Terça, 17: o ponto de vista do contribuinte…

17jul12

Há dois grupos sindicais, pelo menos, na mesa das negociações com o Governo, Andes e Proifes. E uma pauta que se desenvolve ao longo de muitos anos, desde os tempos em que a dedicação exclusiva era privilégio de uma minoria. Mas também há a percepção de fora dos muros dos campi. A Folha de hoje traz um exemplo, na forma de um artigo na página 3, de autoria de Alberto Carlos Almeida. Ele faria melhor se tivesse investigado a real composição da base da breve e alguns numeros complementares. Voltarei ao tema e ao artigo dele daqui a dois dias.
“Nada é mais caro nos dias de hoje para todos nós contribuintes do que nossos professores universitários funcionários públicos.
Oficialmente, eles entraram em greve no dia 17 de maio. Desde então, eles recebem integralmente, e sem atraso, seus salários.
Trata-se de algo absurdo: uma greve na qual os grevistas são pagos para não trabalhar. Seria cômico se não fosse trágico.
Trata-se da mais longa e abrangente greve remunerada do mundo. Eles querem mais recursos para as universidades. Obviamente, querem aumento salarial, querem que o governo gaste mais com eles. A reivindicação deles poderia também ser colocada do ponto de vista da receita: eles querem que o governo aumente os impostos.
Aumentar impostos com a finalidade de investir na educação básica, de melhorar o sistema de saúde, de ampliar a abrangência do Bolsa Família para diminuir a desigualdade de renda é muito mais legítimo e defensável do que aumentar impostos e ampliar os gastos com professores universitários que em sua grande maioria concluíram o doutorado, algo que os qualifica para obter recursos para a universidade de fontes que não o governo.
Eles são o elo forte da sociedade porque são as pessoas mais qualificadas do ponto de vista da educação formal. Fizeram graduação, mestrado e doutorado e ainda assim querem mais recursos públicos.
O elevado nível educacional de nossos professores é um ativo que poderia facilmente ser convertido em mais recursos para as universidades. É isso que fazem vários departamentos de engenharia, por exemplo, na Universidade Federal Fluminense e na Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Além de não fazerem greves, eles se utilizam de sua elevada qualificação técnica e educacional para fecharem contratos com empresas que financiam pesquisas.
Com esses recursos, eles equipam suas universidades, constroem prédios novos, complementam seus salários -enfim, realizam investimentos importantes em seu próprio trabalho sem onerar ainda mais o contribuinte. Eles cultivam, de fato, a identidade de professores universitários, pesquisadores e cientistas.
Por outro lado, os professores grevistas cultivam a identidade de funcionários públicos. É muito conveniente fazer greve sem nenhum tipo de custo, sem ter o ponto cortado ou sem sofrer ameaça de demissão.
Aliás, nada mais maléfico para o ensino e a pesquisa no Brasil do que professores universitários que são funcionários públicos. Aqueles professores que se consideram mais professores universitários do que funcionários públicos tendem a não entrar em greve. Por outro lado, aqueles que se consideram mais funcionários públicos do que professores, pesquisadores ou cientistas tendem a não titubear quando se trata de entrar em greve.
A greve remunerada caminha para o fracasso, pois provavelmente a presidente Dilma e o ministro Mercadante não irão ceder. Não há novidade nisso. Não se trata da primeira greve remunerada de professores funcionários púbicos que fracassará. Infelizmente, não será a última, posto que o governo não decide pelo corte de ponto dos dias não trabalhados.
O fato é que a prioridade do governo é o atendimento das demandas dos pobres que nunca entraram em uma universidade e que, portanto, não fazem ideia do que é um doutorado.
O governo federal não irá ceder para um grupo de privilegiados que, apesar de chorar miséria, pertence à classe A brasileira, compõe o andar de cima de nossa pirâmide social. É preciso direcionar os recursos públicos para quem realmente precisa. Dilma e Mercadante sabem disso.”
Alberto Carlos Almeida, que foi apresentado pela Folha como “46, doutor em ciência política, é sociólogo e autor de “A Cabeça do Brasileiro” e “O Dedo na Ferida: Menos Imposto, Mais Consumo” (ambos pela Record).”

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9 Responses to “Terça, 17: o ponto de vista do contribuinte…”

  1. 1 Alexandre

    Pois é… o problema é que nem todas as áreas receberiam investimento privado num país como o Brasil. Quem investiria em filosofia ou arte?

    • 2 Ronai Rocha

      Certamente. O exemplo do articulista deixa isso claro, e alguns casos locais mostram que a prática elogiada por ele pode ter consequências muito duvidosas. Eu transcrevi o texto dele como um lembrete para as formas de recepção de certos aspectos da breve, que muita gente teima em desconhecer. Como diria o personagem de Semprun, “camarada, permita-me fazer tua autocrítica….”

  2. 3 Gisele Secco

    Ronai,
    pelo que entendi desse texto do Observatório (http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed703_o_jornalismo_cego_as_armadilhas_do_discurso_oficial), de acordo com a oximorosa “proposta definitiva”, então, um vivente como eu entraria (mesmo com doutorado) na classe mais baixa, receberia esse salário durante todo o tempo do estágio probatório e só depois é que poderia pleitear o “merecido”?
    HUm…

    • 4 Gisele Secco

      (Eu não tinha baixado as planilhas, tava com as informações pela metade. Agora acho que entendi!)

      • 5 Ronai Rocha

        Então confirmam pra mim: no documento “Aspectos Conceituais…” o que se entende é isso mesmo que suspeitas, não? Isso é maluco, vai contra toda a prática de contratação de décadas. Não passa pela Andifes. E outra coisa que avança o sinal são as 12 horas como mínimo, algo que também não vai passar pela Andifes, acho eu. Talvez sejam bodes.

  3. 6 Gisele Secco

    É isso mesmo. Ocorre que a bruto do Auxiliar dobra pra quem tem doutorado, Mas aí entra outro ponto, que diz respeito ao fato de que o governo estaria “embutindo” a Remuneração por Titulação no salário e divulgando o valor como sendo um único, algo assim.
    De todo modo o texto do OI aponta pra um fato um pouco triste, que é a qualidade mediana da cobertura nos jornais (eu pelo menos, que só leio ZH, O Globo, O Estadão – e quase não mais a FSP ns versões mais fugazes dos sites). É tudo meio semi-informado, se não correr atrás de fontes você mesmo, em alguns casos com o que se informa dá pra avaliar muito pouco, e bem superficialmente, o fenômeno “greve nas federais”.

  4. 8 Róbson

    Ronai, você já leu essa notícia? http://proifes.org.br/relato-proifes-federacao-foi-recebido-em-audiencia-pelo-mpog-e-mec-%E2%80%93-18-de-julho/

    Certas ausências são notáveis. Seria possível que estaria em curso não tanto uma ‘saída honrosa’ para uns, mas uma batalha vitoriosa – para outros – na guerra sindical? A mim chamou a atenção o fato de a equiparação com a carreira do MCT ter desaparecido do discurso (e da proposta), ressurgindo agora na mesa de negociação. A famosa hipótese do ‘bode’ parece estar em conexão com táticas de médio prazo.

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