Armas e pessoas

23jul12

Graças uma tuitada da Francine Nunes encontrei um artigo sobre filosofia da tecnologia que discute o slogan “Armas não matam pessoas, pessoas matam pessoas”. Esse slogan, não por acaso, é adotado pela poderosa associação de apreciadores de armas nos EUA, a NRA. A pergunta do articulista é se esse slogan resiste a um escrutínio filosófico. A resposta inclina-se pelo não. Eu me senti inclinado a acompanhar as posições dos filósofos ali apresentados, Bruno Latour e Don Ihde.
Por outro não pude deixar de me lembrar de uns textos de Thoreau, sobre jovens e armas que, lidos hoje, mostram o quanto certas coisas mudaram no campo das armas, não tanto no espírito com que foram concebidas, mas nas condições de uso e acesso.
Thoreau escreveu sobre armas, caçadas e pescarias no capítulo intitulado Leis Superiores, em Walden. Não sei de nenhum outro pensador que tenha escrito sobre essas coisas. E me pergunto sobre qual escritor teria escrito uma frase assustadora como essa: “Não podemos deixar de ter pena do garoto que nunca disparou um revólver; ele não se tornou mais humano, ao passo que sua educação foi tristemente negligenciada”.
Eu deveria deixar esse assunto assim mesmo, para que o leitor se sentisse provocado a entender como é que um romântico e transcendentalista como Thoreau pode dar sentido a uma frase como essa. O que me ocorre é apenas isso: a frase de Thoreau (1817-1862) foi escrita em mundo muito diferente do nosso, em muitos sentidos: ainda havia muita natureza intocada, nenhuma grande guerra mundial havia ocorrido e um certo otimismo ainda era possível de ser nutrido; caçar e pescar faziam parte dos divertimentos “mais primitivos e solitários” de um menino; “na minha geração quase todo garoto da Nova Inglaterra, entre os dez e os quatorze anos, carregou às costas uma espingarda”, ele escreve. Depois de uma frase aparentemente trivial e descritiva, surge o pensador, que assim argumenta: se o convívio com as armas pode fazer parte de nossa educação, abandonar as armas de fogo também está no nosso caminho “para a vida espiritual”. O ser humano é sempre dual: queremos, de um lado, “agarrar a vida cruamente e passar o dia ao jeito dos animais”, mas também temos “um instinto voltado para as coisas elevadas”. Ao recomendar que os garotos experimentem as armas, Thoreau acrescenta, no mesmo parágrafo: eu confio que eles vão superar isso, “nenhum ser humano, passada a fase de estouvamento da infância, irá irresponsavelmente assassinar qualquer criatura, que valoriza a vida pelo mesmo título de posse que ele. A lebre em sua hora extrema chora que nem uma criancinha.”

Ando disposto a abandonar a arma de fogo”, diz ele, e disso se segue, entre outras coisas, uma reflexão sobre nossos hábitos alimentares: “Quaisquer que sejam minhas práticas de alimentação, estou convicto de que faz parte do destino da raça humana, em seu progresso gradual, abandonar o hábito de comer animais do mesmo modo que as tribos selvagens abandonaram a antropofagia ao entrarem em contato com os mais civilizados”.
Fiquei assim, lembrando desses textos de Thoreau. Acho que eles nos ajudam a entender melhor certas coisas. E outras coisas.

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2 Responses to “Armas e pessoas”

    • 2 Ronai Rocha

      Obrigado, Gi. Aqui no Brasil um deputado já está defendendo um afrouxamento na venda de armas… Tudo de novo!


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