou-se com a aposentadoria integral dos docentes.

    Prof. Dr. Alexandre J. Eisenberg


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