O desligamento dos elevadores

11jul12

A Reitoria da Ufesm está ocupada, mais uma vez, desde ontem.
Assisto isso desde 1985, quando ocorreu a primeira dessas invasões da Reitoria. Escrevi sobre isso no “Sentimentos de Outono“. Mas os acontecimentos de hoje acrescentam um ingrediente novo para mim: os elevadores do prédio, de nove andares, foram desligados pelos ocupantes. Fico a pensar sobre o simbolismo disso, como novo passo; eu gostaria de pensar que isso foi apenas uma brincadeira de mau gosto com os gordinhos do prédio, mas a idéia não prospera. É como se dissessem: “Nós vamos desligar tudo isso, aos poucos; se vocês não param para nos ouvir, nós vamos começar a parar tudo fisicamente!.”
E foi assim que ao longo do dia os ocupantes fecharam todo o prédio. Os servidores tiveram que abandonar o edifício e pelo período da tarde o prédio já estava tomado. Reitor e assessores tiveram que usar outros lugares para se reunir e decidir o que fazer.
Todos estamos acostumados com a ocupação de prédios ou lugares publicos como gesto de protesto; o simbolismo maior, por certo, é o desafio territorial aos pretensos donos do lugar, como a dizer para eles, “não esqueçam que isso aqui também é nosso”; com isso ganha-se a atenção dos mesmos e do publico. As ocupações nunca se fazem sem alguns inconvenientes ao local e aos ocupantes oficiais, e por vezes, em lugares fechados, elas exigem o uso do corpo dos ocupantes, como bloqueio da entrada; com isso eles impedem, pela força, outros usos. Usualmente são, como se diz, casos de ficar ali, sentado, de pé, deitado, ocupando o lugar até que algum efeito ocorra. Esse gesto de desligar os elevadores, como entendê-lo?
Não sei bem porque fiquei me lembrando da peça de João Bettencourt, “Onde não houver inimigo urge criar um”. Em uma das cenas a autoridade, destemperada emocionalmente, diz para o torturado: “- O que é que tem eu estar com uma arma apontada para você? É uma forma de carinho!”
Aqui na dialétrica do Vacacaí está faltando uma vítima, pelo que parece. Ainda bem que por enquanto a arma são os elevadores da Reitoria. Os de mala e muleta não gostaram nem um pouco do bloqueio dos cujos. Logo teremos, quem sabe, a breve de fome. Quem não lembra da última?

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7 Responses to “O desligamento dos elevadores”

  1. 1 Róbson

    Ronai, lembro daquela breve de fome, motivada pelo fato de o CLG de então ter divulgado a ‘notícia’ de que os estudantes já deveriam pagar para estudar na Ufesm em agosto daquele ano. Um estudante do CCSH acreditou e exerceu o direito de protestar não ingerindo alimentos. Naquela época não se diria, como hoje, que sentir fome impede o exercício do direito à breve de fome. Nos tempos que correm teremos mais vítimas inocentes, quando as torneiras eletrônicas dos salários forem indiscriminadamente fechadas.

  2. Sobre esse ultimo ponto, o manifesto da Reitoria tem entrelinhas interessantes. Veja o link:
    http://200.18.45.28/sites/noticias_ufsm/pdf/cc201e211d855ea81d7d7515f11db73f.pdf

    • 3 Róbson

      Sim, tem mesmo; mas também nas linhas. O qualificativo que segue à palavra “somente”, no ponto 5), é uma entrelinha bem clara.

      • Bem observado. Algumas linhas, em especial àquelas que se referem aos direitos das partes, são bem claras também. Para bom entendedor, a peleia vai ser bonita.

  3. 5 Alexandre

    Caros, há coisas que não entendo. A carta acima comentada esclarece que a reitoria considera “extremada” a atitude de bloquear na marra o acesso aos locais de trabalho, e que considera isto um atentado contra o estado de direito. Mas o que é interessantíssimo é notar que essa atitude totalmente troglodítica dos vagabas não seja tratada como tal. Até onde ainda consigo raciocinar logicamente, e pela minha experiência em outras ditas democracias deste planeta, atitudes “extremadas” de uma minoria que prejudiquem uma maioria e ameacem o estado de direito devem ser reprimidas e impedidas pela autoridade competente. Não entendo por que tolerar os troglos… Qual é o nosso problema?…

    • Alexandre, o tema é vasto; nesse caso específico, acho que se trata apenas de um excesso de cautela do Reitor, para não dar aos brevistas uma vitimização qualquer. No caso brasileiro, entre os reitores há uma pecha que nenhum gosta, a de trazer a polícia para o campus. Não tem sido necessário “judicializar” (como os reitores dizem) pois as ocupações usualmente são apenas sit-ins pacíficos. Ontem, no entanto, passaram a linha, a meu ver, ao desligar os elevadores e tomarem posse do prédio. Como se faz isso? Basta apertar um botão? Qualquer idiota pode fazer isso, de brincadeira? Eles se comportaram como idiotas – eu acho que menos – ou mais – do que trogloditas, o comportamento foi idiota, no sentido pleno da expressão, e receberam em troca a tolerância. Foram intolerantes com os que ali trabalham e usam o prédio e receberam em troca a tolerância. O problema me parece ser de timing, apenas; o quanto podemos ser tolerantes sem que a coisa vire uma “casa de tolerância”, como se dizia nos antigamentes do sul. Mas, como disse, o assunto é vasto, vamos voltar a isso. Abraço!

  4. 7 Róbson

    Alexandre, compartilho com você a falta de entendimento sobre o sentido não aparente de muitas declarações e atitudes surgidas nesses contextos. Tendo a pensar nos motivos: regras morais ou políticas, originadas de experiências pessoais mais ou menos genuínas, que impedem a saída dos antigos e já resolvidos paradoxos da democracia. Nessa mesma direção, motivos relativos à identidade pessoal tornam alguns atores envolvidos mais sensíveis aos recursos “enfáticos”. Outro nem tanto…
    No âmbito das razões, o contexto estratégico parece-me ser o determinante, isto é, uma avaliação de perdas e ganhos: os efeitos da produção de vítimas, o desgaste político tendo em vista os procedimentos habituais de escolha de dirigentes, a recuperação da mancha institucional chamada “Rodin” (e que liga-se ao que Ronai chamou de aprendizado institucional), etc. Enfim, é uma longa conversa; porém, penso que as pessoas em posições decisivas não precisam ter todos os recursos de esclarecimento: basta uma assessoria qualificada e a capacidade de ouvir. Aliás, talvez você tenha muito a nos ensinar sobre a redução da audição, na música e na vida pública. Porém, a carta citada indica um curso de ação, e a ‘peleia’ vai dar barulho.


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